O desafio de se formar atletas no interior

O esporte de base sempre foi um grande desafio para as pessoas que trabalham com o fomento da prática esportiva e a formação de atletas. São inúmeras dificuldades que precisam ser superadas diariamente para se desenvolver um trabalho com os jovens que sonham em participar de competições e viver do esporte. Em Itabira essa realidade não é diferente e, mesmo com esportistas alcançando bons resultados, ainda tem um longo caminho para prosseguir.

Atualmente os jovens atletas têm a sua formação iniciada em clubes, que muitas vezes contam com a parceria de empresas e entidades sociais e assistenciais nesses esforços. Porém, essas instituições, na maioria dos casos, conta com o trabalho de voluntários e profissionais técnicos, mas sofrem com as dificuldades de elaborar políticas e gestões específicas para formar e trabalhar novos esportistas.

“Hoje quem banca isso? São pessoas, microempresas e entidades assistenciais que estão cuidando desse esporte. Por isso tem a dificuldade. A gente tem o potencial, existe um trabalho técnico de formação muito bem feito, mas não temos uma estrutura para fazer o encaminhamento. Precisamos de uma integração maior”, observa o treinador e militante do esporte Luiz Carlos de Almeida, o Lulu.

Essa falta de estrutura não se refere apenas à disponibilidade de espaço ou condições dos locais de treinamento, mas também no apoio para a compra de materiais esportivos e no custeio de viagens para as competições. Essas barreiras são rotineiramente superadas para que os jovens possam participar de alguns desafios – e, ainda assim, conseguem retornar com bons resultados, a exemplo do nadador Felipe Bretas e do lutador de Taekwondo Samuel Dreyfus.

“O esporte hoje é movido por paixão. Quem está fazendo algum trabalho hoje, vamos falar do esporte especializado, são pessoas que fazem com a alma, com o braço mesmo. Não existe uma estrutura funcionando para que esse trabalho aconteça”, avalia Lulu.

As dificuldades inerentes à base de formação de atletas acabam por ser frustrantes para muitos jovens que, devido à falta de condições, veem o sonho de viver do esporte mais distante. É comum que esses esportistas consigam os índices necessários para participarem de competições em nível estadual e federal, porém só conseguem competir se eles próprios arcarem com os custos das viagens e tiverem apoio de seus treinadores. Mas são poucas as pessoas que têm condições de arcar com os custos dessa rotina de treinamentos, viagens e competições.

O incentivo do poder público, assim como o patrocínio da iniciativa privada, é fundamental para que aconteçam mudanças nesse quadro e se tenha investimento direcionado ao esporte. Em Itabira, o Conselho Municipal de Esporte tem dado os primeiros passos para que se tenham mais políticas públicas para o setor e ações que estimulem o empresariado a apoiar os atletas locais.

O “Bolsa Atleta Municipal” foi criado em 2015, a partir de reinvindicações do Conselho de Esporte. Em seu primeiro ano foram 25 atletas contemplados com esse benefício, mas o projeto não funcionou como esperado. A crise financeira pela qual a Prefeitura Municipal de Itabira passou fez com que o repasse dos recursos aos atletas atrasasse durante alguns meses. Mesmo diante dessas dificuldades, Lulu acredita que o Bolsa Atleta irá se consolidar e será bastante importante no apoio aos esportistas itabiranos.

“Devido às questões financeiras, o Bolsa Atleta não funcionou tão bem. Mas acreditamos que é uma política pública que veio para ficar, pois destina uma verba para o atleta usar na alimentação, compra de material esportivo e treinamento. É um avanço e é nesse sentido que estamos vislumbrando a possibilidade de o esporte sair dessa dificuldade primária”, defende Lulu.

Outra ação que é vista como importante para a melhoria da infraestrutura esportiva é a criação de uma Lei Municipal de Incentivo ao Esporte. De acordo com Lulu, esse projeto já está sendo discutido pelo Conselho de Esporte com a Prefeitura de Itabira e Câmara Municipal. Caso seja criada, essa iniciativa permitirá que empresários e pessoas físicas destinem parte do que é devido ao Imposto de Renda às iniciativas esportivas.

“O ponto principal da lei é que você vai ter a possibilidade de que uma empresa, dentro dos limites da lei municipal, possa contribuir com as modalidades esportivas. O cidadão comum também poderá contribuir, como acontece na Lei Federal [de Incentivo ao Esporte], com até 6% do Imposto de Renda devido”, explica Lulu.

Os recursos advindos dessa Lei de Incentivo ao Esporte ficarão sob a gestão do Fundo Municipal do Esporte, que será gerido pela Secretaria Municipal de Esporte e por uma comissão nomeada pelo Conselho do Esporte. É mais uma medida para garantir o apoio à formação de novos atletas e o fortalecimento do esporte em Itabira. Mas esse pontapé inicial depende tanto da vontade política quanto da sociedade se organizar para cobrar e promover mudanças.

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