Mineiridade: refeição farta em cultura

A culinária é considerada uma das formas de comunicar significados sociais pertencentes a determinado grupo, tanto entre aqueles que a vivenciam quanto entre aqueles que a consomem. O atrativo da culinária local não se detém apenas na comida, mas também no modo de preparo, nos ingredientes, nos valores culturais locais, no ambiente e nos símbolos que envolvem a cozinha.

A cozinha mineira se insere nesse assunto diante da busca e da valorização de uma culinária típica repleta de significados, símbolos, tradições, cultura e história. Acredita-se que a busca por esse tipo de culinária não está enraizada apenas na comida (ingredientes, preparo e sabor), mas também em todo o ambiente e imaginário que a envolve. Todos esses símbolos, valores e modo de vida podem ser entendidos como “mineiridade”.

Na verdade, o termo “mineiridade” possui uma diversidade de significados. Para alguns autores, o termo é utilizado para explicar os contextos históricos da sociedade mineira entre os períodos do apogeu e declínio da base mineradora e o processo de ruralização da economia. Enquanto que, para outros, o termo envolve uma conotação política face ao contexto político e econômico vigente nos períodos das décadas de 1920 e 1940, nos quais as obras foram publicadas. Diversos autores discutem sobre mineiridade havendo, portanto, diferentes interpretações ou categorizações sobre esse termo.

Apesar dessa diversidade, de maneira geral, a mineiridade pode ser entendida como um conjunto de valores, costumes e tradições do povo mineiro. O fundamental é que a mineiridade faz parte do imaginário local e nacional sobre o jeito de ser do mineiro, e que tem sido fortalecido por meio de políticas públicas em diversas áreas, com destaque para o turismo, a cultura e a gastronomia.

A mineiridade pode ser tipificada por diversos elementos, dentre os quais a culinária. Quando falamos sobre o consumo da mineiridade na culinária estamos, também, falando sobre o consumo de um imaginário mineiro em um ambiente – bares, restaurantes e, em especial, eventos “gastronômicos”. Em se tratando desse ambiente de consumo da culinária mineira, podemos citar como elementos ou estímulos ao consumo a história do local, os móveis, a comida em si, os utensílios, a paisagem arquitetônica, a recepção do consumidor e o tratamento recebido, o sotaque e outros elementos. Dizemos que os elementos tangíveis que compõem a mineiridade da cozinha influenciam no comportamento do consumidor tanto quanto os elementos intangíveis, tais como a nostalgia e o sentimento familiar que envolve toda a cozinha mineira.

O consumo da mineiridade, materializado na culinária típica local, é considerado como tradicional, cultural, familiar e até mesmo nostálgico, uma vez que proporciona ao consumidor, entre um saboroso prato e outro, relembrar bons momentos. Há quem prefira a rusticidade, o ambiente nostálgico, a comida feita em um fogão a lenha e a simplicidade de uma cozinha mineira à sofisticação, à inovação e ao multiculturalismo das cozinhas modernas dos principais centros urbanos.

Isso tudo significa que a culinária vem se tornando um atrativo fundamental ao turismo, despontando como turismo culinário cultural, pois além de saborear a comida, o turista vivencia as características locais – no caso, o “modo de vida à mineira”. Esse comportamento é entendido como uma forma da sociedade tentar criar novos laços entre a modernidade e a rusticidade, entre o futuro e o passado, entre as raízes históricas e a atualidade.

Fecho a conta com a seguinte reflexão: Qual “sabor” podemos tirar dessa refeição? Estamos experimentando um processo de mudanças na nossa gastronomia, tanto com a participação de instituições públicas e privadas quanto da sociedade, principalmente dela. Políticas públicas foram propostas, estratégias criadas, imagem em construção, eventos sendo promovidos e uma sensação: precisamos avançar no sentido de idealizar a gastronomia mineira como uma marca! E que, aqui, fique registrado isso.

*Artigo escrito por Lélis Maia Brito, professor da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e membro da Frente da Gastronomia Mineira.

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