MÚSICA INDEPENDENTE: um bate-papo com Tai Saint-Bohetu sobre sonoridade, processo criativo e cena autoral

No início de agosto, o Coletivo Altamente promoveu em seu espaço cultural uma mesa-redonda sobre música independente. No debate estavam presentes nomes da cena autoral de Itabira: João Jardel, do Poison or Medicine, Van Basten Moura, do Postura, e Vinícius Barcelos. Além do editor do Trem das Gerais, Gustavo Linhares. Em meio a esses itabiranos uma voz chamou atenção: Tai Saint-Bohetu, do projeto Tai Experience, trouxe a visão de quem encara o ofício da música na mineira Governador Valadares.

Do debate, a voz passou a ecoar no palco do Casarão Altamente. Com uma sonoridade única, simpatia e uma voz potente, Tai Saint-Bohetu trouxe a Itabira um trabalho de rara qualidade e com músicas densas que encontram eco na performance da artista. Um projeto que retrata a diversidade artística que permeia a cena independente de Minas Gerais. Uma evidência de que as alterosas ainda seguem como um celeiro de novos talentos e de efervescência cultural.

O Trem das Gerais bateu um papo com a Tai, que falou sobre o início na música, seu processo criativo, a cena independente e os desafios de ser mulher no meio cultural. Confira a íntegra dessa conversa!

TG: Como você começou na música?
TAI: Bom, a música sempre esteve em mim, é difícil definir um momento exato quando eu comecei na música. Desde muito pequena eu escrevia poesias, cresci num meio com poemas e músicas em abundância e sou muito grata a isso. Sempre tentava montar bandas com as amiguinhas da escola, com as minhas primas. Mas o momento em que eu decidi seguir a música como profissão foi mais tarde, entre os 16/17 anos que eu percebi que, pra mim, não existe outra opção.

TG: Quando e como deu início ao projeto Tai Experience?
TAI: O projeto Tai Experience começou há pouco tempo, com o intuito de trabalhar com música autoral, que é meu bem mais precioso. O grupo é formado por mim (violão e vocal), Morenno Salomão (guitarra), João Augusto (baixo) e Fabiano Fernandes (Bateria/Percussão).

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TG: Porque chamar Tai Experience?
TAI: Eu demorei a chegar nesse nome, mas ele é bem simples e preciso. Eu gosto de sentir as coisas, as pessoas, os momentos e acho que cada um tem suas peculiaridades e me geram diferentes formas de criar, pensar e ver o mundo. A escolha desse nome foi por isso, simbolizar essa experiência e me permitir passear por entre os estilos musicais e estéticas com a liberdade que eu tanto prezo.

TG: Do que se trata esse projeto?
TAI: É um projeto que não consigo definir em palavras medidas. Se trata de liberdade como um todo: do pensamento crítico, das amarras que nos atam ao mesmo padrão de comportamento doente e do poder que a arte tem de curar e embelezar qualquer coisa que seja. O projeto se trata de música autoral e, pra mim, a música autoral é tudo isso, abrir portas pra um novo mundo, uma nova visão. O projeto pode se tratar de muitas coisas, depende dos olhos com os quais o vê!

TG: Você é uma artista da cena independente. Quais os desafios da cena autoral e independente?
TAI: A Desvalorização. Muita gente não tem o costume de ouvir ou de buscar o novo. Se acomodam com a informação que recebem da mídia e fica por isso mesmo.

TG: Na sua opinião, o que é preciso para se ter uma cena independente mais forte?
TAI: A união dos artistas é essencial. Quando uma cena cresce, os artistas crescem juntos.

TG: Quais os desafios de ser mulher nesse meio musical?
TAI: Os desafios de ser mulher são grandes em todas as profissões, na música não seria diferente. Existe muita falta de respeito, infelizmente, tanto de alguns músicos como de pessoas na plateia. Além de enfrentar todas as dificuldades de ser uma artista autoral e independente, ainda temos que lidar com assédios e afins.

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TG: Como é o seu processo de composição?
TAI: Meu processo de criação é muito intuitivo, ao mesmo tempo, analisado cautelosamente. Eu componho o que eu quero ouvir, o que me faça sentir aquele aperto no coração só pra saber que a música chegou lá! Cada música tem seu momento, algumas demoram a vir, outras são compostas de uma só vez. São como filhas, meu maior orgulho, gosto de ver elas tomarem forma, ver a força que elas têm. Eu escrevo como uma condição de vida, escrevo porque preciso. As melodias são a alma das minhas palavras, os sentimentos, as lágrimas, os gritos abafados e as alegrias.

TG: Recentemente esteve em Itabira. Qual a sua impressão da cidade e da cena cultural aqui?
TAI: A cidade de Itabira é linda! Desde a estrada ao lado do trem até as construções antigas, gosto de observar as paisagens, e o local me encheram os olhos! Não posso dizer muito da cena como um todo, mas o que presenciei na minha breve passagem foi um trabalho de muita qualidade. Fui muito bem recebida pelas outras bandas independentes, artistas, como a Poison or Medicine e Vinícius Barcelos, que se apresentaram no mesmo evento que eu, e pela equipe do Casarão[Altamente], pessoas sensacionais que espero encontrar muitas vezes mais!

TG: Quais os seus próximos projetos?
TAI: Agora estamos focando na gravação de um projeto acústico, que em breve vai ser lançado e que pode ser acompanhado nas redes sociais (@TaiExperience ).

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