OPINIÃO: Cidade criativa e o papel da gastronomia

A UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) criou, em 2004, um projeto intitulado ‘Rede de Cidades Criativas’ (em inglês: “Creative Cities Network”). Esse projeto tem como objetivo principal criar uma rede de cidades criativas que possam promover diversas ações, de maneira integrada, para se desenvolverem no contexto urbano sustentável.

Essa rede, composta hoje por 116 membros de 54 países, abrange alguns campos criativos por meio dos quais outros projetos são desenvolvidos. Os campos criativos são: artesanato e artes folclóricas; artes de mídia; design; cinema; literatura; música e gastronomia. No caso da gastronomia, o projeto ‘Cidades Criativas da Gastronomia’ (em inglês: “Creative Cities of Gastronomy”) possui representantes em 15 países envolvendo um total de 18 cidades. Os países que possuem representantes são: Brasil, China, Colômbia, Coréia do Sul, Espanha, Estados Unidos, Irã, Itália, Japão, Líbano, México, Noruega, Suécia, Tailândia e Turquia. O Brasil possui como representantes, nesse projeto, as cidades de Belém (PA) e Florianópolis (SC).

Para que a cidade tenha esse ‘rótulo’ é preciso que o setor da gastronomia seja bem desenvolvido, tanto na produção da matéria prima quanto no preparo e no desenvolvimento e promoção da região com expertise para esse tipo de atividade. Além disso, é fundamental que se tenha uma agenda de políticas públicas direcionada especificamente para o setor.

O que eu quero dizer com isso tudo? A relação que faço neste artigo é a de que o papel da gastronomia vai além do ambiente da cozinha; envolve, também, os parceiros – instituições públicas, privadas e do terceiro setor – dessa cadeia, com destaque para a sociedade, por meio da qual também é possível identificar os valores culturais, as tradições, os costumes e símbolos que compreendem a culinária local. Reforço ainda o fato de que a gastronomia, considerada como patrimônio imaterial, é vista como uma característica, uma identidade única referente a determinado lugar ou comunidade no qual os elementos da culinária como os alimentos, os ingredientes, o preparo, o saber-fazer, o conhecimento e o envolvimento com a cozinha são considerados parte desse patrimônio.

O fortalecimento de uma cidade criativa, conforme a proposta da UNESCO, não se dá apenas pelos aspectos políticos, sociais, econômicos, naturais ou de estrutura física. As cidades criativas conseguem promover suas ações e atrair investimentos e turismo também por meio dos seus recursos tangíveis e intangíveis, como é o caso da gastronomia e todos os valores culturais e socioeconômicos que a envolve.

O benefício dessa identificação – cidade criativa da gastronomia – está na promoção da região como destino turístico gastronômico. Isso quer dizer que oportunidades de desenvolvimento econômico e social podem ser associadas ou incrementadas, a partir do aumento do fluxo de turistas, investidores e participação da sociedade local. Se a gastronomia era considerada como elemento de suporte ao turismo, agora o movimento é considerá-la como elemento principal, um atributo que influencia na decisão do turista em visitar determinado lugar.

Após todo esse ‘aperitivo’ de discussão, a ‘sobremesa’ é pensarmos se alguma cidade mineira pode ser intitulada como cidade criativa da gastronomia. Que tal Belo Horizonte? E por que não “Minas Gerais, o estado criativo da gastronomia”? Este tema está posto à mesa, sirvam-se à vontade. Aproveite o ‘apetite’ e dê a sua sugestão de cidade criativa da gastronomia em Minas Gerais.

Lélis Maia Brito, autor deste artigo, é professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e membro da Frente da Gastronomia Mineira.

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