Em novo clipe, Doralyce pergunta: “De quem são as balas que mataram Marielle?”

A música “O Bicho”, gravada no Sofar Sounds Rio de Janeiro em 2018, faz uma forte crítica social, pede a desmilitarização da polícia e justiça para Marielle Franco

O Sofar Sound Latin America lança “O Bicho”, da cantora e compositora pernambucana Doralyce. O vídeo faz parte da sua participação no Sofar Sounds Rio de Janeiro, gravado em novembro de 2018. A letra tem uma forte crítica social, denunciando a violência institucional contra o povo preto, pedindo a desmilitarização da polícia e justiça para Marielle Franco.

“Hoje saiu o nome dos dois assassinos de Marielle e a gente quer saber quem mandou matar. A última vez que eu conversei com Mari foi no dia do seu assassinato, ela era uma pessoa presente na minha vida, era amiga de luta. A gente marchou no dia 8 de março juntas. É muito difícil chegar hoje e pensar que no dia 14 eu vou para a rua pedir justiça pelo assassinato de uma mulher que morreu defendendo os direitos humanos, por ser honesta, por lutar por uma sociedade melhor. Eu perdi uma amiga, uma companheira de luta, uma irmã no combate ao racismo, à LGBTFOBIA. Sinto saudade dela”, desabafa Doralyce. “Essa música está no repertório para que a gente não se esqueça dos nossos heróis e nossas heroínas. Marielle é mais do que uma pessoa, ela é as idéias que ela tinha, ela é tudo o que construiu, é uma fonte de inspiração para as mulheres pretas. Todas as mulheres pretas olham para ela como olham para Luísa Mahin, para Anastácia, para Dandara. Como uma heroína, como um símbolo de resistência, como uma mulher que lutou contra o racismo. Ela precisa ser lembrada”.

“Essa música está no repertório para pensarmos a desmilitarização não só como uma solução para a violência do Brasil. Porque a violência no Brasil não é só um problema de segurança pública, é um problema de abismos sociais. Esse é o problema real que resulta na série de mazelas que dão na violência. A segurança pública não vem para resolver isso porque matar pessoas não é a solução, não é como se lida com esses transtornos sociais”, analisa Doralyce. “A arte está aí para pautar a sociedade. Para falar sobre o que a imprensa não mostra via de regra. E a gente vai dar visibilidade para isso, para que os meios de comunicação também dêem atenção para isso”.

“O caso de Marielle é um fato social, uma partícula que precisa ser analisada com um microscópio para você entender todo o problema social do Brasil: de onde ele se enraíza, por que ele vem, por que essa sociedade se mantém assim. A gente fala de desmilitarização porque quem sustenta essa sociedade ser assim, quem silencia e mata manifestante é a polícia. Eles que fazem o controle do Estado, da sociedade, para a gente aceitar essa realidade social. Então é muito importante a gente falar sobre isso: Marielle morreu porque ela questionou a polícia. Eu não sei quantas mais de nós serão necessárias mortas para que as pessoas entendam que a polícia está nos matando. Que a polícia mata o povo preto desse país e não importa se é o preto favelado, se é o preto que mora no Complexo do Alemão ou se é a preta quinta vereadora mais votada do Rio de Janeiro. Foi preto, essa sociedade e esse sistema matam. São assassinos. As balas que mataram Marielle são da Polícia Federal. As pessoas que mataram Marielle eram policiais militares. A gente precisa entender essa instituição que a gente sustenta, que a gente fomenta”, finaliza.

Assista ao vídeo de “O Bicho”

https://www.youtube.com/watch?v=o80cDm95bdQ&feature=youtu.be

Sobre Doralyce

Doralyce é ativista, cantora, compositora e atriz. Feminista, é conhecida pelos hits “Miss Beleza Universal”, a versão feminista de “Mulheres” e “Para de Apontar o Dedo”. Tem suas canções interpretaras por Bia Ferreira, Gaby Amarantos, Larissa Luz e Preta Rara. Formada em direito pela UniNassau (PE), ainda é produtora cultural e professora de música.

A compositora traz as influências rítmicas advindas do sítio histórico de Olinda, representando a força feminina no Maracatu, Coco, Manguebeat, Samba, ijexá, frevo e Maculelê. Ao ir para o Rio de Janeiro, em 2014, seu trabalho se potencializou ao dialogar com a cena teatral carioca, através dos movimentos de ocupação e resistência cultural em que tem expressiva atuação. Neste mesmo ano, compôs sua primeira trilha sonora para espetáculo, que estreou no México em 2015, a peça “Cena Real. É tudo verdade”, da Gene Inasanno Companhia de Teatro, onde a cantora se descobriu atriz.

Em 2017, lançou seu primeiro disco, “Canto da Revolução”. Idealizadora do manifesto Afrolatino Dassalu e da produtora cultural Coletivo 22, a realizadora da Festa Ancestral e Terreiro da Preta; Arte Educadora com a Oficina de Composição Musical.

Em 2018, participou de importantes festivais brasileiros como Recbeat (Olinda), Vento (São Sebastião) e Pulso Redbull Music (São Paulo). Foi tema de doutorado Universidade Northwestern, em Chicago, como uma das principais expoentes do Afrofuturismo brasileiro. Em fevereiro de 2019, participou da tour de Bia Ferreira na Europa. Agora se prepara para lançar “Pílula Livre”, seu segundo álbum, ainda no primeiro semestre.

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