Da MPB ao rap: a versatilidade das novas vozes femininas

Que o Brasil tem grandes compositoras, intérpretes e instrumentistas, não é nenhuma novidade. O que nomes como Clementina de Jesus, Dalva de Oliveira e Dolores Duran ajudaram a sedimentar é agora um mercado vibrante, do comercial ao nicho.

O debate em torno de questões de gênero, raça, sexualidade e a representação e reconhecimento de minorias ajudam a trazer à tona uma outra gama de artistas antes negligenciados. E as mulheres, que sempre fizeram parte da história musical do Brasil, voltam a conquistar protagonismo com uma nova geração de artistas.

Elas são do rap, do instrumental, do reggae, do rock, da MPB. De cima do palco e de trás das cortinas, ganhando espaço na mesa de som, na iluminação, na produção dos estúdios, seja na cena independente ou nas grandes corporações. Em comum, essas profissionais têm o espírito do faça-você-mesmo. No Rio de Janeiro, uma cena feminina e feminista ganha espaço com coletivos, debates, shows conjuntos. No selo Porangareté, fundado com base no legado de Cássia Eller, vozes femininas estão entre os carros-chefe do trabalho.

Uma delas é Daíra, jovem cantora que lançou seu novo álbum, “Amar e Mudar as Coisas”, com  releituras de canções de Belchior. Criada a muita Elis, Gal e Bethânia, ela hoje coleciona também outros nomes que lhe chamam atenção: as amigas Júlia Vargas, Duda Brack e Juliana Linhares, da banda Pietá – todas suas colegas de selo. E aproveita para citar as parceiras representantes de um novo cenário musical: Natasha Llerena, Andreia Mota, Amanda Chaves, Luiza Sales, Ana Frango Elétrico, Luiza Brina e Amanda Lebeis, atriz e sua parceira de performances na rua. É uma irmandade nada forçada, formada em plena sintonia musical.

“Acho necessário num primeiro momento, o destaque para o ‘feminino’. As mulheres precisam sim da oportunidade e do destaque, para compensar uma história de séculos de submissão e de machismo. E por outro lado, esse jogo está começando a virar. Mas na minha visão tudo isso passa pelo ‘empoderamento’ e quanto mais a mulher se impõe e faz o que gosta, sem medo, mais ela fica livre dessa distinção de gênero. Exceto entre cantores, que é um meio onde é até mais ‘permitido’ e favorável à voz feminina, compositoras e instrumentistas existem em menor número por aí, nos meios de música popular… e por que? Devemos cada vez mais nos questionar, e tocar e compor e também, indicar uma mina. Em todas instâncias, indique uma mulher, e quem sabe um dia essa conta vira”, reflete Daíra.

Sarah Abdala também faz parte dessa nova geração de intérpretes com base no RJ. Seu álbum “Oeste” foi lançado recentemente pelo selo RockIt!, comandado por Dado Villa-Lobos (Legião Urbana). Já o novo clipe, “Cavalgada”, foi uma produção encabeçada pela própria Sarah, por meio de sua empresa Pomar. A iniciativa oferece produção de conteúdo, produção executiva e realização de vídeos, em sociedade com a publicitária Tai Fonseca. Além de trabalharem lado a lado com vários artistas, promovendo shows e lançamentos inclusive de outras regiões do país – como a cantora revelação Laura Petit, de Curitiba -, as empreendedoras movimentam a cena formando parcerias e realizando eventos que reúnem artistas do mesmo universo.

“Vemos que as mulheres estão ocupando cada vez mais espaço. Já encontramos mais instrumentistas, produtoras, compositoras, engenheiras de som, etc… Mas ainda vejo que não há uma igualdade (nem de respeito, muito menos salarial) entre homens e mulheres que ocupam a mesma função, até mesmo dentro da indústria da música, que muitas vezes é vista como algo mais aberta, liberal, progressista…  mas que tem uma cultura machista enraizada, mesmo que seja negado por muitos. A mulher sempre tem de lidar com um olhar desconfiado, principalmente se exerce uma função que antes era exclusiva para os homens. Estamos, ainda, na busca do protagonismo completo! Sem ter que lidar com desconfiança, piadinhas e prepotência masculina”, explica Sarah, cujo trabalho autoral reflete inspirações na música brasileira com uma verve alternativa, guiado pela guitarra em canções intimistas.

A cantora goiana radicada no Rio traz a mesma ideia de união para sua reflexão a respeito do lugar que a mulher ocupa hoje no mercado de música. “Precisamos unir pautas. E se para isso é necessário, nesse primeiro momento, categorizar o que fazemos para saber que também fazemos o que os homens fazem, acho válido para a luta.  Eu acho que a desvantagem é quando essa setorização vira marketing. Tenho visto muita gente surfar nessa onda de GRL POWER com um discurso incoerente e vazio. E acho isso perigoso! As produções de mulheres, em todas as áreas, deve ser debatidas, mostradas, incentivadas, até a gente chegar no protagonismo completo!  E vamos chegar lá com um debate coerente, produtivo e informativo, que não vai precisar de categorização nenhuma”, reflete Sarah Abdala.

Ainda no RJ, se destacam trabalhos lançados por novos selos. É o caso do duo Gus & Vic, formado pelo casal Gustavo Scanferla e Victoria Cosato, que lança ainda este ano seu álbum após quatro singles bem sucedidos nas plataformas de streaming graças às suas inspirações pop, folk e indie. E da cantora BEL, cujo primeiro álbum solo, “Quando Brinca”, foi lançado pela Sagitta Records e levou a artista a uma tour pela Argentina e Uruguai.

Para BEL, cuja atuação na música também é conhecida por sua trajetória no grupo Xanaxou, formado apenas por cantoras e instrumentistas, e no seu trabalho anterior, a banda Mohandas, trata-se de uma questão de perspectiva, de um novo olhar sobre os espaços e reconhecimento das mulheres.

“Acredito que o que vimos foi uma conscientização de algumas realidades do meio musical que pareciam naturais e não são. Sempre existiram muitas mulheres fazendo música, a pergunta que passou a surgir foi ‘porque não as conhecemos?’. Por qual motivo elas não chegam aos ouvidos e aos palcos tanto quanto os homens? Essa questão traz reflexões muito importantes sobre as formas de se produzir cultura, sobre identificação e representatividade. Me parece que encontramos um ponto de partida, um disparador para as muitas transformações que ainda temos que implementar nesses contextos”, reflete.

“Ainda falta muito porque, para mim, não basta criar um palco para as mulheres num festival cujo line-up tem 400 homens, ou uma noite onde só toca transgênero em meio a um calendário anual totalmente dominado por homens héteros cis. Não basta continuar alimentando os processos da mesma maneira, tem que se deixar atravessar, tirar da gaveta”, analisa BEL.

Seguindo em paralelo por caminhos alternativos, mas no cenário do indie pop, Victoria Cosato, do duo Gus & Vic, também vê no panorama atual um momento de transição, e não o fim da luta por mais espaço. “Acredito que qualquer início de debate é válido. Quando trazemos a mulher para o centro dessa discussão, muitas pessoas que não refletiram sobre isso vêm para dentro da roda. Devemos sempre pensar que a discussão de gênero não é algo natural, para a maioria das pessoas. Toda e qualquer oportunidade de expor estes pensamentos e posições é mais do que válida, em minha opinião. Estamos em um momento de transição, um momento de pareamento de gêneros, então há de existir um maior esforço de divulgação desse fluxo”, explica a artista.

A efervescência de novos trabalhos de destaque e a dificuldade em superar as diferenças não é exclusividade da cena carioca. Em Brasília, a cantora, compositora e violonista Raquel Reis tem uma vivência similar, com público, grana e reconhecimento menores, se comparados aos resultados dos artistas masculinos. Porém, Raquel destaca que não são poucas as conquistas quando o assunto são projetos liderados por mulheres. Inspirada inicialmente por Cássia, Marisa e Elis, hoje seu trabalho reflete influências mais modernas da MPB e do rock alternativo, como Ventre (da baterista Larissa Conforto). Tulipa Ruiz e Pitty. Outras artistas que admira incluem Cris e Emmily, do Far From Alaska; Natália e Vitória, do Plutão Já Foi Planeta; Mahmundi; Anavitória; Bruna Mendez; e Juliana Strassacapa, do Francisco El Hombre.

No interior também já dá pra sentir a mudança. Aglaia, vocalista da banda Netvno, tem base em Araraquara/SP e residência temporária no Canadá, e destaca a atuação de mulheres em posições anteriormente dominadas por profissionais do sexo masculino.

“Como cantoras, as mulheres fazem parte desse mercado há um pouco mais de tempo, com grandes intérpretes como Clara Nunes, Maysa, Nara Leão, Elis Regina, Astrud Gilberto e muitas outras muito populares. Pra mim, o mais legal é ver as mulheres ocupando espaços que antes eram ocupados quase que somente por homens, tomando a frente nas composições e como instrumentistas. Eu acho que esse é um passo importante pra que mais mulheres sejam estimuladas a entrar nesse mercado e que deixe de ser uma surpresa (uma surpresa boa, mas ainda assim uma surpresa) ver uma banda inteira de instrumentistas mulheres, por exemplo”, analisa ela, fã de Ekena, Céu, Luisa Maita, Juçara Marçal (Metá Metá), Gisele de Santi e Rebeca Sauwen (Gragoatá), nomes que ganharam notoriedade nos últimos anos.

Já na cena rap, o trio Abronca desponta cheio de atitude. May, Jay e Slick ficaram conhecidas internacionalmente como Pearls Negras e agora lançam seu novo trabalho no single “Chegando de assalto”, com uma letra sobre força, respeito e protagonismo.

“O papel da mulher no rap é mostrar que temos muita força e coragem pra conseguir o que queremos. Estamos conquistando nosso espaço sem depender de homem nenhum, e isso é incrível”, reflete Jay. “Nem todos os homens são machistas, mas alguns sim, que acham que as minas não têm o mesmo poder que eles no rap. Eles acham que sempre vão estar à nossa frente, só que não! Está vindo um movimento pesado feminino calando a boca de muitos que ainda pensam dessa maneira”, comenta Slick.

Em Minas Gerais, a força da voz feminina também vem se destacando e ganhando força no cenário independente. Nomes como Maíra Baldaia, Sol Bueno, Clara Lima, Júlia Rocha, entre outras musicistas, mostram a diversidade e qualidade da produção artística mineira, que se caracteriza por letras reflexivas e cunhada nas discussões sociais.

“‘Insubmissa’ apresenta a junção de tudo que acredito, fala de liberdade, fala da força da mulher, sobretudo da mulher negra, da diversidade, da quebra de padrões, traz uma discussão política e social de forma poética e carregada de referências fortes. É a voz feminina que ecoa insubmissa!”, reflete Maíra Baldaia a partir de uma das canções de seu disco de estreia, “POENTE e Outras Paisagens”.

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