Undergorund na veia itabirana: coletivo viabiliza mostras de música autoral

A dominante individualidade com que Carlos Drummond de Andrade escrevia tornava claro que ele era o poeta da ordem. Até hoje chamado poeta maior. Sua consolidação vinha de contraditórias expressões de amor e melancolia, caminhando entre ceticismos e encantos sagrados sobre sua visão de mundo. Drummond não buscava o mainstream. Algo parecido com o chamado underground, que, vinculado a todo tipo de produção cultural, está “invisível” aos olhos da mídia e, por isso, o seu sobrenome é It Yourself.

É exatamente o que o coletivo Filhos de Um Poeta Morto tenta fazer em Itabira. A proposta deles é agregar artistas independentes de Itabira e região com o intuito de expandir a cultura alternativa local e valorizar o trabalho autoral.  E é na Casa Wolf’s, na rua Joaquim Valadares, no bairro Bela Vista, onde os encontros e shows acontecem – como o evento “O Caos é a Ordem”, que aconteceu no sábado, 14 de novembro. A festa reuniu a banda de hardcore itabirana Postura, com o punk do Possuídos, que vem da capital Belo Horizonte, e a rapaziada do Hasta Cuando, de Ipatinga.

João Jardel, 30 anos, e Van Basten, 25 anos, são dois dos idealizadores do coletivo, que foi criado em Itabira no início deste ano. Eles se incomodam com a falta de um espaço próprio para as bandas que fogem do padrão “cover”. “A gente vem de uma cena que ela é bem fechada. Bandas muito legais como o Postura e a Venal (indie rock), que tem trabalhos próprios muito bacanas, e tocam muito fora da cidade, às vezes não tem oportunidade de tocar aqui. Então o que estamos fazendo é dar condições das bandas independentes tocarem aqui na Casa”, afirma João Jardel.

Van Basten, que também é vocalista do Postura, já saiu com sua banda para abrir shows de grupos de renome nacional em São Paulo, Vitória e BH. Tudo custeado do próprio bolso. “Só este ano a gente abriu um show do Dance of Days em Belo Horizonte, na Emme Lounge, que é uma casa na Savassi. A gente foi selecionado pelo TNB, que é uma rede social de bandas, para tocar em Araraquara (São Paulo) junto com Krisiun e Paura, que já fizeram turnê na Europa este ano. Nós já tocamos em Vitória, no Metanóia, que é um dos maiores eventos do gênero no Espirito Santo”, conta.

O desafio é fazer com que o coletivo Filhos de Um Poeta Morto consiga por aqui a dimensão e a importância cultural que os coletivos sociais das capitais têm conquistado para a cena undergound. A exemplo do movimento em BH, que tem tido espaço em locais como o famoso Viaduto Santa Teresa, a Casa Cultural Matriz, o Bar A Obra, e o emblemático Mercado das Borboletas. Geralmente, os eventos na Casa Wolf’s acontecem uma vez a cada dois meses e tentam promover um intercâmbio de bandas a cada organização.

Marcos Rezende, 34 anos, integrante do grupo punk Possuídos, veio prestigiar o coletivo em Itabira. Ele destaca que a cena undreground tem se focado muito na rede de contatos, onde artista e público sempre se encontram muito próximos. “A gente, lá em BH, estava tocando muito na casa de um cara. Era um quarto da casa dele e foi um dos shows mais legais que já fizemos. Bandas da Suíça e da Espanha, como a We Ride, também já tocaram na casa desse mesmo cara. Inclusive, depois da turnê dessa banda aqui no Brasil, eles postaram no Facebook ‘com certeza esse foi o show mais doido que a gente já fez em nossa vida’. E isso foi na sala de uma casa! Recentemente, a banda Coke Bust, de Washington, estava fazendo uma turnê na América Latina e tocou no quintal de uma casa em uma comunidade em BH. Foi fantástico!”, relata Marcos.

Os eventos do Filhos de Um Poeta Morto são marcados sempre na página oficial do coletivo no Facebook e todas as contribuições dadas à Casa são convertidas em novos eventos.

*Reportagem da jornalista Vanessa Castro para o Trem das Gerais.

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