Mancha Verde e Mangueira falam de um Brasil que não está nos livros de história e vencem o Carnaval 2019

Os desfiles dos Grupos Especiais de São Paulo e do Rio de Janeiro surpreenderam muito em 2019. Eles levaram para a avenida inovações tecnológicas de encher os olhos e exploraram temas com forte viés político e cultural. O que os livros de história não ensinam nas escolas, as duas agremiações carnavalescas mostraram com maestria, cores e sambas fortes. A força e a resistências das culturas negra e indígena falaram alto nos desfiles, no coração do público e na nota dos jurados.

Mancha Verde

Campeão do carnaval de São Paulo pela primeira vez, a escola contou a história da princesa africana Aqualtune que foi trazida para o Brasil contra a vontade dela e se tornou uma guerreira contra a escravidão. Logo de cara, a comissão de frente já deixava claro que toda a inspiração do carnavalesco Jorge Freitas, para contar a saga da princesa do Congo, era a África.

mancha-verde-2019-03-02-q98a1972-fabio-tito-g1

O gigantesco carro abre-alas retratou Oxalá, o maior dos orixás, algumas das riquezas africanas. E essa foi a tônica de todo o desfile. Fantasias luxuosas, distribuídas em 20 alas e cinco alegorias, passearam por momentos tristes da história, como conquistadores portugueses que exploraram a África e o sangue derramado pelos escravos.

mancha-verde-2019-03-02-q98a1822-fabio-tito-g1

O público não foi poupado de imagens fortes. A Mancha Verde colocou atores para encenar a tortura sofrida pelos negros. Ao mesmo tempo, viram nas 70 baianas a personificação das sacerdotisas do continente africano, responsáveis pela proteção espiritual. A bateria, comandada por Mestre Maradona, foi outro espetáculo à parte. Os 200 ritmistas desfilaram como guerreiros africanos e usaram plataformas para facilitar o trabalho dos comandantes da bateria na hora do recuo.

mancha-verde-2019-03-02-q98a2026-fabio-tito-g1

Ao longo do desfile, foi possível ver a avenida ficando cada vez mais colorida. Ao final, o último carro retratou aquele que seria o neto da princesa Aqualtune, Zumbi dos Palmares, soberano e representante da resistência e da liderança negra. Essa alegoria será doada ao Museu Afro Brasil logo após o desfile das campeãs.

mancha-verde-2019-03-02-q98a2039-fabio-tito-g1

Estação Primeira de Mangueira

Com o enredo “História para ninar gente grande”, a Marquês de Sapucaí viu a Mangueira homenagear heróis populares que tiveram atos importantes, mas foram omitidos nas páginas dos livros. O carnavalesco Leandro Vieira fez de tudo para registrar o protagonismo popular e deu nomes aos índios, aos negros e aos pobres que, com atos heroicos, não entraram para a história oficial. E conseguiu!

mangueira-2019-03-05-img-8849-rodrigo-gorosito-g1

A Mangueira fez bonito e cativou o público já nos primeiros passos na avenida. Com 3500 componentes, a escola verde e rosa apresentou heróis como o guerreiro Sepé Tiaraju, que tentou evitar o massacre dos Guaranis pelas tropas de Portugal e da Espanha. Em 24 alas e cinco alegorias, a Mangueira conquistou seu 20º título dando uma aula de história linda de se ver.

mangueira-2019-03-05-img-8885-rodrigo-gorosito-g1

O samba-enredo assinado por Manu da Cuíca, Tomaz Miranda, Luiz Carlos Máximo, Vitor Arantes Nunes, Sílvio Moreira Filho e Ronie Oliveira citou Marielle Franco, vereadora do PSOL morta a tiros em março do ano passado. A vereadora, militante de causas sociais fortes, inspirou a escola em outros momentos do desfile. A comissão de frente, com coreografia de Carlinhos de Jesus, desconstruiu a imagem de figuras como a Princesa Isabel, o bandeirante Domingos Jorge Velho, o Marechal Deodoro da Fonseca, Dom Pedro I e Pedro Álvares Cabral. Ao mesmo tempo, mostrou que sua veia políticas estaria PRESENTE em todo o desfile.

mangueira-2019-03-05-img-8838-rodrigo-gorosito-g1

O passeio da Mangueira pela história brasileira, recontou batalhas entre índios e portugueses, com tribos dizimadas. Uma das alas mostrou os índios Cariris e sua luta para que o Nordeste não fosse invadido, em um conflito de mais de 50 anos. Destaque também para as musas da comunidade que representaram importantes mulheres negras como Acotirene, matriarca do Quilombo dos Palmares, e Adelina Charuteira, da campanha contra a escravidão no Maranhão.

mangueira-2019-03-05-img-8972-rodrigo-gorosito-g1

Os carros que mais conquistaram o público foram os dois últimos que mostraram a história de Chico da Matilde, o jangadeiro negro que lutou para impedir o embarque de escravos no Ceará, e os livros da “história que a história não conta”, questionando as lições ensinadas nas escolas.

mangueira-2019-03-05-img-9227-rodrigo-gorosito-g1

LEIA MAIS

Comentários

Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras