O chapéu trovador e a cultura que pulsa das ruas

A arte e as ruas são caminhos que se confundem. A produção cultural se apropria das histórias e da percepção sobre o cotidiano e a vida das pessoas. E as ruas oferecem esse material para que artistas possam dar vazão aos seus sentimentos e criar um retrato da nossa sociedade – que mais tarde pode ser visto impresso por tinta nas paredes, no artesanato da esquina ou na trupe que alegra o transeunte em uma tarde de sol. São as ruas como mecanismos de expressão artística.

chapéu_imaginário_01O Brasil pode não ter uma tradição forte em relação aos músicos de rua. Embora outros artistas sejam encontrados mais facilmente nas calçadas. Mas existem pessoas que dedicam a tirar notas em meio ao caos urbano. É o caso do projeto Chapéu Imaginário que passeia pelos arranha-céus da capital mineira, Belo Horizonte, e reúne o itabirano Samuel Elom e o chileno Yeye, que vem ocupando os espaços urbanos com uma mistura de música pop e latina.

A ideia do projeto é quebrar a rotina de quem passa pelas ruas ou usa o transporte público com música, animação e, claro, uma mensagem positiva. Ingredientes que ajudam a arrancar sorrisos. “Muitas vezes as pessoas já acordam no ‘piloto automático’ pra fazer as tarefas diárias. Acreditamos que ter uma ‘surpresa musical’ no seu trajeto, seja pra casa, trabalho, faculdade, escola, hospital, possa fazer uma pequena diferença no seu dia”, explica Samuel Elom.

Para isso é necessário mais do que os instrumentos musicais. A atitude conta muito para quem leva a vida como artista de rua, pois é o tempo de um ponto de ônibus ao outro que se tem para ganhar a simpatia do público. Um trabalho que precisa ser bastante lúdico. “Diferente do que as pessoas pensam, não é só sair com um instrumento e tocar. Tem que ter uma simbologia, uma atitude e uma energia. É isso que faz as pessoas terem uma empatia com seu trabalho. A música de fato é o canal que nós escolhemos pra transmitir essa energia”, reflete Samuel.

A criatividade dessa dupla de músicos é percebida logo no nome do projeto. O chapéu é um adereço bastante presente no dia a dia de um artista de rua, pois é ali que eles recebem as contribuições das pessoas que gostam do trabalho. Porém, Samuel Elom e Yeye, quando começaram a se apresentar pela cidade, não tinham nenhum chapéu. Assim, anunciavam que iriam passar o “Chapéu Imaginário”. A brincadeira pegou e acabou por batizar o projeto.

Passeio musical
chapéu_imaginário_02Diferente do que a maioria das pessoas está habituada, o artista de rua tem um trabalho em que a rotina não é uma constante. Horários e locais em que irão atuar são flexíveis e variam de acordo com as necessidades dos músicos. Em contrapartida exige deles uma grande dedicação para vencer os obstáculos e ganhar o público.

E os desafios não se restringem apenas ao reconhecimento do trabalho. Mas também das restrições que impedem de tocar em alguns locais, como o metrô da capital, que já foi palco das apresentações do Chapéu Imaginário. Porém, Samuel Elom e Yeye foram impedidos por dois policiais de tocar ali, pois se tratava de uma área pertencente à Companhia Brasileira de Trens Urbanos (CBTU).

Os músicos pararam de tocar, mas mesmo assim os policiais decidiram levá-los para uma sala em uma das estações do metrô, onde agiram com violência física e psicológica. “Os policiais foram muito violentos com a gente. Desrespeitaram muito o país do Yeye. Mas a população ficou do nosso lado e, no final das contas, não passou de mais uma experiência pra contar. Algo muito engraçado nessa história toda foi quando o policial, brasileiro, falou com Yeye: ‘seu país é uma bagunça e você vem bagunçar o Brasil’. Parece até piada”, relata Samuel Elom.

Intercâmbio cultural
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Apesar das dificuldades encontradas diariamente, tocar na rua é uma experiência tremenda para um artista. É o contato muito próximo das pessoas, o que acaba exigindo uma forma diferente de se relacionar com o público, sem contar as possibilidades de conhecer e trocar ideias com diversos outros artistas que trabalham pela cidade.

No caso de Samuel Elom e Yeye esse intercâmbio é ainda mais intenso – afinal é um brasileiro e um chileno fazendo músicas juntos. Enquanto um tem a oportunidade de se aprofundar nos ritmos latinos, o outro tem a chance de conhecer um pouco mais sobre o universo musical brasileiro. Uma parceria que favorece o desenvolvimento artístico da dupla.

“Só do fato de você absorver a influência de outra pessoa já se ganha muito, e tocar música latina é voltar às suas próprias raízes. Yeye gostou muito da música nordestina especificamente – e tem como não gostar? Tanto que até deixou a guitarra de lado e comprou uma sanfona. Pra mim, conhecer mais da música latina de outros países fez uma diferença tanto técnica quanto cultural. É estranho como os brasileiros às vezes parecem se esquecer que também são latinos”, explica Samuel.

O resultado dessa parceria são apresentações baseadas na música pop e nordestina, mas tudo com uma pegada latina. Então fique atento quando passar pelas ruas de Belo Horizonte, pois pode se deparar, na próxima esquina, com o Chapéu Imaginário.

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