OPINIÃO: Itabira precisa discutir a música independente

A arte é um processo em movimento. A todo instante novidades aparecem por todos os cantos e, a partir disso, os novos talentos florescem. Mas esse processo encontra algumas barreiras históricas que impedem o desenvolvimento de uma cena musical forte e diversa. Sobretudo quando o ambiente de discussão envolve cidades do interior, onde a cultura tradicionalmente recebe pouco apoio.

Cidades como Itabira relegam seus artistas, perdem agentes culturais e veem o universo artístico se tornar limitado. Na contramão desse cenário, o Coletivo Altamente, no seu espaço cultural, o Casarão Altamente, promove na sexta-feira, às 20h, uma mesa redonda para discutir “Música Independente”. Um debate necessário para o desenvolvimento cultural local.

Itabira é uma cidade multicultural. Sua história é permeada pela produção artística. Carlos Drummond de Andrade, um dos maiores nomes da poesia mundial, deu seus primeiros passos nessa terra. Newton Baiandeira, Sociedade Musical Euterpe Itabirana, Corporação Musical Santa Cecília, dentre outros artistas, também fazem parte dessa história.

Apesar dessa ligação estreita com o fazer artístico, a cidade ainda convive com problemas comuns aos mais diversos centros e acaba por limitar o mercado. Casas de shows acabam por ter um peso significativo nesse processo, pois, em muitos casos, relegam as produções autorais e abrem suas portas para os covers. Dessa forma, incentivam uma produção nada autêntica e limitam as possibilidades para os artistas independentes mostrarem seu trabalho.

Parte disso se deve ao próprio público, que, geralmente, não está aberto para conhecer produções autorais. Ao buscarem opções de entretenimento, costumam optar por escutar músicas conhecidas. Esse movimento leva as casas de shows a oferecerem esse tipo de lazer. Uma mudança de postura desse público pode contribuir, de maneira determinante, para que mais lugares abram suas portas para o independente.

Além disso, não podemos deixar de mencionar a falta de políticas públicas que fomentem o setor cultural. Itabira é uma cidade que conta com diversos aparelhos culturais públicos, porém, são pouco utilizados pelos artistas da terra para promoverem seus trabalhos. O poder público não se deve ater apenas ao financiamento de projetos artísticos – que acontece por meio das leis de incentivo –, mas também abrir seus espaços para que os músicos independentes possam desenvolver projetos e contribuir com a educação cultural do público.

Espaços como o Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA), Concha Acústica, Memorial Carlos Drummond de Andrade, Casa de Drummond, Fazenda do Pontal, dentre outros, devem ser usados e disponibilizados para os artistas que lutam pelo desenvolvimento cultural local.

Outro fator que merece destaque é o papel da mídia no fomento da cultura. Artistas independentes precisam de mídia para que seu trabalho ganhe abrangência, porém, cidades do interior contam com um trabalho limitado de seus meios de comunicação. A cobertura cultural é praticamente inexistente, o que leva as pessoas a terem pouco contato com o que é produzido em seus municípios.

É nessa etapa que o Trem das Gerais tem buscado atuar. Atualmente é o único meio de comunicação em Itabira que se dedica a cobrir cena independente em Itabira e região, abrindo espaço para que novos artistas possam divulgar seu trabalho e encontrar apoio para as suas iniciativas.

Espaços públicos: ocupe!

Embora existam muitas dificuldades para o músico independente, é necessário buscar soluções que ajudem a contornar as muitas falhas do sistema cultural brasileiro. Espaços públicos existem aos montes e eles precisam ser ocupados. Praças e parques são ambientes interessantes para a realização de projetos culturais que consigam unir o autoral com o público.

Em Itabira, algumas iniciativas nesse sentido já mostraram que podem gerar bons resultados. O “Sarau Essência” tem um papel de grande importância no crescimento do rap na cidade. Ocupações como as promovidas pelos coletivos Altamente e Arredaí ajudam a trazer uma nova percepção sobre o conceito de cidade e compartilhamento cultural. O mesmo acontece com projetos como “Sofá na Rua”, realizado por essas bandas pela primeira vez em janeiro, e que traz no ”colaborativismo” uma forma de gerar mais opções de lazer para os itabiranos.

Confira alguns artigos publicados no Trem das Gerais sobre música independente:

Comentários

A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.