Laz Muniz: um bacanal de cores e criatividade

Começa nesta quarta-feira, 11 de novembro, em Belo Horizonte, e vai até domingo, 15 de novembro, o 9º Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ). O evento já é considerado o maior do gênero no Brasil e um dos principais da América Latina. Com uma programação variada, reúne diversos profissionais das artes gráficas para uma troca de experiências única sobre quadrinhos, ilustrações e desenhos. Dentre os convidados para o FIQ 2015 está Laz Muniz, artista natural de Nova Era e radicado em Itabira, além de colunista do Trem das Gerais.

laz_bacanal_estrelas_08A participação no Festival de Quadrinhos terá um gosto especial para Laz Muniz. A começar pela presença na série “Oubapo 2”, que acontece no último dia do FIQ e reunirá cinco artistas improvisando cinco páginas de quadrinhos. Um desafio e tanto. Além disso, o quadrinista novaerense ainda fará o lançamento do seu mais novo trabalho, a revista “Bacanal de Estrelas”, que acaba de chegar para o público.

A publicação marca as comemorações de 25 anos de carreira de Laz Muniz, completados em julho, e reúne uma série de produções que marcaram a linha de criação do artista. Materiais antigos e novos dividem as páginas da “Bacanal de Estrelas” – e que você, leitor, pode sentir o gostinho nos desenhos espalhados ao longo deste artigo. Esse trabalho não só revisita a carreira de Laz Muniz, mas também o direcionam para um novo caminho em seu universo criativo. Só que agora mais maduro.

As aventuras do quadrinista neste final de semana em BH não param por aí. Ele também participará do festival Traço – Música e Desenhos ao Vivo, que acontece no Sesc Palladium nos dias 13 e 14 de novembro, e integra a programação do FIQ 2015. Nesse evento, desenhistas criam ilustrações durante as apresentações musicais. E cada obra gráfica é exibida em um telão. Laz Muniz ainda terá um stand onde o público poderá conhecer mais sobre o seu trabalho.

Em meio à correria que antecede a participação nesses projetos artísticos, Laz Muniz conversou com o Trem das Gerais sobre o FIQ, os quadrinhos no
Brasil e, claro, não deixou de falar da “Bacanal de Estrelas”. Confira esse bate-papo:

Como será a sua participação no FIQ 2015?
Estarei presente de quinta a domingo. Mas no domingo farei parte da programação “Oubapo2” e, após esse evento, lançarei a Bacanal de Estrelas.

Você participará de uma discussão sobre improvisação em quadrinhos. Qual a importância dessa discussão?
Na verdade não será uma discussão, mas a produção, em si, de cinco páginas de quadrinhos junto a quatro outros quadrinistas e a um mediador. Será um duelo de desenhistas, um verdadeiro faroeste. Para mim isso ainda será uma surpresa. Vamos saber de tudo lá na hora e que vença o melhor!

O FIQ tem se notabilizado por ser um dos principais eventos voltados para os quadrinhos e desenhos no Brasil. Qual a importância para o setor contar com laz_bacanal_estrelas_05um festival desse porte?
Na verdade o FIQ, hoje, já é considerado um dos maiores eventos do tipo da América Latina e o maior do Brasil, no momento.

Até o boom do FIQ de 2013 o mercado ainda enfrentava uma crise muito grande nesse setor. Aliás, não sei se poderíamos chamar de crise do setor, pois era algo que nem existia. Como haver crise num setor que não movimenta, né? Mas claro, o FIQ foi só um divisor de águas nesse processo, um empurrão gigantesco para o mercado, já que de uns tempos pra cá os quadrinhos vêm tomando uma posição legal no mercado, de crédito e respeito, nunca antes visto, nem mesmo no seu auge dos anos 80 com a explosão do “udugrudi” e tantas outras alternativas, com tantas editoras do tipo que, depois, faleceram. Mas muita coisa mudou. As gerações que estão aí são outras, são mais interessadas e mais atinadas no que vem rolando. A internet vem contribuindo infinitamente pro artista aparecer, mostrar serviço e também pros olheiros de plantão do mercado que andam buscando novos talentos. Fazer webcomic é barato, o único investimento é o seu tempo e seu material, mas também não tem retorno financeiro. Esse retorno vem com o resultado de qualidade do seu trabalho, futuramente. E é assim que o mercado tem funcionado. Aliás, é assim né? Quem não aparece não vende.

Outra coisa de extrema importância que vem contribuindo muito para que os leitores percebam certos artistas e optem pela qualidade de um ou outro e vem contribuindo também para o setor são os coletivos, alguns já até viraram editoras, mas os coletivos têm uma importância muito grande no meio, até porque é um artista ajudando o outro e aonde um vai o outro acaba, consequentemente, indo junto.


Qual a importância de se discutir os quadrinhos, desenhos e charges? E como está essa discussão no país?
A discussão sempre existiu e sempre há grandes discussões em grupos, eventos, redes sociais, webgrupos etc, de todos os meios. Ultimamente, assim como agora, no FIQ, uma das grandes pegadas é o valor e a questão da mulher no quadrinho, sua representatividade como autora e a questão do sexismo, da segregação de gêneros, homofobia etc. Tudo o que já acompanhamos no dia a dia da nossa atualidade sobre o assunto também tem gerado belos debates e mudanças nos rumos e formas e meios de se fazer quadrinhos, principalmente no que se refere às heroínas bombadas, cheias de decotes, extremamente sexys. O grande lance não é separar: óh, isso aqui é quadrinho de mulher, feito para mulher. Não. Não, mesmo. É ao contrário, é não nomear, não dar título a gêneros. Simplesmente reconhecer que elas fazem, elas podem e estão no nosso meio como todos estão, trabalhando e fazendo quadrinhos de qualidade muito superior, inclusive. Hoje, no FIQ, dentre todos os convidados, há mais mulheres do que homens. O site/evento Ladyscomics tem um papel fundamental nessa formação e elas têm feito um progresso muito grande dentro do universo quadrinístico.

Durante o FIQ você lançará a revista “Bacanal de Estrelas”. Porque escolheu fazer esse lançamento no FIQ?
O lançamento não estava programado pro FIQ. Ele não entrou na programação oficial, apenas minha participação no Oubapo. Porque a ideia da revista veio depois que se encerrou o prazo de inscrição para lançamentos. Mas como eu terei minha mesa à disposição para sessão de autógrafos após o evento Oubapo, a mesma me foi cedida para o lançamento do Bacanal de Estrelas. Mas antes do lançamento no FIQ, já estarei vendendo a revista em um estande na festa Traço e Música, que já era uma festa bem conhecida do meio, em Belo Horizonte, voltada para interagir o público à produção de quadrinhos junto à apresentação de bandas, onde o artista produz sua página ao som da banda que está tocando no momento e essa arte é projetada em telão ao vivo durante o show. E, consecutivamente, com outros artistas e músicos. E desta vez eu estarei na quinta e sexta feiras, durante o Traço, com meu estande de vendas do Bacanal de Estrelas.

laz_bacanal_estrelas_03Como foi feito o trabalho de compilação e elaboração do material que compõe o “Bacanal de Estrelas”?
Em julho deste ano completei 25 anos de carreira, desde que comecei a produzir artes gráficas de imprensa como charges, tiras, ilustrações, cartuns para jornais. Eu tinha 13 anos e faço essa contagem a partir do momento que comecei a receber por isso. Ou seja: profissionalmente. Desde então não parei mais e, pré-decidido a viver disso, não tive remédio contra.

Portanto, a Bacanal é uma compilação de algumas HQs que fiz nesse período, mais de 2000 pra cá, que meio que marcaram um pouco a minha linha de criação. Assim, juntei algumas histórias que abordam o mesmo assunto: pessoas do bem, que fazem o bem (assim como animais), mas que por ironia do destino são as primeiras a se darem mal, por alguma razão que nem a razão reconhece.

Na HQ que leva o título da revista (foi publicada originalmente na revista Grafitti 76% Quadrinhos N° 11), um personagem solitário que tenta conquistar a atenção de algumas poucas pessoas em uma festa/resenha no apartamento de um deles se mata se jogando da janela. Naquele momento todos estavam pensando porque naquela festa não havia bebida alcoólica, não havia tira-gostos e alguém estava servindo café. Já o protagonista Fernando, uma alusão a Fernando Pessoa, até mesmo nas características físicas, busca dar sentido ao momento, ao amor, às mulheres, à vaidade, e todos só querem sexo. Tá todo mundo buscando o seu prazer gratuito e momentâneo. Esse é o bacanal de estrelas onde a orgia é cerebral, é do desejo, do oportunismo. Assim, as outras HQs da revista tratam um pouco disso… do interesse próprio da maioria e a minoria se perde. São estrelas sem brilho e sem ambição.

Bom lembrar que há HQs inéditas e já publicadas, assim como algumas muito antigas nunca antes publicadas.

O que o público pode esperar desse seu novo trabalho?
Um divisor de águas, o AL/DL (hehe, Antes do Laz Muniz e Depois do Laz Muniz). Marca uma nova fase na minha vida profissional porque há anos venho tentando voltar aos quadrinhos. A última coisa que publiquei foi o álbum de 120 páginas MUIRAQUITÃ, em parceria com o roteirista Wellington Srbek, hoje editor da Editora Nemo, um selo do Grupo Autêntica voltado só para os quadrinhos e que tem lançado muita coisa de qualidade no mercado. E Muiraquitã saiu em 2004, se não me engano. De lá pra cá me perdi na publicidade, ilustrações do tipo e muito trabalho gráfico também. Nada de livros se produziu como autor e ilustrador, e ultimamente venho me dedicando muito mais. Já com o FIQ 2013 me senti estimulado a isso e, agora, com o fato de ter completado 25 anos de trabalhos ininterruptos e variados e com essa oportunidade do FIQ, me senti bem mais motivado a dar continuidade ao “eu quadrinista” que se perdeu no tempo.

O material de Bacanal de Estrelas segue uma linha de HQs bem a cara do que eu já fazia. Mesmo as inéditas que acabei de produzir ainda em outubro. Mas os roteiros que venho escrevendo e as artes que venho fazendo para os futuros quadrinhos são de outro Laz Muniz, muito mais maduro e consciente do que é um quadrinho de qualidade.

Eu tenho uma preocupação muito grande com histórias bem contadas. Já as fazia assim, eu acredito, não vou negar. Mas confesso, sem modéstia, que o que venho elaborando ultrapassou minha expectativa.

Não digo que se trata de trabalhos renovadores ou que são melhores do que muitos. Não. São trabalhos desta forma, dentro da minha forma de trabalhar.

SERVIÇO
9º Festival Internacional de Quadrinhos (FIQ)
Data: 11 a 15 de novembro
Horário: 9h às 22h
Local: Serraria Souza Pinto (Av. Assis Chateaubriand, 809, Centro, Belo Horizonte, 31 3213-3400)
Ingressos: Gratuito
Outras informações: http://www.fiqbh.com.br

Traço – Música e Desenho ao Vivo
Data: 13 e 14 de novembro
Horário: 22h
Local: Sesc Palladium (Rua Rio de Janeiro, 1046, Centro | Rua Augusto de Lima, 420, Centro, Belo Horizonte, 31  3270-8100)
Ingressos: Gratuito
Outras informações: http://www.facebook.com/festivaltraco

Veja uma prévia do “Bacanal de Estrelas”:

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.