ENTREVISTA: Violência doméstica e a perspectiva de Marina Schaun

O amor pode ser muitas coisas, mas se tem uma coisa que o amor não é, é violento – série Coisa Mais linda

Dia 16 de junho, Sete Lagoas, cidade a 72km de Belo Horizonte, foi surpreendida com a notícia de um caso gravíssimo de violência doméstica em que o acusado citado é Emílio de Vasconcelos, um pré-candidato a prefeito e conhecido ator da política municipal. Marina Schaun, a vítima, registrou boletim de ocorrência e o processo contra o candidato, seu ex-marido, foi aberto.

Segundo o boletim de ocorrência, a agressão ocorreu no dia 12 de junho deste ano, às 22h30. Marina divulgou fotos das marcas de agressão em seu corpo, a fim de comprovar a veracidade de sua denúncia. As imagens são extremamente tristes e impactantes, e esse esforço de comprovar é a consequência de mulheres serem constantemente desacreditadas quando denunciam uma violência. Essas são submetidas a intensa exposição que desrespeita a sua situação de dor para que sua narrativa seja validada, ainda que minimamente.

Gaslighting (manipulação, em inglês) é uma forma de abuso psicológico muito comum em casos de violência doméstica, se trata da construção da vítima como louca e desequilibrada. É um jogo de argumentação e manipulação geralmente feito por abusadores, para que até a própria vítima duvide de si mesma. Coloca-se o depoimento da mulher em xeque o tempo todo, e a vítima passa a se perguntar: “Será que eu não exagerei ao denunciar?”, “será que eu não estou vendo problema onde não existe?”, “será que eu não estou errada?”.

A situação de Marina é um pouco mais delicada, diferente da maioria das mulheres sobreviventes de violência, porque o seu caso se tornou público, já que o acusado é um político da cidade. Estando público, o julgamento do caso de Marina não está mais apenas nos tribunais, muitas pessoas estão a julgando a partir dos moldes machistas e patriarcais que convivemos. Muitos ainda alegam que estão seguindo o princípio da presunção de inocência, em que o agressor não é culpado até que se prove o contrário, mas esquecem até mesmo que o Direito e todo o sistema de justiça também funcionam seguindo a lógica patriarcal. A violência de gênero é o único crime em que vemos a vítima sendo julgada tanto ou mais que seu agressor, especialmente nos tribunais. Questionam se a vítima fez algo que pudesse levar à agressão ou se ela forjou os ferimentos, em uma tentativa de transferir a responsabilidade do agressor, pela violência, para a vítima.

Os acalorados defensores desse princípio ignoram, também, as dificuldades encontradas pelas vítimas em denunciar os casos. Sobretudo, há diferentes atravessamentos que podem dificultar a mulher sair de uma situação de violência e fazer a denúncia, devemos considerar os recortes sociais e raciais. As vítimas precisam ter garantia de que terão um local para dormir, que terão como se sustentar e que os filhos ficarão mais seguros dessa forma. Porém muitas mulheres não têm essas condições e, por isso, não denunciam ou demoram a denunciar os crimes. Para além disso, o processo da denúncia é, por si só, violento. A mulher tem que reviver o caso para diversas pessoas registrarem, precisa enfrentar um processo, passar pelo exame de corpo de delito – e há ainda agressões que não deixam marcas físicas -, receber o julgamento moral e social da sua comunidade e até da sua família.

Emílio de Vasconcelos (PSB), o acusado, já reergueu sua pré-campanha à Prefeitura e segue desacreditando a vítima em todos os espaços que circula, mesmo tendo confessado o crime quando interrogado pela Delegada. Decidimos usar o espaço da nossa coluna para fortalecer a Marina, que está fragilizada nesse momento. Entramos em contato com ela que muito gentilmente aceitou nosso convite de ser entrevistada. Pensamos que a partir de suas respostas, podemos ver e entender a perspectiva de uma mulher vítima de violência doméstica sobre essa situação.

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Marina Schaun nasceu em Sete Lagoas, no dia 15 de julho de 1976. É filha de Nicolau Miguel Schaun, de Ilhéus, de Eliana Andrade Schaun, de Jaguaquara. Ambos baianos, mas Marina calhou de ser mineira. Seu pai era funcionário da Embrapa, na época da gravidez de Marina, foi transferido para Sete Lagoas, o que fez com que ela se tornasse a única da família nascida em Minas Gerais. Nicolau faleceu há três anos, do qual Marina sente uma falta muito grande. Tem também uma irmã, Márcia Schaun, arquiteta, nascida em Ipiaú.

Ela tem 44 anos, é pedagoga, possui especialização em Psicopedagogia e Pedagogia Empresarial, pós-graduada em Gestão de Pessoas e também é enfermeira. Atualmente é gerente de uma loja de roupas e acessórios de academia. Marina é apaixonada por bichos, e o nutre o sonho de ter uma ONG para acolhimento de animais abandonados.

Marina é uma mulher muito forte, e diz que isso provém da criação de seus pais, que acreditavam que a mulher independente era mais feliz, e foi nesse ambiente que ela cresceu. Já participou de alguns projetos sociais, como campanhas de agasalho, já coordenou dois projetos do PAC (Programa de Aceleração e Crescimento) em Sete Lagoas, quando trabalhava na Fundep (Fundação de Desenvolvimento da Pesquisa – UFMG) como pedagoga, confeccionando cartilhas informativas e atenção à população. Trabalhou também no Serpaf por um tempo com as crianças atendidas pela instituição e foi enfermeira no HNSG.

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Marina em sala de aula. Crédito: arquivo pessoal.

Esse pensamento social provém dos ensinamentos de seu avô e de seu pai. Marina é neta de Nelson Schaun, que foi professor de Língua Portuguesa, jornalista e fundador da Academia de Letras de Ilhéus, em 1959. Nelson foi perseguido, durante uma parte de sua vida, devido suas convicções políticas.

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Marina como enfermeira. Crédito: arquivo pessoal.

Marina casou-se com Sérgio em 2003, com quem teve o seu filho Augusto, hoje com 15 anos. Separaram-se por divergência de objetivos em 2012, e hoje nutrem uma amizade saudável e carinho pela história que viveram juntos e pela criação do filho. Em 2017, ela e Emílio se conheceram, começaram a namorar e se casaram no mesmo ano. Ela relata que vivenciou um relacionamento abusivo. Dia 16 de junho de 2020, Marina registrou um boletim de ocorrência de violência doméstica e Emílio foi indiciado.

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Marina e seu filho Augusto. Crédito: arquivo pessoal.

Várias Marias Entrevistadora: Nós, integrantes do Coletivo Várias Marias, achamos muito importante relatos sobre a violência doméstica para que outras mulheres possam se identificar nessa situação e que outras pessoas possam se conscientizar do assunto, saber como devem se comportar. Principalmente, queremos potencializar a sua voz, queremos escutar o que você tem a dizer. Além disso, se tiver alguma pergunta que você não queira responder ou algo que não se sinta confortável a falar, é só nos comunicar e nós entenderemos, respeitamos seus sentimentos e a situação, o seu bem-estar deve ser colocado em primeiro lugar.

Várias Marias Entrevistadora: O que é ser mulher para você no Brasil e em Sete Lagoas?

Marina Schaun: Ser mulher é sinônimo de garra. Somos duas filhas mulheres em casa, e nossos pais nos criaram de forma a conquistar totalmente a liberdade e a independência, buscando dignidade e respeito. Dentro de casa e na escola nunca senti essa diferença entre homens e mulheres, nunca me senti inferior. No trabalho também nunca vivenciei essa situação, mesmo fazendo parte de uma equipe mista. Ser mulher no Brasil machuca sim, mas eu tenho privilégios que fazem com que eu não sinta tanto essa desigualdade, o que não me faz diferente de nenhuma outra mulher, tanto é que fui vítima de violência doméstica. Sou muito grata por ter tido uma criação que não me colocou como inferior por ser mulher, mas não consigo estar feliz sabendo que tantas outras mulheres nesse país estão em situações difíceis, muito mais que a minha. Não podemos mais regredir, chegamos num ponto em que nossa única opção é avançar. Sete Lagoas é notoriamente uma cidade com muitos ideais machistas. A presença feminina na Câmara ainda é muito tímida. Temos que exigir políticas públicas, somos a maioria

VME: Como você vê a abordagem midiática sobre o seu caso e casos de violência doméstica em geral?

MS: É um fato que a violência contra as mulheres persiste sendo uma das mais graves e marcantes formas de violência no mundo atual, e a mídia tem sido muito importante na revelação da violência contra as mulheres, resultando em uma reflexão a ser feita por sujeitos sociais em relação a esse problema. Além de inibir um pouco a covardia dos agressores. O domínio exercido pelos meios de comunicação é tão grande que podem ter uma ação positiva e decisiva na discussão de um caso. Representar as situações de violência enquanto casos particulares e isolados reforça a ideia de patologia ou desvio e não de um problema social. A cobertura midiática é um dos principais fatores que influenciam na notoriedade dos casos. Não é normal trivializar uma violação dos direitos humanos, e a própria “Lei Maria da Penha”, reconhece a violência doméstica e familiar contra as mulheres como uma forma de violação dos direitos humanos. Portanto, não há como negar que a mídia é de grande importância para que os casos não fiquem debaixo dos panos e abafados de acordo com as conveniências. Em meu caso, percebo o lado positivo e o lado negativo da mídia. Existem meios de comunicação muito sérios e meios de comunicação tendenciosos, e ainda é importante ressaltar o caráter da pessoa que está por trás da condução dessas mídias. A oportunidade a mim oferecida, pelos meios de comunicação idôneos, foi a mesma oportunidade dada a meu agressor. Porém, infelizmente, algumas mídias permitiram que eu fosse difamada, sem me oferecer espaço para manifestação. Em uma cidade de interior, isso é muito sério e nada justo.

VME: A violência era comum na relação de vocês? Além da física, a violência moral e psicológica já haviam acontecido?

MS: A violência era comum sim, já que a violência abrange outras situações além da física. Hoje percebo que a situação era de um relacionamento abusivo, mas a ficha custou a cair. Eram comportamentos que me subjugavam, me diminuíam e detonavam minha autoestima. Quando eu dizia algo que ele não concordava, ele me chamava de desequilibrada, de louca… E fui percebendo que, na verdade, nunca fiz parte dos planos da vida dele, era um peixe fora d’água.  Casei com um homem e tenho apenas um filho. Se existiu o desejo de construir uma vida nova, com outra mulher, tinha a obrigação de saber conduzir esse espaço com firmeza,  pulso, seriedade e não permitir que o lar virasse uma colônia de férias. Um belo dia, fui comunicada que o objetivo real da relação comigo  era ter uma namorada vitrine. Existe coisa pior para uma mulher, do que ouvir esse tipo de coisa? Ou seja, entrei em um relacionamento em que o outro não tinha se resolvido emocionalmente e brincou com meus sentimentos. Daí vieram as ameaças de que eu ia morrer sozinha, que ninguém gostava da minha pessoa, que eu era louca, desequilibrada e muitas coisas mais. Eu era constantemente humilhada e ridicularizada, pelo fato de tomar um antidepressivo, e a utilização dessa medicação se fez necessária diante dos problemas existentes no relacionamento. Não gosto nem de lembrar. Vivi um verdadeiro inferno na terra.

VME: Depois das agressões, como ele se comportava e o que falava? E você, o que pensava após esses episódios?

MS: Ele ignorava, porque não admitia que o que fazia era violência. Se comportava de maneira fria e arrogante, mas ele dizia que a frieza era sua maior e melhor qualidade. Eu entrava em desespero, porque ele fazia questão de deixar claro que eu era a minoria naquela família, portanto vulnerável. e diante disso, nem preciso explicar muita coisa. Tudo que nós dois discutíamos, ele gravava e enviava para a família, tentando induzir a acreditarem no rótulo que ele criou de que eu era doida.

VME: Você se imaginava como uma mulher que poderia sofrer um caso de violência doméstica?

MS: Nunca! Jamais! É uma situação degradante. Há algum tempo, comecei sim a perceber um incômodo por parte dele, pelo fato de eu não ser uma mulher submissa, de não aceitar falta de organização em casa e não abaixar a cabeça pra ninguém. Mas não imaginava que chegaria a esse ponto. Antes de passar por essa situação, admito que já julguei muitas mulheres que viviam em relacionamentos abusivos e violentos e não saíam. Ficava me perguntando “por que não vai embora? Por que não denuncia?”. Hoje, passando pelo que eu passei, consigo ver toda a dificuldade que existe para denunciar e sair de um relacionamento abusivo. Polícia, processo, divórcio. É uma bomba de sentimentos que explode de uma vez.  Tudo muito difícil, doloroso.

VME: Muitas mulheres relatam a falta de apoio como um grande empecilho para denunciar casos de violência doméstica. Como você tem sido recebida pelos seus familiares e amigos?

MS: Fui abençoada pela quantidade de apoio recebido. De colegas que estudaram comigo quando éramos crianças, por todos os meus amigos e amigas, amigos de outros estados, por desconhecidos, por grupos que são contra a violência doméstica, por parte da cidade, por muitos homens que não admitem essa covardia, por ex-namorados, pelo pai do meu filho que não admite um homem levantar a mão para uma mulher e faz questão de transferir para nosso filho essa conduta, pela família dele, ex-cunhados e cunhadas, sobrinhas dele e principalmente o apoio da minha família, em peso. Todos estão tristes e revoltados. Minha mãe, que me acolheu carinhosamente, está de fazer pena… Gostaria de enfatizar especialmente o meu filho, que está sendo um companheirão, mas que infelizmente está sofrendo demais, está indignado, inclusive com as mentiras descabidas que estão divulgando, uma vez que ele conviveu e presenciou muitas coisas pelas quais passei e que estão sendo narradas de forma completamente mentirosa. E não posso jamais, deixar de citar o apoio, a atenção, o cuidado, a paciência, a responsabilidade e o profissionalismo da minha advogada Jaqueline da Silva Oliveira. Enfim, fui espancada no dia 12 de junho e até hoje não consegui responder todas as mensagens de afeto recebidas. Duas mil eu recebi em uma hora, logo após a denúncia. Hoje não sei mensurar. Gratidão enorme!

VME: Você encontrou alguma dificuldade em denunciar ou em falar sobre o assunto publicamente?

MS: No dia do acontecido eu ia chamar a polícia, mas fui coagida de todas as formas. Eu estava fragilizada, anestesiada, sem conseguir acreditar. Então desisti e fiquei quieta. Como eu estava muito machucada, não tinha como trabalhar na segunda-feira e me comuniquei com minha chefe. Disse que havia sofrido um pequeno acidente em casa e não estava bem. Ela desconfiou e ficou me ligando várias vezes perguntando o que havia realmente acontecido e como eu estava. Isso já na segunda. Eu passei sábado, domingo e segunda-feira fazendo compressas e passando pomada para melhorar logo, porque não queria que minha mãe e meu filho me vissem daquela maneira. Minha chefe, preocupada, ligou para minha irmã que mora no mesmo condomínio que eu morava, e junto a meu cunhado, foram até mim. Meu cunhado entrou e já foi me gritando. Eu tomei um susto, mas ele acendeu a luz do meu quarto e me viu toda desfigurada. Minha irmã, em choque, ficou parada, sem ação, chorando e olhando fixamente pra mim e meu cunhado tremia de raiva! Inclusive por eu não ter chamado eles no dia. Não admitiram meu silêncio, e eu acabei concordando em denunciar. Ele me levou à delegacia da mulher no outro dia cedo. A partir daí, minha ficha caiu e me encorajei. Nunca tive dificuldade de falar sobre o assunto. Fiquei ansiosa para fazer logo o exame de corpo de delito para cessar as especulações e julgamentos que foram incitados sobre a minha índole. O resultado foi comprobatório e a delegada o indiciou.

VME: Agora que você está se distanciando dessas situações de violência, como esta se sentido? Quais são seus planos para o futuro?

MS: Ainda não estou me distanciando, porque o processo ainda está rolando e minha imagem está sendo difamada de forma cruel e insana através das redes sociais, mas também tenho ao meu lado o apoio de pessoas sensatas. Normalmente eu vivo intensamente o presente, um dia de cada vez! Ainda não pensei em planos futuros. Apenas tenho a certeza absoluta que nunca mais na minha vida quero ver a cara da pessoa que me espancou e ninguém de seu convívio. Quero esquecer, apagar da minha memória que algum dia conheci aquelas pessoas. Quero esquecer que fui tão ingênua pra cair nessa cilada, nesse ambiente violento, de energia tão ruim, tóxico e regado a maledicências.

VME: Você tem algum recado para mulheres que também foram vítimas de violência doméstica?

MS: Não se calem nunca. Denunciem! Se possível na mesma hora. No mesmo momento. Não cometam o mesmo erro que eu cometi, única e exclusivamente por tentar preservar a minha família e aqueles que eu sei que me amam, para que não fossem julgados como tenho sido. E para que não haja tempo do agressor engendrar uma forma de se safar, buscando justificativas para o injustificável. Pense apenas em sua integridade física e moral. Pense de forma amorosa e cuidadosa em si, para não se submeter à covardia de um ordinário qualquer. Hoje podemos encontrar uma rede de apoio muito grande. Você não estará sozinha!

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Marina com seus pais e irmã. Crédito: arquivo pessoal.

*Entrevista produzida pelo Coletivo Varias Marias, de Sete Lagoas, que colabora com o Trem das Gerais com textos feministas.

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