Viagens, mochilão e mulher na estrada: um bate-papo com a jornalista Shirley Pacelli

“Você pisa na estrada e se não controlar seus pés não há como saber até onde você pode ser levado”. O trecho que inicia esse artigo foi retirado da série de livros “O Senhor dos Anéis”, de J.R.R. Tolkien, e, de alguma forma, traduz o encanto de viajar: descobertas, novas experiências, contatos com outras culturas… uma síntese da nossa vontade de desbravar o universo que nos cerca.

Porém, não basta uma mochila nas costas para cair na estrada. São necessárias algumas doses de planejamento e bastante coragem para encarar um roteiro que foge das viagens tradicionais. Saem os hotéis e os tradicionais roteiros para entrar em cena os hostels, os pratos de comida que não ganham hashtag no Instagram e locais muitas vezes paradisíacos, mas que não são visitados pela grande massa turística.

Para quem escolhe “mochilar” a experiência é sempre desafiadora, mas para as mulheres esse desafio é sempre mais complicado. Se o simples caminho de casa até o trabalho ou local de estudo é recheado de provações para elas – assobios, cantadas e assédio, como alguns exemplos –; imagina encarar um local desconhecido e com uma cultura completamente diferente? É preciso vontade, gana, fibra e coragem para se sentir um pouco mais livre em um mundo dominado por uma cultura machista.

Mas essas qualidades as mulheres têm de sobra. E neste artigo trazemos um pouco da história da jornalista itabirana Shirley Pacelli, que, dentre várias jornadas, passou o último semestre na estrada desbravando um pouco das américas Central e Latina. Ao todo foram seis meses e 13 dias. Confira esse bate-papo:

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Trem das Gerais: Quando e como surgiu a ideia de fazer esse mochilão pela América Central e Latina?

Shirley Pacelli: O sonho de fazer uma viagem mais longa eu guardo comigo já faz muito tempo. Durante quatro anos peguei estrada apenas no mês de férias porque não podia me dar ao luxo de pedir licença ou demissão do meu trabalho. Em março de 2016, fui demitida com outras dezenas de colegas por aderir às paralisações e protestos em defesa de direitos trabalhistas, tais como o pagamento do nosso 13º salário. Vi aí minha grande oportunidade: teria o tempo, o dinheiro e a gana necessários.

Queria viajar para um lugar barato e aprender espanhol. Como já conhecia parte da América do Sul, a América Central se mostrou o destino certo. Além disso, duas amigas acabavam de voltar de uma viagem latinoamericana com um roteiro no qual acabei me inspirando. Elas criaram o “Posso Provar?“,espécie de diário de viagem com foco na culinária.

TG: Como foi o processo de organização e planejamento dessa viagem?

SP: Foi louco! Decidida a região, era hora de buscar as passagens o quanto antes para garantir um bom preço. Para ter tempo de planejar tudo, decidi viajar somente no segundo semestre de 2016. Uma amiga iria tirar férias em agosto e queria embarcar para Cuba. Achei que seria uma experiência incrível, combinamos e a ilha entrou como o primeiro país do meu roteiro. Daí fui simulando e acompanhando os preços das mais diversas companhias. Tentei Brasil/Cuba/Panamá/Brasil, mas saía muito caro e não fazia sentido subir para alcançar a Guatemala e a Nicarágua, regressando de ônibus de novo para o Panamá. Acabei conseguindo um preço em conta para Brasil/Cuba/México e retorno pela Colômbia. A ideia era ir descendo toda a América Central e pegar um barquinho do Panamá para a Colômbia. Esse era o plano inicial.

Fora passagem, fiz uma lista com as quinze milhões de coisas que precisava resolver e ela só crescia dia a dia. Decidi que iria trabalhar em troca de hospedagem e alimentação para tornar minha viagem mais barata. E se iria trabalhar, optei por organizações não governamentais. Queria contribuir com a comunidade local e não enriquecer mais gringos donos de negócios nesses países. Procurei oportunidades como voluntária no Workaway. Outras consegui no “boca a boca” mesmo.

Tive que comprar seguro saúde, pensar na troca de moeda (cartão VTM, dinheiro vivo, cartão de crédito), primeiros hostels, trabalhos, “farmacinha” e mochila (desde roupa para os 40°C cubanos até o frio no topo de um vulcão). E tudo depois de pesquisar muito pelo melhor custo benefício do mercado.

Fora isso, tinha que pensar na minha vida no Brasil. Resolvi alugar meu apartamento no Airbnb para “fazer dinheiro” e precisei deixá-lo perfeito para os hóspedes. Você precisa levar em conta desde os sabonetes aos clientes até as fotos do seu anúncio e tralhas que não vão contigo para a viagem e precisam sumir dali. Um amigo se tornou o anfitrião, responsável por receber os hóspedes, além de fazer a limpeza e a comunicação online. Senhor, que até as despedidas você precisa organizar. Consegui dizer um até logo para todos meus amigos de Belo Horizonte e Itabira nos 45 do segundo tempo.

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TG: Por quais países você passou? Por que a escolha desses países?

SP: Fiquei duas semanas em Cuba, uns cinco dias no México, um dia em Belize, um mês e pouco na Guatemala, cinco dias em El Salvador, quase dois meses na Nicarágua, uma semana na Costa Rica, dez dias no Panamá e um mês e meio na Colômbia.

A América Central é um lugar tão rico quando pensamos em beleza naturais e cultura e poucos brasileiros vão além dos resorts caribenhos. Queria conhecer mais sobre países que têm a mesma história de exploração que o Brasil para entender um pouquinho mais o que é ser latinoamericano.

Cuba é tão única quando a gente pensa em sua história que é impossível não ter curiosidade sobre o país. México eu já havia visitado algumas vezes, por isso passei bem rápido. É um lugar maravilhoso que vale uma viagem só para ele. Belize, bem, estava no caminho (risos). Colômbia, desde que me apresentaram Gabriel García Márquez, figurava na minha lista de países a conhecer. Os outros destinos tinham sido bem recomendados por minhas amigas do projeto “Posso Provar”. Nicarágua e Colômbia são muito baratos, além de encantadores, por isso meu tempo maior de estadia.

TG: Como você avalia a experiência dessa sua viagem?

SP: A coisa mais foda que eu fiz até hoje. Posso falar isso? Não posso (risos). Então, coloca aí que foi a coisa mais maravilhosamente louca que eu fiz. Você volta outro. A Shirley que partiu em agosto de 2016 é outra. Convivi com mães solteiras da minha idade que precisavam alimentar quatro filhos e só tinham suco de milho para dar a eles. Dei aulas para pequenos numa escola sem estrutura nenhuma. A água potável ficava em umas garrafas pets num canto e a merenda volta e meia não aparecia. Mesmo assim, meus alunos dividiam seus biscoitos comigo. Passei a reconhecer mais os privilégios que tenho, a dar mais valor à minha casa, à comida, a ser mais sensível e aberta a outros costumes e, claro, um pouco mais “vida louca”. Você aprende a se virar. Enfrenta seus medos diariamente. Quebra tabus. Se refaz. Se reinventa.

TG: Como é viajar sozinha por países e culturas diferentes? E para uma mulher, como é a experiência de fazer uma aventura dessas sozinha?

SP: Desde a minha primeira viagem internacional em 2012 para a África do Sul eu só pego a estrada sozinha. A única exceção foi em 2015, quando fiz um mochilão Bolívia/Peru com um amigo. Eu amo viajar sozinha. Cada país, um novo aprendizado. Sua mente se expande. Quando se está só sinto que você fica mais propenso a conhecer pessoas, interagir com a comunidade e ter experiências novas. Sozinha eu faço o roteiro de acordo unicamente com minhas preferências.

Eu curto caminhar muito pelas cidades, fazer tours em busca de grafites, provar comida de rua, perambular por mercadinhos. Tem gente que tem outra vibe. Curte fazer checklist de pontos turísticos, muitas selfies, compras… E não há problemas nisso também. Só não é muito a minha maneira de viver o local.

Mulher viajando sozinha é tenso. Tem homem escroto em qualquer lugar do mundo. Mas também tem mulher maravilhosa em todo canto. E a gente se ajuda. Sempre me perguntam porque estou viajando sozinha, onde está meu marido, se não tenho filhos, se não é chato. Chato é esse povo achando que a única função nossa é casar, procriar e atender aos desejos de um dono. Perdi as contas de quantas vezes abriram um sorrisinho malicioso ao dizer que era brasileira. Ou quantos foram os pedidos para eu sambar.

O assédio é constante. Sendo mulher você tem que estar alerta o tempo inteiro. Nunca fico bêbada se estou só, confiro no GPS o caminho por onde o táxi está indo, sempre pergunto aos locais se é seguro caminhar por tal região antes de sair. Tento me adaptar às vestimentas das mulheres por onde passo para não chamar muita atenção. Informo sempre à minha família onde e com quem estou.

Ser viajante em uma das regiões onde a violência contra a mulher é uma das maiores do mundo é extremamente perigoso. Mas viver no Brasil sendo mulher também é. Acho importante que ocupemos os espaços e não nos deixemos levar por toda essa intimidação social. Confie em você, se prepare, e vá. Temos o direito à liberdade. Viajar sozinha é revolucionário, como bem prega a campanha #ITravelAlone da Worldpackers.

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TG: Devido ao machismo, as mulheres enfrentam diversos desafios. Passou por alguma situação constrangedora ou ameaçadora por ser mulher viajante?

SP: Várias. Em Cuba, com minhas amigas, tomamos um táxi coletivo e o motorista estava dando voltas como se estivesse perdido enquanto nos assediava. O assédio nas ruas de Cuba é surreal. Taxistas da Nicarágua sempre me perguntavam se tinha namorado e diante da resposta negativa, começavam a “paquera”. Nesse país, cada mergulho na Laguna de Apoyo era um grande acontecimento. Por mais turístico que fosse o lugar, na praia pública as mulheres locais se banhavam até de jeans e um biquíni causava grande comoção.

Fui perseguida por um bêbado na Ilha de Ometepe, também na Nicarágua. As luzes tinham acabado na ilha, estava a caminho de um restaurante e tive que correr. Só parei quando avistei um casal. O senhor me levou até a porta do restaurante com um facão na mão. Fiquei muito assustada nesse dia.

Riohacha, na Colômbia, é o lugar mais machista de toda a minha viagem. Eu saía numa caminhada para espairecer e voltava com ódio. Os homens não te dão paz. Falam, buzinam, assobiam e gesticulam. As mulheres de lá, especialmente as indígenas wayuu, são as mais fortes que conheci. Tem que ter muita garra para lidar com tudo isso ainda em meio a um contexto de extrema pobreza.

TG: Quais conselhos daria para uma pessoa que queira passar por uma aventura como a sua?

SP: Antes de tudo, cuidado com a onda “casal pede demissão, larga tudo e vai viajar pelo mundo”. Há uma febre disso nos últimos anos e é muito fácil abrir mão de emprego se você tem quem te banque durante seu ano sabático. É incrível viajar, sim. Mas, para nós, pobres mortais, é preciso, além da coragem, um planejamento. Ao decidir pela minha aventura, eu escolhi abrir mão de qualquer luxo. Dormi em redes, barracas, comi miojo na ceia de Natal, andei de chicken-bus para todo lado, peguei carona, trabalhei de garçonete e recepcionista. E, sim, fui muito feliz.

Fez todas as suas contas, refletiu bem sobre todos os desafios e é isso mesmo que você quer?

Vá! Não digo “vá sem medo” porque isso não existe para nós mulheres e, de certo modo, esse sentimento, na medida que nos coloca em alerta, serve como mecanismo de autoproteção. Um certo respeito pelo desafio faz bem. Para as mulheres, digo para se preparar bem, pesquisar os lugares por onde vai passar e fazer amizades com outras companheiras no caminho. Uma dando suporte à outra. No mais, desfrute! Se jogue! Confie nas pessoas. Deixe sua mente e coração abertos para as novas experiências, culturas, perrengues e aprendizados do caminho.

TG: Gostaria de acrescentar mais alguma coisa?

SP: Tenho um Instagram com as fotos da viagem. Quem sabe alguém se inspire… É o @roletur. Se quiserem uma consultoria de viagem é só entrar em contato por lá (risos)! No momento, estou atualizando a conta com eventos culturais que costumo frequentar em Belo Horizonte. Vão das batucadas e freestyle dos MCs sob o viaduto Santa Tereza até atos a favor dos direitos das mulheres, como o de hoje (08 de março, Dia Internacional da Mulher).

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.