Quando nem o dicionário consegue rotular

Está lá, escrito nas páginas do dicionário. Venal, como adjetivo, se refere à venda. Ou então, em um sentido figurado, é aquele corruptível e que aceita suborno. E, vejam só, também pode ser outro adjetivo, mas dessa vez relacionado à veia. Porém, têm aqueles que mostram que nem tudo pode ser feito a partir das definições que encontramos nos dicionários ou daquilo que nos é entregue de maneira pré-concebida.

Isso tem a ver com soltar a imaginação e ir além. Entrar em um processo de busca pelo novo, em que a originalidade se torna o principal caminho. E, durante todo esse percurso, se propor a reinventar significados e escrever novas histórias, formatar outras páginas. Um trabalho que se direciona para a construção de uma identidade própria, que no mundo da música é mais do que a simples definição de um nome, mas a descoberta e a construção de sonoridades únicas, para se tornarem o emblema de um grupo.

Igor Venal 01Talvez essa percepção, que este jornalista imprime nestas linhas, esteja relacionada a todo o caminho artístico trilhado pela banda Venal. O rock alternativo foi a escolha natural desse grupo que buscou na música a forma de se expressar e posicionar-se perante o mundo. Uma escolha da qual não posso falar sobre a intencionalidade, mas, se me permitirem algum julgamento, direi que bastante acertada.

A alcunha rock alternativo surge nos anos 1980 e se expande nos anos 1990 para descrever as bandas que, até então, não se encaixavam em nenhuma classificação conhecida naquelas décadas. Isso porque esses artistas apresentavam uma diversidade sonora e um experimentalismo que ultrapassavam o que tradicionalmente era feito. A música é rock, mas tem muito das influências de cada artista – Folk, Jazz, eletrônico, Reggae, MPB… uma enormidade de possibilidades.

Tudo isso permite que a Venal possa construir a sua sonoridade e desenvolver uma identidade própria. Trabalho que, hoje, é de responsabilidade de Igor Venal (voz), Samuel Elom (guitarra), Paulinho Almeida (guitarra), Filipe Bonus (baixo) e Lucas Andrade “Tibanna” (bateria). E esse caminho está traçado no nome do grupo, que define Venal como “uma palavra forte, que condiz com a música da banda”, que é “um som visceral”. Diferente do que nos contam os dicionários.

O começo da caminhada
Em 2012, antes de assumir o nome Venal, o grupo se apresentava como Queda Livre, influenciado pela banda de hardcore Dead Fish, e contava com três membros: Igor, que na época, além dos vocais, ainda era baixista, Samuel nas guitarras e Tibanna na bateria. “Era o básico necessário para tocar e ter uma banda”, lembra Igor Venal.

Nessa fase inicial o rock alternativo já se manifestava no grupo, que tinha a proposta de Lucas Tibannafazer um som autoral, mas com a possibilidade de
algumas músicas covers – desde que fosse algo não ligado à vertente de trabalho da banda. “Se a gente estivesse fazendo um rock novo, não tocaríamos Strokes, mas sim Criolo, Caetano [Veloso]. A proposta era essa de trazer o que era diferente para o nosso som para manter a identidade da banda”, avalia Igor Venal.

Porém, Queda Livre era um nome provisório, pois já existia outra banda com essa alcunha. A mudança de nome foi o ponto de partida para profissionalizar o trabalho como músicos. Para isso era necessário criar uma identidade nova, o que aconteceu em 2012 ao adotar o nome Venal. É nesse período que Filipe Bônus assume o contrabaixo. A nova formação amplia as possibilidades sonoras e leva o trabalho a um novo patamar.

Dá garagem para o estúdio
A Venal considera o início da sua profissionalização a primeira participação em um grande evento cultural. Em 2013 tocam no 39º Festival de Inverno de Itabira e, a partir daí, os próprios músicos já não se enxergavam mais como uma banda de garagem. Porém, para ter um trabalho mais consistente, ainda faltava alguma coisa.

Paulinho AlmeidaGravar músicas próprias permite a criação de um portfólio e de um material para apresentar ao público, produtores e casas de shows. Sob a influência de Van Basten Moura, vocalista da banda Postura, também do cenário underground de Itabira, a Venal parte para a gravação do seu primeiro EP “Um Milhão de Ideias Mortas”. Foi aí que, em novembro de 2014, entraram no estúdio sob a batuta do Lucas Guerra, vocalista da banda mineira Pense, que já havia feito outros trabalhos com bandas independentes.

“Havia a influência do Lucas Guerra, que já tínhamos ouvido falar, e ele já tinha gravado outros CDs que gostamos demais, principalmente o álbum do Postura, composta por amigos nossos, e percebemos como eles mudaram e como a banda cresceu depois desse trabalho do Lucas [Guerra]”, relembra Samuel Elom.

A seleção de músicas desse EP ainda teve a ajuda da banda carioca Medulla, que nesse período aparece como padrinhos da Venal. O disco acabou sendo formatado com três canções: “Paradoxo”, “Gauche” e “Refém de Mim”. “Pra gravar foi muito difícil. Tivemos um monte de ideias, de acordes, um monte de letras, apenas pra chegar a três músicas, um monte de coisas morreu. Então, decidimos que seria ‘Um Milhão de Ideias Mortas’, um EP feito pelas ideias que não foram concebidas, que não vingaram e que não nasceram. É o que sobrou”, explica Samuel Elom.

Novos integrantes, novas possibilidades
Na gravação do primeiro EP a Venal contava com outra formação: Dim, e posteriormente Victor Seara, compunha uma das guitarras. Mas em 2015,Filipe Bônus 01
por motivos pessoais, Victor Seara resolve sair da banda. É quando Paulinho Almeida assume o seu lugar. O novo integrante é de Feira de Santana, na Bahia, onde havia interagido com outras bandas independentes – e traz toda essa bagagem, de experiência e sonora, para o trabalho dos itabiranos.

“O Paulinho se encaixou na banda. Depois da saída do Victor não existiu uma vaga. Ele morava com o Samuel e já tinha realizado outros trabalhos com a gente, ia aos shows e já estava bastante envolvido na banda. Foi um caminho natural. Chegou lá, estendeu a rede dele e acabou”, conta Filipe Bônus.

E com essa reformulação surgem novos trabalhos. A Venal está partindo para gravar o seu segundo EP, em que devem usar um novo sistema de produção com os integrantes se isolando por algum tempo para trabalhar as novas músicas e o material. Esse processo tem como objetivo demonstrar o amadurecimento do grupo. A expectativa é de que o novo álbum seja finalizado até o final do ano. Outros detalhes somente na fase final de gravação.

Antes sairá mais um material inédito da banda. O single “Instante Adeus”, gravado em fevereiro desse ano, que já aparece nos shows e pode ser encontrado na internet, ganhará agora um vídeo clipe. O material está sendo gravado pela Hope Filmes, do guitarrista Paulinho Almeida. A previsão é de que o clipe seja lançado ainda em outubro.

Ser alternativo
A Venal vem colhendo os frutos do seu trabalho, mas não sem as dificuldades que os artistas do underground encontram em sua caminhada. Transportando todos os instrumentos musicais nas costas, dentro de ônibus para conseguir gravar algumas músicas; enfrentando os poucos locais que abrem espaço para bandas autorais; a falta de equipamentos de qualidade; ou realizando os próprios eventos para conseguir novos espaços.

Samuel ElomMas é um cenário composto por bandas que se apoiam, seja para a realização de um evento ou no compartilhamento de ideias, que sempre favorecem o desenvolvimento musical dos artistas desse cenário. Assim, o underground, mesmo com todas as dificuldades, é uma cena única. “Tem a troca de ideias. Junta a ideia da minha banda com a ideia do outro e vamos fazer um som, botar a nossa ideia pra frente e mostrar pra galera o que a gente tem pra dizer e ir pra onde for”, avalia Tibanna.

Diante disso a Venal vem obtendo os seus resultados: já tocou com artistas do calibre de Alceu Valença, Medulla, Vanguart, Planar e Supercombo; participou das 39ª e 40ª edições do Festival de Inverno de Itabira; teve um review publicado pelo site canadense ForksterRocks; e foi listada em 28º entre as 80 bandas de destaque do rock mineiro autoral pelo site Divirta-se, do portal Uai.

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