Viravoltear: o Coletivo que nasceu do encantamento pela dança

Criado em Itabira, em 2017, o Coletivo Viravoltear tem a proposta de “experimentação e investigação das potencialidades artísticas da cidade, uma iniciativa de artistas e profissionais itabiranos que aponta um novo caminho para o fazer e fruição da cultura”, como explica o texto de apresentação do Coletivo em sua página do Facebook.

Segundo Wallisson Gomes, um dos integrantes, o Viravoltear nasceu “de questionamentos de como afetar o cotidiano. Por isso, ele tem um caráter interventivo. A gente discute muito o papel da arte como facilitador de acesso ao movimento artístico para que ele não fique muito restrito já que, hoje, vivemos num mundo em que fazer arte é sinônimo de resistência”, explica.

Alguns integrantes e sua relação com a dança

Em um bate-papo descontraído com alguns dos integrantes do grupo é possível perceber que a paixão pelas artes cênicas e pela dança são o fio condutor que une os artistas que integram o coletivo. Como é o caso do próprio Wallisson. Itabirano, ele viu a arte entrar em sua vida muito cedo. “Eu tenho uma experiência que começa no teatro estudantil. Ali, meio que brotou esse desejo pelo teatro. Desde então as coisas foram tomando outras dimensões”, relembra.

Wallisson conta que a intensidade da experiência o conduziu pelo único caminho que lhe pareceu certo, a busca por qualificação! Ele ingressou na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) onde se graduou em Direção Teatral e pós-graduou em Teatro Contemporâneo. Foi lá também que o amor pela dança reacendeu. “A dança surgiu na minha vida por meio da capoeira, na infância. Foi daí que veio essa curiosidade da experimentação com o corpo, por causa dessa coisa de ficar rodando, se virando e rodopiando. Mas, a universidade expandiu essa ideia de dança enquanto movimento”, narra.

33470495_2130699450500464_2103399957644967936_nWallisson Gomes

O artista deixa claro que foi nesse momento em que seu foco se voltou para o corpo enquanto pesquisa. “Eu comecei a me interessar pela presença cênica do corpo, seja na dança, no teatro ou na performance. Aí veio também a dança Butô que foi uma investigação para a vida. O Butô é uma dança subjetiva e autoral, ele é uma busca interna desse movimento, o que tornou minha experiência com a dança ainda mais profunda”, comenta.

Nesse sentido, o Viravoltear fez toda diferença. “A minha vivência com o coletivo é compartilhar conhecimento, sobretudo com o Warley (Ferreira, um dos integrantes do grupo). Essa coisa da cultura popular que ele trás é algo que instiga. Entender o folclore como origem e identidade foi dando força para essas pesquisas que fazemos dentro do coletivo. Toda ideia que trocamos faz com que a gente vá aprendendo e experienciando juntos os movimentos típicos de algumas danças. E essa riqueza nos leva a resgatar a necessidade de pertencimento cultural”, explica.

Natural de Betim, Warley Ferreira conta que vê nas histórias do integrantes do grupo muitas semelhanças, como o envolvimento com as artes desde muito cedo. “Eu também comecei no teatro, mas nasci em 1975. Na minha época o trabalho com arte era muito complexo. A gente tinha que ter um emprego chamado de formal. E eu tinha! Mas sempre me interessei por movimentos culturais. E eu não me via fazendo outro coisa! É algo piegas, mas a arte sempre foi muito forte em mim”, relembra.

40969253_2220411618195913_4521881855745589248_nWarley Ferreira

Ele fala sobre o momento em que essa paixão falou mais alto. Assim como Wallisson, a busca por formação também falou mais alto. “Eu conheci a cultura popular em Betim, com um grupo que estava se apresentando, e eu fiquei apaixonado. Quando eu soube da audição para novos integrantes no grupo, eu fui! Passei! E depois disso eu vi uma potência nessas questões sobre cultura popular e trabalhar em projetos sociais. E fui me especializar. Me formei em Dança no Palácio das Artes e fiz pós-graduação em Cultura Popular”.

E ele não parou por aí. Ao longo de um ano, viajou por lugares como Recife, Porto Alegre e Vale do Jequitinhonha. Nessas andanças, inscreveu um projeto para o Festival de Inverno de Itabira e ministrou uma oficina de dança que foi um sucesso. “Isso foi em 2009. No ano seguinte, a Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade [FCCDA] me convidou para desenvolver um trabalho como coreógrafo do Grupo [Folclórico] Tumbaitá. E foi uma experiência incrível com resultados muito bacanas”, conta.

Ainda assim, Warley se via às voltas com a necessidade de desenvolver outros trabalhos. “Foi quando veio a inquietação de querer que percebessem em nós um potencial artístico capaz de contribuir para a cidade. A vontade de nos mostrar como profissionais da arte, já que esse é o nosso ofício. Foram muitos encontros, muitas trocas de ideia e as coisas foram acontecendo até a gente formar o Coletivo”.

O Viravoltear começou seus primeiros encontros com cinco integrantes. Hoje, o grupo cresceu. O número de integrantes muda de acordo com as ações e intervenções criadas. O Coletivo tem uma organização totalmente independente. Os encontros são semanais e neles são formuladas cada uma das ações feitas pelo grupo. Nesses encontros, além da parte criativa, o grupo também decidi a parte prática como o tempo de ensaio para cada coreografia, quais são a demandas de produção, definição de figurino e desenvolvimento da ação, entre outras coisas.

E foi vendo esse processo criativo fluir que Nalbert Victor, itabirano, foi mordido pelo bichinho da arte. “Tem muito pouco tempo que a dança entrou na minha vida. Ela veio pela amizade com o Wallisson e com o Warley. O trabalho deles me trouxe recordações de infância. Essa vontade de fazer arte. Eu me lembrei daquela sensação de ver e ficar maravilhado com aquilo! E de pensar ‘porque eu não posso fazer também? Porque ser só expectador?'”, descreve.

Nalbert acompanhou, de perto, a criação do coletivo. “Nesse momento eu fiz questão de deixar claro que queria ser inserido. E eles me abriram essas portas. E eu abracei a oportunidade. E estou achando maravilhoso. Como eu sou leigo, não tenho nem a formação e nem a experiência que eles têm, tudo para mim é muito mais incrível”, conta. E assim como foi um processo natural para os outros integrantes, ele também começa a sentir a necessidade de buscar formação e especialização. “A gente troca muita ideia sobre eu me especializar em algo que eu vou gostar de defender enquanto arte”, define.

A importância dos coletivos

Wallisson explica que, com o surgimento do Viravoltear, a busca por parceiros foi imediata. Tanto que eles já realizaram diversas intervenções em parceria com a FCCDA, com o Bloco Madalena não Gosta de Poema e com coletivos culturais como o Altamente, o 4ª Arte, o Tô na Praça. “Há uma imensa necessidade de se repensar: tanto a gestão pública da cultura como órgão de fomento, quando os artistas enquanto profissionais da arte”, reflete.

Warley vai além. “É muito complexo para o artista, como profissional, ser a pessoa que cria, atua, dança, produz, capta verbas e administra. A cada trabalho, a gente vai aprendendo como fazer. Mas faz falta criar formas para que o artista veja sua arte como um modelo de negócios passível de gerar lucro. Precisamos, sim, aprender a empreender!”.

Por isso, a aproximação com outros coletivos culturais da cidade vem gerando uma união de forças. “Estamos trabalhando para que haja uma união da classe, mas ainda há um distanciamento. Itabira tem uma diversidade artística inacreditável em todos os segmentos. Infelizmente, ainda não percebemos a potência da interdisciplinaridade e do diálogo entre as artes na articulação de ações”, explica Wallisson.

Projetos

Nos planos do Viravoltear estão as portas abertas para novos integrantes. Isso porque um dos projetos consolidados do Coletivo é o “Entrevias Poéticas”, desenvolvido nas rotas do Museu de Territórios Caminhos Drummondianos. No mundo, hoje, existem apenas três museus a céu aberto, os Caminhos Drummondianos são o único que contempla a literatura. E o “Entrevias Poéticas” é uma investigação das histórias que permeiam o imaginário do Drummond e que levaram à criação dos poemas que fazem parte do museu.

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Warley detalha que a ideia surgiu por causa de seu trabalho como guia dos Caminhos Drummondianos. “Vimos ali um potencial gigante e percebemos a quantidade de pessoas que vem a Itabira para conhecer esse museu a céu aberto. Por isso, criamos roteiros de visitação que são mediados pela ação cênica, com personagens que levam os visitantes até o universo em que os poemas foram criados. Como muitos dos lugares e pessoas que inspiraram Drummond em suas poesias não podem mais ser vistos, instigar o imaginário dos visitantes é uma forma de reconstruir tudo isso”.

Além de destacar a importância do poeta e de sua obra, o projeto ainda reforça a necessidade de recuperar o envolvimento de moradores com o patrimônio local. “A visitação ao museu de territórios é uma aula que acontece nas ruas, em que a gente não fala única e exclusivamente dos poemas. A gente fala de toda a história por trás dela”, destaca Warley.

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Nos projetos para o futuro, o Viravoltear incluiu também o desejo de criar um bloco carnavalesco. “Estamos percebendo que esse movimento de pré-carnaval vem se construindo como um tradição itabirana. Algo que, mais para frente, certamente ganhará força. E é preciso investir agora nesse trabalho de resgate para que haja continuidade. Quem sabe, ainda em 2019, haja aí um pequeno circuito de quatro ou cinco blocos”, se anima Wallisson.

E como a questão das intervenções é uma das forças do grupo, os projetos que já foram realizados, voltaram a ser apresentados. “Pensamos em continuar desenvolvendo as intervenções que já foram feitas, como a dos Caiapó, em outros formatos e lugares. E, futuramente, transformá-las em possíveis espetáculos”, finaliza Wallisson.

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“A mesma inquietação que nos moveu para começar o coletivo, continua existindo no sentido de criar projetos. O Viravoltear se alimento de tudo o que fica a partir do momento em que a gente se apresenta. É, a partir dali, que desenvolvemos nossos projetos. E queremos ter, sempre, esse caráter de estar na rua. Porque para o Coletivo cada ação que a gente realiza, outras possibilidades aparecem”, conclui Warley.

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Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras