ENTREVISTA: Laz Muniz estreia como escritor com o lançamento de “O Lobo da Caverna”

Artista multifacetado, Laz Muniz transita por diversos setores da cultura. Nos palcos, ao lado dos itabiranos da Barba Blues, apresenta uma voz lamuriosa que ganha potência ao interpretar canções de blues. Mas foi nas artes visuais que encontrou o seu ofício preferido: nas pinceladas na tela ou no rabisco em papeis, se notabilizou como cartunista e ilustrador.

Por extensão, também se dedica ao ofício das palavras. Seja como um complemento às suas tirinhas ou histórias em quadrinhos, seja como mecanismo de observação do mundo, entregue em contos e crônicas – algumas delas, inclusive, publicadas aqui no Trem das Gerais, na coluna “Lírica Impetuosa”.

Essa pluralidade artística acabou por resultar no livro “O Lobo da Caverna”, que marca a estreia de Laz como escritor. A obra – que conta com ilustrações e diagramação do próprio autor – é um drama juvenil que propõe uma reflexão sobre o viver, as escolhas naturais de nossa própria condição humana e as consequências dessas nossas opções.

Publicado pela EIS Editora, “O Lobo da Caverna” foi lançado durante o Festival de Literatura Internacional de BH em setembro deste ano. Mas essa não deve ser a última aventura de Laz Muniz no mercado editorial. O Trem das Gerais conversou com o artista sobre a sua nova obra e seus projetos futuros. Confira!

Trem das Gerais: Do que se trata esse trabalho “O Lobo da Caverna”?

Laz Muniz: Trata-se da história de um jovem que trilha o caminho errado na vida, em direção ao fundo do poço. Mas, como a vida é feita de escolhas, por mais que ele tenha dezenas de pessoas ao seu redor, que gostem dele, ele prefere dar as costas para todos para se submeter a essa peripécia desastrosa.

Não há nomes na história. Esse jovem, seu amigo, sua família podem ser qualquer um. Pode ser o seu melhor amigo, como na história. Seu filho, seu pai, seu vizinho, um colega de trabalho e até você mesmo. Inclusive os outros personagens também podem.

A história é um drama tenso, com narração em primeira pessoa, contada por esse melhor amigo da personagem principal em questão e esse narrador vai nos envolvendo cada vez mais numa trama de erros, numa história cheia de estradas a se seguir, mas ele opta apenas pelo caminho errado, sempre, e, com isso, ele se sente culpado pelos erros desse amigo, pois é ele quem estava ao seu lado o tempo todo e, por fim, não pôde fazer nada para ajudá-lo.

É um livro envolvente e que muita gente vai se identificar. Pois o que acontece nessa história é praticamente o que acontece, já aconteceu ou está para acontecer na vida de muita gente. Acredito ser uma excelente peça de reflexão – apesar de ser literatura – para se ter em todos os lares, inclusive nas mãos da maioria dos jovens e pais. Inclusive, acima de tudo, é um excelente livro para se ter em escolas do ensino fundamental e médio, até mesmo para que professores trabalhem seu texto com os alunos e possa servir para abrir portas para um bom bate-papo sobre suas escolhas certas na vida.

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TG: Como foi o processo de criação e produção do livro?

LM: A história já estava escrita há alguns anos, como muitas outras que já tenho prontas. A apresentei para minha editora, Iriam Starling – que também é ilustradora na área científica –, da EIS Editora, e ela viu nessa obra exatamente esse grande boom para adentrar os lares familiares, já que a EIS Editora, apesar de apostar na literatura e no entretenimento de boa qualidade, também carrega consigo esse cunho social, humanitário, histórico e científico em suas publicações.

TG: Porque a escolha de um tema dramático para essa obra?

LM: Essas coisas a gente não escolhe, as histórias nos vêm na telha e as escrevemos. Não há escolha, há um momento para cada uma, com seu tema específico. O “Lobo da Caverna” é uma metáfora a situações cotidianas em forma de narrativa fantástica, até um certo momento do conto, quando tudo vem à tona e se cai na real, surpreendendo o leitor que esperava mais do que um só lobo, um lobisomem ou… cair por terra.

Já por ser dramático, é pelo fato de que se você pegar toda a minha obra literária já publicada pela web, duas em livros coletâneas, minhas crônicas e minhas histórias em quadrinhos – salvo as tiras de humor – o drama é algo que está em tudo o que produzo. Aliás, muita coisa do que faço retrata muita maldade humana e muitas vezes com humor negro, sarcástico, ácido e que incomoda muita gente. Como matar a tiros um cachorrinho em uma HQ na minha revista “Bacanal de Estrelas”, que deixou muitos leitores furiosos comigo e muito mais sensíveis. Talvez pelo estilo de vida, pelo alimento da trajetória das coisas ao meu redor, pelo próprio gosto, mesmo, e porque eu sei – melhor do que escrever terror, sci-fi ou romances – expressar melhor através do drama. E se tiver uma ficção fantástica no meio, melhor ainda.

TG: Esse é o primeiro livro escrito e ilustrado por você. Como foi essa experiência?

LM: Sim, apesar deu já ter publicado contos e crônicas em outros livros coletâneas – ao lado de escritores e ilustradores, dividindo as páginas, que eu bateria reverência – esse é o primeiro livro publicado inteiramente meu, desde o texto, as ilustrações, o projeto gráfico e a diagramação. A EIS Editora ficou a cargo da revisão – ao qual agradeço muito à Iriam por toques maravilhosos que me deu, para melhorar ainda mais a história – e a produção e distribuição.

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TG: O livro é dedicado à literatura juvenil. Porque a escolha desse público?

LM: Como ilustrador e com dezenas de títulos ilustrados, de todos esses apenas um é adulto e outro juvenil, além de um livro de poesias. Desde sempre, como ilustrador, trabalhei com literatura infantil. Um campo que sou maravilhado e praticamente meu objeto de desejo constante. Sonho ilustrar algum clássico, um dia, como Tom Sawyer, Pinóquio – obras que sou fascinado! –, dentre outros. Mas a qualidade da literatura brasileira infantil não tem limites e não sobra tempo pros clássicos.

Contudo, já nos quadrinhos sempre escrevi e trabalhei temáticas juvenis e adultas e, em minha estreia como escritor, acabei seguindo o mesmo caminho.

Escrever para as crianças é incrivelmente difícil. Apesar desse meu convívio com a literatura infantil, constantemente, ainda assim me sinto mais confortável escrevendo para os jovens e fazendo quadrinhos para eles, também. Ao contrário de minhas crônicas, que são sempre bem adultas. Tenho livros infantis escritos e, um dia, vou tirá-los da gaveta e jogar nas prateleiras, aguarde!

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TG: Como é produzir um trabalho voltado para os jovens?

LM: Eu tenho muita história para contar. Minha juventude foi conturbada de milhões de coisas e reviravoltas, dificuldades, erros e acertos, como a de todo jovem descobrindo o mundo. E muita coisa me marcou na juventude, apesar de eu não ser nem um pouco saudosista. Mas essas experiências ficaram como cartas na manga para excelentes histórias, tal qual como aquele aprendizado para o resto da vida, e passar isso adiante é, para mim, gratificante.

Gosto dos jovens, sua rebeldia, sua falta de senso para muita coisa, suas descobertas do mundo. Eles são a borboleta saindo da crisálida, momento de transformação total, muita energia, e isso me motiva fazer com que esses jovens absorvam mais um pouco do mundo na visão de quem um dia também já foi adolescente e aprontou muito, de tudo um pouco, e pode escrever e passar para as novas gerações o que tem para passar, com moral de quem viveu e sabedoria de quem absorveu, sem moralismos e didáticas, apenas de forma a entreter, mesmo em se tratando de um drama da vida real, como em “O Lobo da Caverna”, ou em fantasias extremamente distópicas, aventuras suburbanas ou fantásticas. Ainda vou matar muitos unicórnios e torcer os pés dos curupiras!

TG: A obra foi lançada durante a FLI BH. Como surgiu o convite para participar desse festival? Como foi o lançamento de “O Lobo da Caverna”?

LM: Sim, lançada no FLI, o Festival de Literatura Internacional de BH. Mas haverá outros lançamentos espalhados por aqui e em outras cidades, para que o livro chegue às mãos de mais leitores que não puderam comparecer ao Festival e que possam estar presentes, juntos comigo, e batermos um papo.

Não houve convite. Fui indicado por um amigo da produção do evento, que me pediram o material do livro, que passou pelo crivo de aprovação e, com isso, me incluíram na programação de lançamentos.

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TG: Como foi a experiência de lançar o seu primeiro livro dentro de um festival desses?

LM: Boa. Mas faltou um pouco mais de entusiasmo e divulgação por parte da produção do evento. Não havia somente eu no dia, lançando livros. Era um espaço com vários autores ao mesmo tempo. Muita novidade boa chegando. E lançamentos chamam público, alimentam o festival, traz pra dentro o seu consumidor e o prende ali. As pessoas vão para comprar seu livro e saem dali com outros títulos, de outros autores, de outras editoras.

Mas achei que não houve essa valorização, de certo modo. Não a valorização do autor, mas do momento em si, da estrutura. As mesas de cada um poderiam estar abarrotadas de gente se algo lá dentro do evento apontasse para nós e dissesse: ali, naquela arena, tem o Laz Muniz com o “Lobo da Caverna”! Mas apenas estávamos lá e quase ninguém sabia. Então já aproveito e deixo aqui a minha crítica para que esse momento importante para qualquer autor, o festival e o público leitor seja melhor visto e revisto para as próximas edições, pois o evento é maravilhoso!

TG: Onde o livro “O Lobo da Caverna” pode ser comprado?

LM: No momento as distribuições estão ainda em alguns pontos específicos em BH, mas você o compra facilmente pelo site da EISDia 21 de outubro estaremos no Faísca – Mercado Gráfico, no BDMG Cultural, em BH, com o stand da editora, e quem quiser comparecer e adquirir seu exemplar, estarei lá das 11h às 18h com “O Lobo da Caverna”. Aproveitem pra levar o livro com dedicatória e desenho!

TG: Quais são os seus próximos trabalhos?

LM: No momento estou ilustrando mais livros pela EIS. Sai ainda este mês o livro “A Tal da Turma 12”, que também estará lá no Faísca com a gente. Acabo de licenciar algumas tiras de quadrinhos do meu personagem Pancho para livros didáticos da Editora do Brasil, mais uma vez sairá uma nova “Mundo Estranho”, da Abril, com duas páginas minhas e estou trabalhando em uma HQ (que já vai começar este mês, virtualmente, pela plataforma Tapastic e com prévia na CCXP [Comic Con Xperience], que estou indo em dezembro para participar do Atist’s Alley), que se chama “Bolinhas de Gude”. Podem esperar aventura, magias, mundos estranhos e, claro, biroscas poderosas! Produzindo também a HQ “Sucubusrubudum”, que pretendo lançar no FIQ, o Festival Internacional de Quadrinhos, em maio do ano que vem. Toda produzida em aquarela, essa HQ muda – sem narrativa verbal – conta a história de um súcubo que por amor à sua vítima perde seu posto de encosto no inferno.

E vem aí, pela EIS Editora, o meu próximo livro, também escrito e ilustrado por mim, “A Máquina, o Maquinário e o Mecanismo”.

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.