Um grito de louvor à originalidade e ao hardcore

Quando sentei para escrever este artigo sobre a banda Postura, as primeiras palavras que me vieram à cabeça foram: trajetória singular. Talvez pela falta de familiaridade com o cenário em que a banda surgiu e que foi preponderante para a evolução sonora e artística desse grupo itabirano. Talvez pela capacidade que tiveram de se reinventar e buscar o seu espaço em um universo que nem sempre é sorridente para aqueles que trazem a originalidade como mecanismo central da sua arte.

O certo é que a banda, formada hoje pelos irmãos Van Basten Moura e Liniker Moura, além de Cássio Oliveira e Alex Baraka, trilhou um caminho único que a fez se posicionar de maneira determinante no cenário underground de Itabira. E mais: fez o seu som ecoar nas caixas de diversos outros lugares, como Belo Horizonte e São Paulo. Um trabalho que já possui dois registros, os EPs “Resistir e sempre acreditar” e “Marta”.

Postura_01E essas gravações mostram a singularidade do Postura. Cada EP traduz um momento distinto da banda, não apenas questões sonoras, mas também influências e visões de mundo. Acompanhar esses trabalhos é perceber a evolução pela qual o grupo passou desde a sua criação, no já longínquo ano de 2008 – época que se apresentavam como Pau pra Toda Obra, o embrião do que são hoje.

Esse nome inicial não traduz o espírito da banda na época, que nasce como um grupo de louvor que encontrou o seu espaço em show no Refúgio, do Ministério da Igreja Batista da Redenção. Além disso, como os próprios integrantes definem, tinham “uma pegada mais punk” e eram mais “irreverentes”.

Uma experiência que influenciou diretamente as composições que levavam a bandeira do cristianismo. E também do Straight Edge – um subgênero do hardcore que defende a abstinência em relação ao tabaco, álcool e drogas ilícitas. Porém, o nome escolhido não se encaixava bem nesse perfil, afinal, uma busca no Google vinculava Pau pra Toda Obra a páginas de pornografia. O que, convenhamos, acaba sendo um pouco irreverente.

“Quando a gente começou era banda de igreja e quando pesquisava no Google Pau pra Toda Obra aparecia muita pornografia. E a gente precisava mudar esse nome. Comecei a pesquisar e ver o que as bandas faziam e quais as tendências do hardcore. Era uma coisa mais séria e diferente do que a gente fazia, então mudamos o nome para Postura”, relata Van Basten.

A fase inicial continha outra formação. Van Basten e Liniker dividiam o palco com João Paulo e Deivim. Nas primeiras caminhadas o grupo possuía apenas uma música gravada, “Drug Free”, mas com uma qualidade “duvidosa”. A primeira grande mudança acontece em 2012 quando Felipe substitui Deivim na bateria e partem para a gravação do EP “Resistir e sempre acreditar”.

O Postura, então, entra no estúdio para gravar sob a batuta de Lucas Guerra, vocalista da banda mineira Pense. A mixagem do EP acabou acontecendo no Canadá, pois Lucas Guerra, que estudava engenharia de som naquele país, pediu para que usasse essa experiência como um estágio. A parceria acabou se tornando um veículo de divulgação e o nome Postura ganhou as páginas de publicações especializadas em hardcore em todo o Brasil.

A repercussão os levou a voos maiores: mais shows e mais viagens. E tudo isso acabou conflitando com a rotina que tinham como uma banda de louvor. “A gente era crente demais para assumir os compromissos da banda e banda demais para estar na Igreja todo domingo”, lembra Van Basten.

Pé no freio e autodescoberta
Foram três meses colhendo os frutos do “Resistir e sempre acreditar” até que João Paulo e Felipe decidem sair da banda. Esse baque acabou Postura_03interrompendo os trabalhos do Postura. Foi um ano longe dos palcos. Período em que os integrantes remanescentes, Van Basten e Liniker, passaram por um processo de crescimento e mudanças pessoais.

“A gente ficou meio magoado porque tínhamos feito aquilo tudo pra nada? Não tinha membro pra tocar na banda. E como a gente estava cristão, ainda ficávamos naquela de ‘vamos tocar com os caras que não são cristãos? O que a gente vai fazer?’. Ficamos um ano em hiato mesmo, a gente não tocou e não fez nada. Mas não divulgamos que a banda tinha acabado”, revela Van Basten.

Parte desse processo está intimamente ligado com um projeto paralelo que começava a surgir com os músicos Tales Resende e Schneider. Os novos parceiros tinham preferência pelo metal e acabaram por trazer uma nova influência e perspectiva para Van Basten e Liniker. O nome desse projeto era A Vida Cobra.

“Foi bom esse tempo com eles porque a gente abriu muito a mente. Vimos que dava para fazer um som bacana sem ter que falar de igreja. O projeto acabou não dando certo, mas quando a gente viu que não ia dar certo, encontramos o Baraka, o nosso guitarrista hoje, e resolvemos voltar com o Postura”, conta Van Basten.

O guitarrista apareceu, mas ainda faltava um baterista. Deivim, que já tinha tocado com o Postura antes, foi a escolha inicial. Mas não pôde integrar. Foi aí que Cássio Oliveira passa a integrar o grupo. Fechando a formação que segue na atividade até hoje – e celebrando o retorno da banda aos palcos.

Preparem as caixas de som
A pausa nos trabalhos com o Postura culminou em crescimento pessoal e uma nova atitude. O foco agora era no hardcore. As crenças, cada um passou a carregar a sua, sem envolvê-las no trabalho com a banda. “Vamos continuar tratando de coisas sérias na banda, mas sem levantar essas bandeiras (cristianismo e Straight Edge). Cada um segue pessoalmente com as suas crenças. Se todo mundo não tiver o mesmo objetivo perde a essência, então focamos no hardcore e deixamos a crença pra cada um”, detalha Van Basten.

Postura_02Mas a visibilidade gerada pelo “Resistir e sempre acreditar” tinha ficado para trás, o que levou a iniciar o trabalho de composição e gravação de um novo EP. Com nove meses da nova formação surgiram oito músicas e delas saíram às canções que vieram a integrar o “Marta”, gravado em 2015. Porém, a agenda do Cássio Oliveira entrou em conflito com os trabalhos de gravação.

Uma nova mudança acontece: Policarpo assume as baquetas. E isso influencia também no repertório do EP, pois a música “A mesa” foi incluída por ser uma composição feita com o Policarpo para que ele pudesse ter a sua assinatura nesse trabalho. O Lucas Guerra novamente assume a gravação e mixagem, além de participar da música “Tudo bem”.

O EP “Marta” ainda tem uma carga pessoal para Van Basten e Liniker. Em 2011, a mãe dos irmãos faleceu. Sem contar que nesse período moravam no bairro Santa Marta, que tem a sua história ligada à violência. Essa temática acabou direcionando os trabalhos do álbum. O nome, inclusive, faz referência ao bairro.

“As letras falam do que a gente viveu naquele período. ‘Tudo bem’, fala de uma questão de perspectiva de vida; ‘Marta’ fala sobre preconceito e falta de oportunidade; ‘Ainda vale mais’ fala sobre amizade e vício, que é uma questão presente na galera que a gente anda e pega pesado com drogas, e por ter o Straight Edge na nossa vida, não compartilhamos disso e às vezes vemos que a galera passa do limite; e ‘A mesa’, fala sobre diálogos e conflitos, mas permite várias interpretações”, explica Van Basten.

Novamente a repercussão foi bastante positiva e as portas continuaram se abrindo para o Postura. Que voltou a realizar shows em outras cidades. Reconhecimento que ainda falta na terra natal desses músicos: Itabira.

Um espaço para o autoral
Toda boa história tem os seus momentos de luta em que os personagens precisam superar diversos desafios. E com uma banda de hardcore não é diferente. A começar pela origem interiorana que por si só dificulta a abertura de outros cenários. Afinal, para lotar uma casa de show na capital, por exemplo, é necessário uma banda conhecida, pois quem vem do interior não tem essa visibilidade.

“É difícil! Se não gostar de coração você desanima porque é igual abrir uma empresa: se não tem quem compre na sua mão, você vai fechar. E aqui, por ser uma cidade do interior, é preciso correr contra vários obstáculos”, relata Van Basten.Postura_04

Sem contar a resistência do público às músicas autorais. Quem comparece aos shows em Itabira sempre espera covers de artistas conhecidos e isso faz com que os proprietários de casas noturnas não abram espaço para quem busca originalidade no seu trabalho. O hardcore, por ser mais pesado, acaba dificultando também por não ser receptivo para o público local.

Mas isso não impede que as coisas aconteçam. E isso só é possível pelo esforço dos grupos que se unem para movimentar a cena underground e divulgar os seus trabalhos. Os músicos do Postura destacam que, em Itabira, isso acontece por meio da realização de eventos com parceiros, como a Venal, Poison or Medicine e Virgínias.

E é nessa toada que o Postura vai buscando o seu espaço e trilhando o seu caminho – único desde o início. “É um desafio nosso e um foco meu fazer a gente ter o respeito que tem lá fora aqui dentro”, finaliza Van Basten.

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