Gastrodiplomacia: “conquistando coração e mente através do estômago”

Acredito que vocês já ouviram falar da seguinte expressão “ganhar pelo estômago”. Pois então, é a partir dessa expressão que apresento o termo “gastrodiplomacia”. Esse conceito foi idealizado por Paul S. Rockower, que o definiu da seguinte forma: “um método para alcançar corações e mentes através do estômago das pessoas”.

Antes de “folhear o cardápio” é importante frisar que há outros conceitos e discussões que envolvem esse tema. Estamos, neste artigo de opinião, extraindo apenas parcela de um entendimento sobre gastrodiplomacia. Tenho certeza que essa “refeição”, diria, artigo, não nos “saciará a fome”. Pelo contrário, ela abrirá o nosso apetite por mais informação e conhecimento.

Sendo assim, de maneira geral, é importante, por ora, apenas diferenciarmos dois conceitos. De um lado, temos a “diplomacia culinária”, e de outro a “gastrodiplomacia”. A diplomacia culinária significa a prática da utilização de alimentos para atividades diplomáticas formais com o objetivo de melhorar as relações entre os representantes. A gastrodiplomacia, por sua vez, compreende-se em uma tentativa, mais específica e incisiva que a diplomacia culinária, de ir além da utilização da alimentação nas relações diplomáticas ao promover e valorizar a gastronomia nacional.

O que eu quero dizer é que diplomacia culinária e gastrodiplomacia possuem definições diferentes que explicam, amplamente, uma mesma ideia. Para alguns autores os termos são semelhantes, enquanto para outros são conceitos e ações distintas. No nosso caso, como um artigo de opinião, apresento uma vaga conceituação dos termos e digo que, de maneira geral, são “farinha do mesmo saco”. Caso queiram aprofundar na área, posso sugerir leituras mais específicas sobre o assunto.

Para melhorar a compreensão sobre esse tema, a gastrodiplomacia ou gastronomia diplomática, também valorizada por um autor chamado Sam Chapple-Sokol, pode ser entendida como estratégias que os países e seus respectivos representantes utilizam para proporcionar uma boa impressão, dar importância para a visita diplomática em questão e, até mesmo, criar um “clima” informal na relação.

É uma maneira de utilizar a gastronomia como elemento que auxilia na condução das relações diplomáticas entre as instituições, tornar uma cultura estrangeira algo tangível, explorar todos os sentidos por meio do alimento e criar uma conexão entre as pessoas. Além disso, podemos dizer, também, que as demonstrações culinárias, as degustações e as visitas no local de produção são uma forma de conduzir, atrair e até mesmo “seduzir” as pessoas.

A gastrodiplomacia tem sido utilizada como uma ferramenta de diferenciação entre os países, tal como ocorre, por exemplo, em países da Ásia, tendo como modelo a Tailândia, pioneira nesse assunto ao adotar políticas de apoio à valorização da gastronomia nacional em países estrangeiros. Há ainda outros países que realizam ações semelhantes, como são os casos do Peru, México, Indonésia, Coréia do Sul e outros. Podemos ampliar essa lista ao considerarmos as Cidades Criativas da Gastronomia da UNESCO.

Sobre este assunto você poderá ler aqui outro artigo de opinião.

Retomando a ideia, agora, de maneira mais prática, acredito que você já ouviu histórias de pessoas que ao visitar determinado país ou uma região diferente da nossa levaram um presente local, e que esse presente, em alguns casos, trata-se de um produto alimentício. Isso é um ato que visa criar um envolvimento. Oferecer um alimento é uma das maneiras culturais, diríamos, dado o tema do artigo, diplomática, de criar esse laço de familiarização.

Há quem diga que já fez e faz isso quando há oportunidade. Temos importantes figuras públicas que adotam esse tipo de comportamento nessas circunstâncias. Chefs de cozinha em nosso Estado (e fora dele) revelam que sempre que viajam levam um produto mineiro na mala como uma maneira de promover a culinária local e estabelecer essa gastrodiplomacia.

A ideia é essa, utilizar o alimento para criar simpatia, prestígio, confiança, respeito e outros valores que influenciam no fortalecimento das relações entre as pessoas e entre as próprias instituições, sejam elas públicas, privadas e a sociedade civil. O que fica claro é que a gastronomia fortalece as conexões entre as pessoas.

No nosso caso, Minas Gerais, podemos envolver na gastrodiplomacia os valores culturais da culinária mineira, a hospitalidade, o contexto histórico e natural e o modo de vida, a nossa mineiridade. Os prêmios nacionais e internacionais que os produtores mineiros têm recebido nos últimos anos, como o caso recente dos queijos, podem ser um caminho por meio do qual possamos fortalecer a nossa gastrodiplomacia.

Mesmo diante de tamanha diversidade, qualidade e premiações precisamos, ainda mais, enaltecer os nossos ingredientes, produtos, símbolos, valores culturais, história, o saber-fazer e todo o imaginário que envolve a nossa cozinha.

A nossa gastronomia e a mineiridade têm valores suficientes para proporcionar um “ambiente mágico” gastronomicamente. Para isso é preciso apresentar o cardápio e servir. Visto isso, o convoco a ser um entusiasta da gastronomia mineira. Valorize os produtos locais e compartilhe os saberes da culinária mineira onde estiver e em todas as oportunidades. “Conquiste o coração e a mente das pessoas com a cozinha mineira”!

*Artigo produzido por Lélis Maia Brito, professor adjunto da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) e membro da Frente da Gastronomia Mineira.

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