Música e linguagem: uma viagem evolutiva

A música pode ser compreendida sob diversos aspectos, tais como uma simples combinação organizada de sons e silêncios, respeitando regras matemáticas e físicas específicas; ou como uma forma de arte milenar, de caráter universal. Ela também é descrita como um elemento de socialização e integração, e sob ponto de vista médico é considerada até como um recurso para o tratamento de algumas doenças. Além disso, algumas religiões e seitas a utilizam como uma ferramenta para a transcendência espiritual. De fato, nenhum desses conceitos são excludentes.

Existem evidências que nossos ancestrais, há cerca de cinquenta mil anos, já produziam música através de instrumentos rudimentares, e que a dança já se constituía como elemento cultural nas cavernas.

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Flauta da Eslovênia datada de 50 mil anos atrás.

Alguns aspectos relacionados à música, como a sua antiguidade, a sua ubiquidade (presente em todos os povos) e os seus fundamentos neurobiológicos sugerem que no passado ela tenha sido determinante na evolução da espécie humana. Sabe-se que a linguagem dos nossos ancestrais, antes do advento da linguagem verbal, constituía-se de sons sem palavras. Considerando-se uma sequência evolutiva, os indivíduos que detinham a habilidade de aprender, compreender e executar essa “linguagem musical” eram melhor adaptados ao ambiente hostil em que viviam.

O canto e a dança dos “homens das cavernas” afastavam os predadores, promoviam uma maior integração social e potencializavam o desenvolvimento de outras habilidades cognitivas. Sendo assim, esses indivíduos “musicais” alcançavam em maior contingente a idade reprodutiva, e consequentemente tinham maiores chances de transmitir os genes relacionados às habilidades musicais aos seus descendentes. Esse mecanismo é compreendido pela teoria da seleção natural, proposta por Charles Darwin, que inclusive complementou, em 1871, que “o ritmo e as notas musicais foram originalmente adquiridos pelos ancestrais masculinos e femininos da humanidade para atrair o sexo oposto”, o que o mesmo batizou como “seleção sexual” através da música.

Todos esses mecanismos de seleção natural, ao longo de milênios, fizeram com que a música se transformasse em uma habilidade comum da nossa espécie. Ao longo do desenvolvimento das civilizações, ela continuou presente na nossa linguagem, mesmo com o advento da palavra. Nossa comunicação é rica em elementos não verbais, e nossas habilidades musicais permitem inflexões, acentuações, exclamações, entonações, pausas e ritmos, que constituem aquilo que chamamos de prosódia. Por exemplo: podemos saber se uma pessoa está cansada, triste, feliz, ansiosa, exaltada ou com medo pela maneira como o discurso dela é apresentado, através dos elementos descritos acima.

Inúmeros estudos nos mostram que o aprendizado musical pode ser um recurso terapêutico que potencializa a aquisição da linguagem, em concordância com diversos outros estudos que constataram que a música e linguagem compartilham áreas cerebrais comuns. Crianças com autismo, por exemplo, têm áreas cerebrais relacionadas à linguagem que são melhor estimuladas quando ouvem uma canção do que quando ouvem outra pessoa falando, o que torna a musicoterapia uma excelente ferramenta no aprimoramento linguístico.

Além disso, sabemos de todo o poder emocional que a música nos impõe. Todos nós experimentamos, de modo quase incontrolável, uma infinidade de sentimentos e sensações ao ouvirmos determinadas canções. Podemos inclusive viajar no tempo, relembrando momentos remotos de nossa existência, que talvez jamais seriam relembrados, se não fosse pela memória musical.

Diante desses e de diversos outros elementos, nas últimas décadas a música tem se tornado um foco de estudo crescente na neurociência, uma vez que está intimamente ligada ao desenvolvimento da espécie humana, às emoções, à memória, às relações sociais e ao pulsar de nossas vidas. Muitas doenças têm sido alvo de tratamento através da musicoterapia, com alguns resultados surpreendentes.

Friedrich Nietzsche disse que sem a música, a vida seria um erro. Compreendo essa frase pela magnitude do vínculo que temos com a música nas nossas vidas. Ela está presente o tempo todo, mesmo quando não a percebemos. Portanto, recomendo que a apreciem, dancem, toquem, cantem, usufruam desse “dom” biológico que a evolução (e Deus, para os que nele acreditam) nos proporcionaram. Pois não há contraindicações, e nem efeitos colaterais. Sugiro somente o cuidado com o volume, para não prejudicar seus ouvidos e nem suas cordas vocais, e nem incomodar os que não estão a fim de ouvir a mesma música que você ouve ou canta!

*Artigo escrito por Bruno Cézar Lage Cota, médico especialista em Clínica Médica, músico (vocalista e guitarrista do Rivotrio sem Receita), mestre pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) nas áreas de Neurociência da Música, Audiologia e Neurofibromatoses.

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