Olga Tokarczuk e Peter Handke ganham prêmio Nobel de Literatura

A romancista polonesa Olga Tokarczuk, de 57 anos, e o escritor austríaco Peter Handke, de 76, são os ganhadores do Prêmio Nobel de Literatura 2019. A Academia Sueca anunciou, nessa quinta-feira, 10 de outubro, que o prêmio entregue a Olga foi referente ao ano passado, quando a academia cancelou a premiação após um escândalo sexual. No início de 2019, a instituição anunciou a decisão de conceder dois prêmios neste ano, na tentativa de recuperar seu prestígio.

O prêmio para cada um dos ganhadores é de 9 milhões de coroas suecas (o equivalente a cerca de R$ 3,7 milhões). Segundo a academia, Olga – que é conhecida também por ser politicamente engajada à esquerda – foi escolhida por ter “uma imaginação narrativa que, com paixão enciclopédica, representa o cruzamento de fronteiras como uma forma de vida”. Ela foi premiada por ser também best-seller em seu país e traduzida para mais de 25 idiomas. No Brasil, ela tem uma única obra publicada: “Os vagantes” (Tinta Negra), lançado aqui em 2014.

Já Peter Handke – que é coautor do roteiro do premiado filme “Asas do desejo” (1987) – foi escolhido ganhador do Nobel “por um trabalho influente que, com engenhosidade linguística, explorou a periferia e a especificidade da experiência humana”, justificou a Academia Sueca. Conhecido pelo estilo experimental, ele tem dois livros lançados no Brasil.

Olga Tokarczuk

A polonesa, nascida em 1962, em Sulechów, vive em Breslau, também na Polônia. Formada em psicologia na Universidade de Varsóvia, estudou os trabalhos do psiquiatra suíço Carl Jung (1875-1961) e chegou a trabalhar como psicoterapeuta por um tempo. Antes de escrever prosa, publicou uma coletânea de poemas. Sua estreia na ficção foi em 1993, com “Podróz ludzi Księgi” (“A jornada do povo do livro”, em tradução livre).

Segundo o Nobel, a verdadeira inovação de Olga veio com seu terceiro romance, “Prawiek i inne czasy” (“Primitivo e outros tempos”), de 1996. O volume é “um excelente exemplo de nova literatura polonesa após 1989”, avaliou o comitê do prêmio. “A obra-prima de Olga Tokarczuk é o impressionante romance histórico ‘Księgi Jakubowe’ (‘Escrituras de Jacó’), de 2014. Ela mostrou nesse trabalho a capacidade suprema do romance de representar um caso quase além da compreensão humana”, acrescentou o comitê.

No livro, ela conta a história de Jacob Frank, figura histórica altamente controversa do século 18 e líder de um misterioso grupo herético judeu que se converteu, em diferentes épocas, ao Islã e ao catolicismo. Aplaudido pelos críticos, o livro provocou violentas reações em grupos de direita na Polônia, e a autora chegou a receber ameaças de morte.

Em 2018, a escritora ganhou o Man Booker International do Reino Unido pelo romance “Flights”, que reúne uma série de histórias, como um conto do século 17 sobre o anatomista holandês Philip Verheyen, que dissecou e desenhou detalhes de sua perna amputada, e uma história do século 19 sobre o coração do finado Chopin, que viajou oculto de Paris a Varsóvia.

Além de “Os vagantes”, seu único livro até agora lançado no Brasil, a editora Todavia planeja lançar, em novembro, o romance “Sobre os ossos dos mortos”. A obra retrata “uma professora de inglês aposentada [que]costuma se dedicar ao estudo da astrologia, à poesia de William Blake, à manutenção de casas para alugar e a sabotar armadilhas para impedir a caça de animais silvestres”, segundo o material de divulgação.

Peter Handke

O austríaco nascido em 1942, na vila de Griffen, na região de Kärnten, no sul da Áustria, pertencia à minoria eslovena do lugar. Hoje ele no subúrbio de Paris e é conhecido como um dos poucos intelectuais ocidentais pró-sérvios.

Seu romance de estreia, Die Hornissen, (“As vespas”, em tradução livre), foi publicado em 1966. A obra, junto com a peça ‘”Ofendendo o público”, de 1969, são citadas como responsáveis por deixar a marca do escritor no cenário literário. Os trabalhos são reconhecidos pelas experimentações radicais. “Mais de cinquenta anos depois do lançamento de seu primeiro livro, tendo produzido um grande número de obras em diferentes gêneros, o laureado de 2019, Peter Handke, estabeleceu-se como um dos escritores mais influentes da Europa após a Segunda Guerra Mundial”, disse o comitê do Nobel.

Em 2006, Handke causou controvérsia ao discursar no velório do ex-presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, acusado de genocídio e crimes de guerra. Considerado o mentor da Guerra do Kosovo, assim como de outras guerras nos Bálcãs nos anos 1990, Milosevic morreu na prisão aos 64 anos. Handke já vinha defendendo os sérvios publicamente. Em 1996, publicou um polêmico ensaio chamado “Justiça à Sérvia”, que via os sérvios como “as vítimas reais da guerra civil”.

Após o anúncio do Nobel, o presidente austríaco elogiou a escolha. “Que dia! Um dia de sucesso – pelo menos para a literatura austríaca, para a literatura de forma geral. Com Peter Handke, o Nobel ganhou um autor cuja voz calma e assustadora projeta, há décadas, lugares e pessoas que não poderiam ser mais fascinantes”, disse Alexander van der Bellen.

Há dois títulos de Handke publicados no Brasil, ambos publicados pela Estação Liberdade: “Don Juan (narrado por ele mesmo)”, de 2007, e “A perda da imagem: Ou através da Sierra de Gredos”, de 2009.

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