Pela originalidade que vem das garagens ou da sala de casa

Viver de arte nunca foi tarefa fácil. E, temo eu, nunca será. Os desafios são muitos e em todos os campos como o teatro, as artes plásticas ou a música. A falta de apoio e de espaço onde mostrar os trabalhos são apenas alguns pontos a serem superados cotidianamente por um artista. E isso não diz respeito apenas às iniciativas do poder público, mas também em estabelecimentos privados que, perdão ao trocadilho, abre as portas para alguns enquanto privam outros.

Em Itabira, um coletivo de artistas está iniciando um trabalho para vencer essas barreiras e abrir espaço para aqueles que pretendem viver da originalidade do seu trabalho artístico. Intitulado “Filhos de um Poeta Morto”, o grupo reúne nomes do cenário musical alternativo da cidade e é composto pelos músicos Igor Venal, João Jardel, Van Basten Moura e Rodrigo Rodrigues “Peso”, além do poeta Pedro Macieira.

Todos eles já conviveram com um cenário semelhante: a dificuldade em aprovar projetos junto a órgãos públicos e a falta de lugares em que possam apresentar um trabalho autoral. Este último acontece por um cenário complexo em que público e proprietários de casas de show acabam por relegar as bandas autorais a um cenário secundário e de pouca visibilidade para a sua arte.

Por um lado parte das pessoas não tem o hábito – e nem o interesse – de sair de casa para acompanhar músicas que estão fora do mainstream, pertencentes a artistas iniciantes ou que não fazem apresentações covers. A partir disso, dono de bares e casas de shows não contratam artistas autorais e dão preferência àqueles que tocam as “músicas do momento” ou “canções conhecidas”.

O cenário se fecha em um ciclo em que a originalidade se torna dispensável. Mas, se por um lado temos a limitação do desenvolvimento cultural, por outro temos o surgimento dos cenários undergrounds que naturalmente passam a carregar todo o vigor de uma banda de garagem, de um grupo que rima na praça ou do artista que busca, numa esquina, o refúgio para as suas letras e canções. É a música surgindo em sua raiz com o simples interesse de se manifestar – e não ser apenas um produto comercial.

É nesse sentido que o “Filhos de um Poeta Morto” está se posicionando. Como é percebido em um manifesto que o coletivo divulgou em sua página do Facebook: “Sempre admirei a forma visceral que as bandas undergrounds se apresentam, eu admiro a forma que eles desmitificam a erudição da música, retiram aquele caráter místico, divino que os artistas tendem a ter. Viver um “rolé underground” é uma experiência de libertação, o que interessa é a emoção, é a arte pela arte, independente de fama, de dinheiro ou de reconhecimento”, dispara.

E ainda tem mais: “Nada contra, mas cansamos de ver shows de bandas covers, não estamos interessados em ouvir cover dos Beatles e Legião, não queremos ouvir uma seleção do melhor do pop rock. Queremos ouvir música autoral, música que carrega histórias e sentimentos que muitas vezes vivenciamos de perto. Somos amigos pela música que nos aproximou, somos coletivo porque, em prol de um cenário, deixamos de pensar como ouvintes e artistas isolados.
Nós somos filhos de um poeta morto, estamos cansados de comer ao lado dos ratos e agora queremos o nosso banquete”, finalizam os integrantes do grupo “Filhos de um Poeta Morto, de forma potente e inquestionável.

E a primeira ação desse coletivo itabirano já tem data marcada. No próximo sábado, 19 de setembro, às 16h, na Casa Wolf’s, acontece o evento “What Madness, Traveling”, que reunirá três grupos autorais – Aldan, Jonathan Tadeu e Venal. Fica a dica para quem pretende conhecer um pouco mais do cenário alternativo e colaborar com os trabalhos iniciados por esses artistas que, em seu nome carregam um dos símbolos culturais dessa cidade: o poeta morto. Que bem pode ser Carlos Drummond de Andrade ou um Newton Baiandeira. Mas prefiro pensar nesse coletivo como o resultado de todos aqueles artistas que tentaram o seu lugar ao sol e sucumbiram nessa trajetória. Sejam eles os anônimos da poesia, música, artes plásticas…

SERVIÇO
What Madness, Traveling
Local: Casa Wolf’s (Rua Joaquim Valadares, 628, Bela Vista Data e horário: 19 de setembro, às 16h
Ingressos: R$ 10

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.