2019: o ano em que o Oscar, de certa forma, quebrou tabus

Nesse domingo, 24 de fevereiro, aconteceu em Los Angeles, a tão aguardada cerimônia do Oscar. E foi uma das cerimônias mais lindas já vistas nos últimos anos. Depois de diversas edições carregadas de críticas e questionamentos, a Academia finalmente parece estar entendendo que representatividade importa sim. Apesar de ter dado um passo pequeno na direção de uma cerimônia realística, muita gente gostou do que viu e concordou com os prêmios que foram entregues.

Algo que se  refletiu na audiência dessa cerimônia. Essa é a primeira vez, em 30 anos, que a premiação não foi conduzida por um apresentador principal. O que parece ter sido bem recebido pelo público. Segundo a ABC, emissora norte-americana responsável pela transmissão, a audiência cresceu 12% em relação ao ano passado. Assim, uma média de 29 milhões de telespectadores assistiram a um time com mais de 50 celebridades, das mais amadas da indústria do cinema, se revezar na apresentação das categorias. Isso deu mais dinamismo, momentos divertidos e uma redução de cerca de 40 minutos no tempo total do programa.

Momentos inesquecíveis

A festa já começou abalando as estruturas do Kodak Theater com uma apresentação do grupo britânico Queen, comandado por Adam Lambert. Na sequência, as trizes Tina Fey, Amy Poehler e Maya Rudolph abriram os trabalhos com um texto divertidíssimo em que fizeram piadas com os indicados e até cantaram. Assim, elas deram a tônica doque seria a premiação: um clima leve, alegre, de comemorações, boas surpresas e muita emoção.

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Clima que foi mantido pelos atores Melissa McCarthy e Brian Tyree Henry que apresentaram o prêmio de Melhor Figurino. Vestidos com um visual um tanto quanto extravagante, entregaram o prêmio para a incrível figurinista de “Pantera Negra”, Ruth Carter, que disse esperar por isso há muito tempo. Ela agradeceu a Spike Lee “por proporcionar minha primeira oportunidade. Espero que isso te deixe orgulhoso. A Marvel pode ter criado o primeiro super-herói negro, mas foi através do figurino que o transformamos em um rei africano”. Há mais de 30 anos na indústria do cinema e indicada outras duas vezes, ela foi a primeira mulher negra a receber o prêmio nessa categoria, mas foi a única a quebrar tabus nessa noite.

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“Pantera Negra” proporcionou outros dois prêmios importantes: trilha sonora original e direção de arte. Nessa última, mais uma conquista história: Hannah Beachler se tornou a primeira pessoa negra a ganhar o Oscar. Emocionada, agradeceu ao diretor do filme, Ryan Coogler, por ele oferecer a ela “uma perspectiva diferente sobre a vida”.

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2019 foi um ano de recordes importantes. Ao todo, 7 estatuetas foram entregues, merecidamente, a profissionais negros e 15 para mulheres. Entre elas, a genial Regina King, que, com sua estatueta da melhor atriz coadjuvante por “Se a Rua Beale Falasse” em mãos, fez questão de ressaltar que “James Baldwin (autor do livro que inspirou o filme) deu à luz esse bebê e Barry (Jenkins, diretor do filme) o criou e cercou com muito amor e apoio. Então, é apropriado que eu esteja aqui de pé porque sou um exemplo do que acontece quando se recebe apoio e amor”. E finalizou, visivelmente emocionada, dizendo que “Deus é bom. Deus é bom o tempo todo”.

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Lady Gaga e Spike Lee, dois espetáculos à parte

Gaga estava indica a melhor atriz e melhor música (“Shallow”) por “Nasce uma estrela”. Como atriz, ela foi desbancada pela simpática Olívia Colman (“A Favorita”), mas como compositora, brilho imensamente. Pouco depois de protagonizar um dos momentos mais marcantes da noite, interpretando a canção ao lado de Bradley Cooper, diretor e seu parceiro de cena no filme, ela não segurou a emoção ao receber o Oscar de melhor música.

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Seu discurso foi encantador. “Se você está em casa, no seu sofá, assistindo a isso, tudo o que eu tenho a dizer é que esse é um trabalho duro. Eu trabalhei duro por muito tempo para chegar até aqui. Não é sobre ganhar, é sobre não desistir. Se você tem um sonho, lute por ele. Existe uma disciplina. Não é sobre quantas vezes você foi rejeitado, caiu e teve que levantar. É quantas vezes você fica em pé, levanta a cabeça e segue em frente”.

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Já o diretor Spike Lee ganhou seu primeiro Oscar “verdadeiro” pelo roteiro adaptado de “Infiltrado na Klan”. Em 2006, ele recebeu um Oscar Honorário e na época criticou a quantidade de negros concorrendo ao prêmio. Esse ano, ao receber a estatueta das mãos de Samuel L. Jackson, pulou no colo do colega e fez o discurso mais poderoso da noite destacando que “gostaria de reverenciar os ancestrais que construíram esse país, e também os que sofreram genocídios. Os ancestrais que vão ajudar a voltarmos a ganhar nossa humanidade. As eleições de 2020 estão chegando, vamos pensar nisso. Vamos nos mobilizar, estar do lado certo da história. É uma escolha moral. Do amor sobre ódio. Vamos fazer a coisa certa”.

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Outros destaques e polêmicas

“Homem-Aranha no Aranhaverso”, animação revolucionária da Sony Animation, que apresenta para o grande público Miles Davis, um personagem bastante conhecido dos aficionados por HQ, desbancou as gigantes da animação e levou mais um prêmio! A história do garoto negro, de descendência hispânica, filho de um policial no Brooklyn, que se torna o Homem-Aranha, é mais uma quebra no esteriótipo de herói. Em seu discurso, Phil Lord, um dos produtores do filme disse: “Então, quando ouvimos que o filho de alguém estava assistindo ao filme, virou-se para ele e disse: “Ele parece comigo” ou “Eles falam espanhol como nós”, achamos que já vencemos”.

Imigrantes e estrangeiros tiveram uma linda cota de reconhecimento esse ano. O mexicano Alfonso Cuarón brilhou com a história de sua vida, contada sob a ótica de sua babá, no emocionante “Roma” que foi rendeu três estatuetas: filmes estrangeiro, fotografia e direção. Ele fez questão de agradecer à Academia por “reconhecer um filme centrado em uma mulher indígena. Uma das 70 milhões de trabalhadoras domésticas sem direitos. Uma personagem que, historicamente, foi relegada a segundo plano no cinema. Como artistas, nosso trabalho é olhar para onde os outros não olham. Essa responsabilidade se torna muito mais importante em momentos em que somos encorajados a olhar para o outro lado”.

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Rami Malek, que se se consagrou melhor ator pela interpretação inesquecível de Freddie Mercury, em “Bohemian Rhapisody”, ganhou o coração de muita gente com um discurso sentimental e fofo. Filho de imigrantes egípcio, disse que “parte da minha história está sendo escrita agora. E não poderia ser mais grato a todos que acreditaram em mim. Fizemos um filme sobre um homem gay, imigrante, que viveu sua vida sem pedir licença. Precisamos de histórias como essa.” E finalizou se declarando para Lucy Boynton, sua parceira de cena no filme. “Você está no coração desse filme, você é uma pessoa de muito talento. E você roubou meu coração”.

Rami Malek, winner of the award for best performance by an actor in a leading role for "Bohemian Rhapsody", poses in the press room at the Oscars on Sunday, Feb. 24, 2019, at the Dolby Theatre in Los Angeles. (Photo by Jordan Strauss/Invision/AP)

“Green Book: O Guia” se consagrou o grande vencedor de melhor filme. A história, baseada em fatos reais, que fala sobre a amizade entre um motorista racista e o músico negro de jazz, Dr. Don Chealey, também rendeu mais um Oscar de ator coadjuvante a Mahershala Ali. Apesar disso, sofreu pesadas críticas. Entre elas, o de cometer racismo velado. O diretor Spike Lee foi um dos que manifestou sua insatisfação. Segundo o site Deadline, assim que ouviu o nome do grande campeão da noite, ele caminhou para o fundo do teatro e permaneceu de costas enquanto os discursos eram feitos no palco.

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Depois do evento, em entrevista ao programa “Entertainment Tonight”, Lee usou o bom humor e fez uma analogia com os jogos do New York Knicks, que costuma acompanhar nos estádios. “O árbitro fez uma decisão ruim.” E ainda completou dizendo que “toda vez que tem alguém dirigindo, eu perco”, uma referência clara ao Oscar de 1990, em que perdeu a estatueta por “Faça a coisa certa” para “Conduzindo Miss Daisy”.

Apesar de a Academia ter mostrado que está mudando sua “visão branca” mundo, ainda há um árduo caminho a ser percorrido. É incrível ver um filme como “Pantera Negra”, que foi quase inteiramente produzido e interpretado por negros, se inspirou na África para construir todos os aspectos da história e incutiu no público essa sensação de pertencimento e de reconhecimento, figurar entre um dos que recebeu mais indicações.

Mais que isso, outros nomes como “Infiltrado na Klan” e “Se a Rua Beale Falasse” mereciam sair vencedores e receber mais destaque. Mais que suas histórias impactantes e reais, eles mostraram que há muito o que mudar na indústria do cinema norte-americano. Como referência nesse mercado, ela deveria ser a primeira a mostrar que representatividade importa, sim! Por mais Oscar’s como o de 2019! E que as lições de sororidade, espírito de cooperação e valorização da diversidade sejam propagadas daqui em diante.

Confira a lista completa de ganhadores:

Melhor Atriz Coadjuvante: Regina King
Melhor Documentário: Free Solo
Melhor Maquiagem: Vice
Melhor Figurino: Pantera Negra
Melhor Fotografia: Roma
Melhor Direção de Arte: Pantera Negra
Melhor Edição de Som em Filme: Bohemian Rhapsody
Melhor Mixagem de Som em Filme: Bohemian Rhapsody
Melhor Filme Estrangeiro: Roma

Melhor Edição: Bohemian Rhapsody 
Melhor Ator Coadjuvante: Mahershala Ali
Melhor Filme de Animação: O Homem-Aranha no Aranhaverso
Melhor Curta de Animação: Bao 
Melhor Documentário Curta-Metragem: Absorvendo o Tabu
Melhor Curta-Metragem: Skin
Melhores Efeitos Visuais: O Primeiro Homem
Melhor Roteiro Original: Green Book – O Guia
Melhor Trilha Sonora Original: Pantera Negra 
Melhor Canção Original: Shallow
Melhor Roteiro Adaptado: Infiltrado na Klan
Melhor Atriz: Olivia Colman
Melhor Diretor: Alfonso Cuarón, por Roma
Melhor Filme: Green Book – O Guia
 
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Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras