Primeira ópera negra do Brasil, ‘Lídia de Oxum’ terá releitura em Salvador

Pouca gente sabe, mas o território baiano é berço da primeira ópera negra do Brasil e única produzida em português e iorubá – dialeto nígero-congolês. Agora, 25 anos após a sua criação, “Lídia de Oxum” entra em cartaz novamente! Ela será apresentada entre os dias 21 e 23 de novembro, no Teatro Castro Alves, em Salvador. A data, claro, foi escolhida em homenagem ao dia da Consciência Negra, celebrado nesse 20 de novembro.

Escrita pelo poeta baiano Ildásio Tavares, em parceria com conterrâneo maestro Lindembergue Cardoso, a ópera se baseia na peça “Os Sete Poemas Negros”, que Ildásio escreveu a pedido do músico Djalma Corrêa.

O espetáculo estreou em 1994, no mesmo Teatro que a irá abrigar novamente. Três anos mais tarde, uma segunda versão foi apresentada no Parque Metropolitano do Abaeté, na capital baiana. Essa remontagem foi produzida pelos filhos de Ildásio: Ildazio Junior (coordenador geral) e Gil Vicente Tavares (diretor artístico). Em entrevista, Gil contou que “cada montagem de uma obra cênica é o resultado de uma equipe de criação específica. Tive uma abordagem diferente das outras duas montagens, sem perder a essência da obra, com sua força afro-brasilidade e sua potência política, dois elementos centrais”.

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A produção envolve, diretamente, mais de 200 pessoas para contar uma história que discorre sobre racismo e machismo na época pré-abolicionista do Brasil. Na história, Lourenço de Aragão, filho de um senhor de engenho, chega da Europa com ideias abolicionistas, se engaja nas causas raciais e se apaixona por Lídia – filha de um ex-escravo. Lourenço acaba entrando em conflito, tanto com os negros, por ser branco, quanto com os brancos, por apoiar a libertação dos escravos.

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Também em entrevista, Ildazio Junior destacou que “a gente reflete sobre feminismo, machismo, reparação e, além disso, traz entretenimento e turismo étnico, em homenagem ao novembro negro, para chamar atenção para o momento em que estamos. A Bahia é resistência e ‘Lídia’ é um espetáculo questionador”.

Na primeira versão, a ideia era estrear a ópera em 1988, no centenário da Abolição da Escravatura, mas a concretização da obra só veio em 1995. Na época, a ópera foi recusada por vários produtores do Brasil com o argumento de que nem os negros estariam na plateia para assistir ao espetáculo.

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Uma lembrança lamentável que promete ser esquecida nesta versão. Além da estreia no Teatro Castro Alves, a ópera será apresentada no Pelourinho e em outros lugares da capital baiana. Há ainda o desejo de rodar o país.

A soprano e protagonista Irma Ferreira deu uma declaração falando que “viver uma personagem como Lídia é um marco na carreira, mas também na vida pessoal. Ser mulher e negra nessa sociedade é sempre um desafio. E viver a Lídia, que é uma mulher forte, é maravilhoso. A única coisa que eu posso fazer é me doar ao máximo.

O elenco conta ainda com a soprano Izadora França, o tenor Carlos Eduardo dos Santos, o baixo Josehr Santos e o barítono Miguel Nador. Único integrante do primeiro elenco, Inácio de Nonno, viverá Teodoro de Aragão, pai do personagem Lourenço de Aragão, interpretado por ele há 25 anos.

A remontagem da ópera faz parte da coleção de homenagens que marcam os 80 anos de Ildásio Tavares, em janeiro de 2020. O maestro Lindembergue Cardoso também teria completado a mesma idade em junho deste ano. As homenagens ao escritor, previstas até 2021 por iniciativa da produtora Viramundo incluem poemas, livros, a Ópera “Caramuru” e o espetáculo “Os Orixás”.

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