OPINIÃO: A Sina da Cena

A música independente é uma vertente que vem crescendo no mundo e funciona como caminho alternativo para bandas autorais que não ocupam a esfera mainstream do cenário musical. Isso repercute em uma fomentação cultural com menos preconceitos e sob um olhar mais honesto de “qualidade”. Os artistas independentes se tornaram, em sua maioria, verdadeiros “faz-tudo” de diversas áreas que estão presentes no cenário musical independente. Seja como escritor, fotógrafo, videomaker, operador de mesa de som, técnico de estúdio, escritor de projetos e editais, ou seja, tudo que é necessário para realizar seu trabalho. Essa multiplicidade de atuação é usada como “moeda de troca” entre artistas independentes para formar parcerias e disso, meus caros, é que surge a Cena.

O avanço tecnológico é um dos responsáveis pela música independente ter uma chance de encontrar seu lugar ao sol. Com equipamentos menores e mais baratos, tornou-se possível produzir seus registros musicais sem depender de uma grande gravadora ou mesmo de grande poder aquisitivo. Isso vale também para câmeras e editores de foto/vídeo. Esta pessoa que aqui escreve, por exemplo, gravou um álbum (“Arco-Íris Preto e Branco”) sem muito mais do que um notebook e uma interface de áudio.

Outra responsável pelo crescimento da Cena independente – talvez a principal responsável – foi a internet. Ela tornou possível que a música chegue ao público em potencial sem depender das grandes mídias. Nada mais justo do que o público escolher o que é bom e o que é ruim por eles mesmos. Essa situação revela contrastes como uma banda que faz sucesso em outras cidades e nas redes sociais, mas não toca nos eventos festivos de sua terra natal – sendo justo ou não, o fato é que essa banda independe do julgamento local para continuar existindo e, inclusive, crescendo. A principal diferença da internet para as mídias convencionais é que nela você precisa buscar o que deseja, sendo um hit do momento ou não. Claro que existem páginas, canais etc., que direcionam para algo menos generalizado, mas desde que busque aquilo.

Quem também contribuiu de maneira determinante para o cenário da música independente foi a formação de coletivos e parceiros. A rede Fora do Eixo funciona como um intercâmbio cultural para várias cidades desde que haja um coletivo que organize essa troca de experiências. Nos últimos anos, em Itabira, surgiram alguns desses coletivos, como “Filhos de Um Poeta Morto” e “AltaMente”, que vem dando oportunidade para artistas independentes locais.

Desde o antigo “Cabana” não via tanta coisa acontecendo nessa Cena, que se mostrava inerte até alguns nomes começarem a fazer barulho. Yves Thiago, Van Basten, Rodrigo Peso, Júlio Rasante fizeram, cada um ao seu modo, a diferença na cidade ao promover eventos a preços acessíveis, com condições básicas de estrutura e sem obtenção de lucro. Muitas vezes acompanhei esses eventos darem prejuízo ou serem criticados – seja por uma aparente falta de estrutura ou por considerarem que eles fazem barulho demais – e, mesmo assim, esses artistas-produtores continuam fazendo e evoluindo por um único motivo: fortalecer a Cena.

Outro bônus é que, quando algum itabirano, assim como n’O Mito Da Caverna, conhece outra realidade, acaba retornando com novidade, seja como o Pitty, que formou e retornou como professor, o Gustavo Linhares com o Trem das Gerais, ou Samuel Elom com APTO Session.

Não é de se estranhar que, quando uma banda ou projeto “dá certo”, logo em seguida venha outra parceira. Estamos caminhando e de mãos dadas. Já foi feito muita coisa e muito mais ainda falta para ser feito. Temos parceiros, mas parceiros nunca são demais. A Cena existe e tem crescido. Esse debate, assim como a Cena, não acaba aqui.

LEIA MAIS

 

Comentários

Músico, compositor e cachaceiro. Estudante e professor de música.