ENTREVISTA: Martha Mousinho e os desafios da gestão cultural em Itabira

Martha Mousinho assumiu a superintendência da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade (FCCDA) há pouco mais de um mês. Tempo suficiente para que pudesse perceber o tamanho do desafio que é fazer gestão cultural em um município que tem em seus artistas uma das grandes forças locais.

Mais do que trabalhar o legado de seus filhos ilustres, como Carlos Drummond de Andrade e Newton Baiandeira – este último com trabalho bem tímido de preservação da sua obra –, é preciso criar mecanismos de incentivo para que os talentos locais encontrem o terreno necessário para criar e construir uma cidade ainda mais cultural.

Nessa entrevista, Martha Mousinho apresenta um pouco das suas ideias para a cultura local e começa a traçar as ações que darão o tom da sua gestão frente à FCCDA nos próximos quatro anos. Confira esse bate-papo:

Trem das Gerais: A senhora assumiu em 2017 a superintendência da FCCDA. Qual a sua avaliação desse aparato cultural de Itabira?

Martha Mousinho: Nós estamos a um mês à frente da FCCDA e ainda estamos fazendo um levantamento da situação, que está um pouco complicada porque os nossos espaços culturais estão bem sucateados – falta manutenção e, em alguns lugares, é necessária uma revisão estrutural. Para que possamos começar qualquer coisa é preciso que essa estrutura ofereça pelo menos o básico.

Hoje o que nos preocupa são a Casa de Drummond, a Biblioteca Pública, Memorial Carlos Drummond de Andrade, Fazenda do Pontal, o Museu do Ferro, que nós precisamos abrir, e o próprio teatro, que tem vazamentos de água no teto. Nós assumimos a FCCDA em um momento em que o município passa por dificuldades financeiras, então teremos que ter bastante criatividade para colocarmos esses espaços para funcionar.

Paralelamente a isso, existe um interesse muito grande nosso em manter algumas estruturas que já existem, como a Escola Livre de Música de Itabira (ELMI) – que pode ser uma escola de artes, mas, por enquanto, está sendo uma escola de música – e os corpos estáveis da FCCDA. A intenção é valorizar o que nós temos, aprofundar no conhecimento e trazer mais pessoas para ampliar esses trabalhos.

Nós sabemos que Itabira, assim como todas as cidades, passa por problemas na arrecadação. A Prefeitura de Itabira viu a sua arrecadação diminuir, então temos que aprender a viver com uma nova realidade. Mas eu tenho uma palavrinha que é o meu lema de trabalho, que é “encantar as pessoas”. Nesse sentido, o nosso interesse é, também, valorizar bandas, grupos, cantores e artistas de Itabira. Sabemos que esse pessoal está muito produtivo, criativo e não está esperando acontecer. Eles estão fazendo [cultura]do modo que entendem, desafiando mesmo as coisas já existentes e sabendo que a receptividade tem sido muito boa. Isso é bastante interessante.

Outra coisa interessante, é disseminar esses trabalhos. Levá-los para os bairros periféricos e para zona rural. Sabemos que temos muitos talentos e pessoas com aptidão que não tem espaço para colocar isso para fora. É com muita alegria que eu escuto que as pessoas estão tomando pé dessas coisas, tomando pé do seu próprio talento e estão juntando para fazer e mostrar coisas.

Isso pode servir de referência para várias pessoas, principalmente os jovens, que estão na fase de ebulição da criatividade, que podem tomar isso como referencial e passar a criar sem depender apenas do poder público. Nós, como gestores, queremos incentivar e apoiar, mas que não fique a nosso cargo o chamamento das pessoas, pois elas podem e sabem muito bem fazer.

Então é incentivar isso e acho muito importante que essa cena esteja com essas cabeças novas, com trabalhos autorais muito interessantes e sabemos que esse pessoal já tem o seu público, o que nos alegra bastante. A cidade precisa desse movimento cultural, dessa vivência, de as pessoas se sentirem empoderadas para criar e mostrar cultura.

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Martha Mousinho é a responsável pela gestão cultural em Itabira.

TG: A sua gestão ainda está no início, mas quais são os planos para a cultural itabirana?

MM: Acho prematuro afirmar coisas diferentes disso que eu já disse, que é a valorização da “prata da casa” e dos grupos [corpos estáveis]e da escola [Livre de Música de Itabira] que a FCCDA já mantém. Por enquanto é isso, mas estamos no momento de pensar, de fazer reuniões e ainda estamos recebendo os nossos colaboradores, ainda estamos no princípio do trabalho.

Mas, com certeza, nós vamos chamar uma coletiva, chamar a imprensa para falar de outras propostas e projetos, mas não queremos nos perder, então vamos cuidar da parte estrutural, do que já temos, valorizar e chamar a “prata da casa” para conversar e capacitar o pessoal da própria Fundação na obra de Drummond, para que conheçam e possam receber o turista muito bem.

Itabira tem um produto maravilhoso que é o poeta e sua obra e isso deve ser melhor divulgado. As pessoas vêm a Itabira e, às vezes, saem frustradas, pois temos os atrativos e os pontos de cultura, mas nem sempre tem a devida receptividade. Muito já foi feito e muito ainda precisa ser feito para que as pessoas possam vir e sair encantadas com Itabira. Nós temos os nossos valores – declamações dos Drummonzinhos, apresentações de grupos locais e da Orquestra de Câmara – e precisamos mostrá-los mais.

TG: Em relação ao calendário cultural, Itabira, hoje, possui dois grandes eventos: o Festival de Inverno e a Semana Drummondiana. Nos últimos anos outros eventos foram incorporados nesse calendário, como o Festival da Música e o Fórum Cultura da Juventude. Como vocês pretendem trabalhar esse calendário cultural da cidade e qual o recurso para realizar as atividades?

MM: Os recursos são muito pequenos. Nós queremos manter o calendário, mas isso vai exigir muito de nós aqui da Fundação, das pessoas que fazem parcerias com a gente e da imprensa. Tudo isso com muita criatividade. Nós não queremos perder esse calendário, mas, talvez, precisemos fazer algumas adaptações.

Além desses eventos que você falou que fazem parte do calendário cultural, em agosto nós temos os 30 anos da morte do poeta, que Drummond nos deixou. É, também, um momento em que queremos divulgar a poesia, a crônica e essa pessoa que falou de tudo – do mais cotidiano ao mais sublime e etéreo, do amor, da família e da natureza –, que amou a sua terra natal.

Até mesmo essa captação [na obra de Drummond]que queremos fazer é em cima disso. Itabira recebe muitas pessoas, muitas escolas, mas queremos abrir a nossa cidade para que mais visitantes cheguem até aqui.

O itabirano pode abraçar isso: colocar o nome de Drummond em um prato do cardápio; ou, por exemplo, nas pousadas e hotéis colocarem trechos de frases e poesias. Nós temos a Avenida Carlos Drummond de Andrade e algumas estátuas do poeta, mas não temos mais do que isso. Então estou aberta a sugestões e ideias para que possamos fazer a Avenida Carlos Drummond de Andrade se tornar Avenida Carlos Drummond de Andrade com a obra dele, que quem conhece, ama.

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