Em “Savana”, Gus & Vic exploram a musicalidade em um set inventivo e diverso

Gus e Vic só poderiam ter se encontrado musicalmente em um karaokê, conforme resume a biografia do casal de artistas que lança o disco de estréia, “Savana”. São 12 músicas tão inventivas e diversificadas em gêneros e referências que não caberia como uma obra de um conjunto formado tradicionalmente, na linha de eu toco guitarra, você canta, ele toca baixo e ela, bateria.

Gus flertava com a carreira musical, com composições e algumas apresentações no currículo. Já Vic tinha a musicalidade como forma de encarar a vida desde que nasceu – tudo para ela tinha e tem um som. Até que em 2013 esse encontro aconteceu durante uma daquelas festinhas em karaokê, onde pode-se soltar as vozes sem vergonha.

Essa combustão explode cinco anos depois no registro de “Savana”, desde os primeiros segundos da primeira canção do trabalho. Junto à miríade de referências citadas no início deste texto.

“I Promise I Won’t Shoot” abre como um trip hop concebido na fronteira do Texas com México e se compusesse a trilha sonora de um western do Tarantino, faria bonito. Só que não satisfeitos com a receita, ainda adoçam com uma pegada funk dos anos 70 e arranjos vocais à “Jazz From Hell”, de Frank Zappa.

Eu sei, é muita informação. Só que tem mais.

“We Know” inicia como se fosse uma balada de violão, só que ganha camadas de arranjo climáticas, as duas vozes se entrelaçam em arranjos à Decemberists e esbarra tanto em pop quanto em rock no arremate.

Já “Another You” segue como pop oitentista, com guitarra limpa, como bem ensinou Nile Rodgers (Chic) na época e o protagonismo vocal é de Vic.

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Ela também dá o tom em “Follow the Sky”, junto a arranjos de metal e o clima Tex Mex da abertura do álbum. E olha que estamos no primeiro terço do disco.

“Noite” é uma das duas músicas em português, cantada por Vic em levada nova MPB meets indie rock. Na exata metade da canção, faz uma curva 180o  tal qual os Mutantes costumavam manobrar no final dos 60.

Gus assume a primeira voz em “Juliana Icons”, um indie rock que soa Magnetic Fields e depois converge para um hard rock e finaliza como rock’n’roll clássico dos anos 50.

Tem balada pop quase hip hop na voz de Vic (“Sixteen”), alt.country de violão e bateria que faz nova guinada em 180o trocando a faixa por uma new wave B52’s (“School”) e mistura de guitarra distorcida com efeitos eletrônicos no vocal de Gus (“Lonely Night”).

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Tempo para respiro, no interlúdio belíssimo com o instrumento Erhu com sampler de som de chuva e trem, em “Savana Fleur”, que foi tocado no GarageBand do iPhone em apenas 1 take “ao vivo”.

“Open Door” tem a voz de Vic em compressor, piano delicado, arranjo de cordas, de metais, bateria e confluência de sons à Sgt. Peppers/Pet Sounds, até arrematar no bandolim.

O disco fecha com “Aldebarã”, que seria a canção mais tradicional do repertório, um jazz/MPB no piano, cordas, baixo elétrico, até os últimos segundos mesclarem a composição nua, conforme foi concebida, no violão do pai de Vic, Fred Cosato, em registro lo-fi da fita demo original, gravada no começo dos anos 80.

Sei que é muita informação para se absorver, mas no pacote “Savana” o resultado da receita vem de forma tão palatável que se termina a audição naquela ideia de “preciso escutar de novo, pois devo ter deixado passar muita coisa boa”.

Só não poderia finalizar a apresentação sem contar a música que deu o primeiro passo da dupla até este disco de estreia: “I Want it That Way”, dos Backstreet Boys. Nada mais apropriado para Gus & Vic.

Confira o álbum “Savana”, de Gus & Vic:

Veja o clipe de “I Promise I Won’t Shoot”:

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