ARTIGO: Feminismo e a mulher no futebol

A trajetória da mulher no futebol desde o início enfrentou muito preconceito e machismo e, até hoje, consolidar a presença delas no esporte, seja como jornalistas esportivas, árbitras, atletas ou apenas torcedoras, tem sido mais um desafio para o Feminismo.

Tudo começa quando o futebol feminino, prática que inclusive foi proibida pelo Decreto-Lei n. 3 199, de 14 de abril de 1941, surge pelas mulheres da periferia. Esse é um contraponto importante, já que o esporte desde o início era praticado pelo público masculino da elite brasileira em meados do século XIX, principalmente nas cidades do Rio de Janeiro e em São Paulo. O papel da mulher, nessas situações, eram as socialites fazendo o papel de torcedora.

Entretanto, mesmo com a proibição do futebol feminino, com o pretexto de que o esporte era prejudicial às mulheres e poderia lesionar seus órgãos, impedindo-as de gerarem filhos, as mulheres não desistiram. Se organizaram e começaram a achar brechas nas leis, sendo Léa Campos uma das pioneiras, a concluir um curso de arbitragem pela CBF, enfrentando o preconceito dos demais colegas de sala e sendo impedida de participar da sua própria formatura.

Na mídia, a jornalista esportiva Marilene Dabus se tornou a primeira mulher a designar a função de setorista de um time de futebol no Brasil (Regatas do Flamengo) na década de 1960 pelo jornal “Última Hora”.. Daquela época até hoje, pouco mudou no comportamento machista em relação às mulheres da mídia esportiva. Recentemente, nas redes sociais, foi criado o movimento #DeixaElaTrabalhar onde jornalistas protestam contra o assédio e machismo nos estádios, redações e ambiente de trabalho.

Quando o assunto é arquibancada, vários estereótipos foram aplicados às mulheres torcedoras. Até então, um dos termos mais usados era o “Maria chuteira”, fora as “piadas” com nomes de mulheres para ofender os torcedores rivais. Aqui em Minas Gerais, é comum alguns torcedores chamarem os cruzeirenses de “Marias” em tom ofensivo, como se as características femininas fossem inferiores e motivos de zombaria. Mulheres amantes das arquibancadas ouviam de tudo, desde apelidos ofensivos a perguntas e situações constrangedoras. Que mulher nunca ouviu um “me explica o que é impedimento?” ao dizer numa roda de amigos que gosta de futebol?

Tem também os assédios que acontecem a todo tempo. Pensando nisso, em 2018 o Estádio Mineirão, localizado na capital mineira, realizou a campanha #REPENSE, onde torcedoras do Cruzeiro se uniram para debater ações para o mês das mulheres conscientizando sobre o assédio e o machismo nas arquibancadas. Foi produzido um vídeo com relatos de situações constrangedoras que essas torcedoras já foram expostas constantemente nas arquibancadas, e foi transmitido no telão do estádio durante os intervalos dos jogos do mês de Março. Foram produzidos também cartazes com dizeres como “não é não” entre outros e espalhados por toda extensão do estádio, principalmente nos banheiros masculinos já que o público alvo da campanha eram os homens.

O desafio de ser mulher e gostar do esporte tem sido vencido aos poucos, mesmo com todo machismo que ainda ronda esse cenário, essas mulheres apaixonadas não se calam (não mais), e seguem na luta para conquistar o seu espaço, sejam elas torcedoras, jornalistas, árbitras ou atletas.

*Artigo produzido pelo Coletivo Varias Marias, de Sete Lagoas, que colabora com o Trem das Gerais com textos feministas.

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