Carnaval de BH: tem itabirano na folia

Belo Horizonte, em 2018, recebeu o título de segundo melhor carnaval do Brasil. Muita gente ainda se assusta com isso, afinal de contas não espalharam por aí que mineiro tem a fama de comer quieto? O que pouca gente sabe é que o carnaval de rua é uma tradição mineira muito forte! Afinal de contas, entre montanhas, os tambores sempre ressoaram muito alto.

A capital mineira conseguiu resgatar uma tradição que começou em 1947, com o primeiro bloco de rua da cidade, o Leão da Lagoinha. E pasmem, ele é ativo até hoje! Mas, a primeira vez que BH viu as multidões ganharem as ruas na folia momesca foi em 1975, quando o pré-carnaval da cidade ganhou a alegria e as cores da Banda Mole e seus trios elétricos.

Mas durante muitos anos, Belo Horizonte deixou de ser um destino badalado de carnaval. Ele voltou a figurar entre as festas mais procuradas do país quando a necessidade de pertencimento do mineiro falou mais alto. Movimentos culturais e artistas locais começaram a se reunir em prol ocupar os lugares públicos e ressignificar a cidade. Assim, de 2010 para cá, ano a ano, a folia belorizontina foi crescendo, ganhando nomes importantes, dominando a cidade, vendo surgirem mais e mais blocos e conquistando o coração dos apaixonados pelo carnaval.

Bloco Corte Devassa - Carnaval BH 2018 - Foto: Nereu Jr/UOL
Bloco Corte Devassa – Carnaval BH 2018 – Foto: Nereu Jr/UOL

Em 2018, cerca de 4 milhões de pessoas curtiram a festa em mais de 400 blocos de rua. Em 2019, são aguardados 5 milhões de foliões! Os blocos de rua também aumentaram, esse anos serão mais de 550! O que pouca gente sabe é que entre tantas pessoas que abraçaram a festa na capital mineira, há muitos itabiranos. Eles viram o carnaval de Belo Horizonte se transformar em uma referência de resistência cultural e que fazem parte desse movimento. O Trem das Gerais conversou com dois deles! Vem conferir!

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Do batuque para as pick-up’s

Vini Brown tem 31 anos. DJ, ator e apresentador, esse itabirano conta que suas lembranças de carnaval mais antigas vem da infância, quando ia pular o carnaval de Itabira na Pracinha São Tomé, no bairro Caminho Novo. “Lembro com carinho da Banda Cor, dos Bailes do Atlético e os shows que aconteciam pertinho da minha casa, na Avenida Osório Sampaio. Desde sempre fui muito tomado pelo ritmo do samba, axé e pagode que ecoavam pelo carnaval itabirano”, recorda.

Vini também tem uma lembrança muito viva de quando o carnaval de Belo Horizonte começou sua caminhada de retomar as ruas. “Foi bem no comecinho, em 2013. Eu já estava morando em Belo Horizonte e lembro da gente desfilando no Bloco Baianas Ozadas, que hoje se tornou um dos maiores de BH. No começo empurrávamos o carinho de som em uma bicicleta e o público era bem menor”.

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Vini via ali um carnaval alegre, com pessoas engajadas não só na folia, mas sim com o intuito de fazer daquele momento um ato político e de resistência. “A gente saia pra rua na raça e protestando contra as atrocidades do Governo. Lembro que a história começou ainda nos movimentos Praia da Estação, Fora Lacerda e Pula Catraca. Era a forma que encontrávamos de nos manifestar sem perder o brilho que era a festa de carnaval”, detalha.

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Para Vini, esse embrião germinou forte. O DJ vê o carnaval para além da festa. “Para a economia da cidade é muito importante já que recebemos milhões de turistas todo ano. Mas vai além! Os talentos da nossa cidade, como cantores, artistas, produtores, DJs e músicos, tem a oportunidade de mostrar o seu trabalho para pessoas do país inteiro. O que, sem sombra de dúvidas, ajuda no fortalecimento da arte mineira. Conheço pessoas talentosas que não vivem de música, mas estão tendo a oportunidade de colocar seu talento nas ruas com o carnaval. Isso é maravilhoso para nós que vivemos de arte”, reflete.

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Sobre sua relação com o carnaval, Vini é enfático: “Minha carne é de carnaval e eu amo essa época do ano. É um momento lindo, onde as pessoas ficam mais felizes, as ruas ficam coloridas, temos a oportunidade de ser quem quiser sem sermos jugulados. Pode namorar, beijar na boca, dançar, cantar e esquecer um pouquinho da tristezas cotidianas”.

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Mas além de viver seus dias de carnaval com alegria, ele é um protagonista do movimento carnavalesco mineiro. Com uma carreira artística em apresentações de festas como DJ consolidada, a procura pelo seu trabalho é enorme. “Esse ano irei discotecar de manhã, de tarde, a noite e de madrugada! Infelizmente, não vai me sobrar tempo para me comprometer a desfilar em algum bloco. O que nunca me impediu de acompanhar e ficar torcendo pelo trabalho de todos”, explica.

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Sobre os primeiros passos de Itabira no busca por revitalizar seu carnaval, Vini conta que ainda não teve a oportunidade de ver de perto. Mas, graças às redes sociais, vem acompanhando de longe e saudando a iniciativa. “Itabira é uma cidade que sempre respirou arte e cultura, de uns tempos pra cá vejo isso se perdendo. É necessário voltar a colorir a cidade com a alegria do carnaval”. Ele acredita que o movimento irá se fortalecer ainda mais e integrar um circuito de cidades próximas à capital que serão ótimas opções pra quem quer cair na folia em uma escala de público menor.

O artista torce, ainda, por um intercâmbio cultural. “Eu fico vibrando pelo sucesso de Itabira e gostaria muito de poder contribuir com o carnaval da minha cidade natal. A gente sabe que não é fácil fazer nada sozinho, então que essas trocas e essa união aconteçam e que seja bom para todo mundo. Lembrando que Carnaval é uma época linda, mas que não devemos esquecer nunca que é um momento de resistência, um ato político”, conclui.

Brilhos, paetê, fantasias e paixão

Assim como Vini Brown, a psicóloga itabirana Raissa Bettinelli Nogueira, 30 anos, tem o sangue do carnaval correndo nas veias. Ela lembra de uma infância colorida, em que os pais sempre a levavam para as festas de carnaval em clubes de Itabira.

Mas foi em 2014, quando o carnaval de BH começava a engrenar, que ela se envolveu na folia momesca. “Já existia um movimento grande, mas ainda não tinha tomado as proporções que hoje sabemos que ele tem. Quando eu cheguei, o movimento já existia e tinha muita gente nessa luta. Mas essa construção é diária, então acredito que quem chegou no início ou quem vai sair pela primeira vez esse ano, tem muito o que contribuir”, reforça.

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Raissa explica que já vivenciou todo tudo de situação durante seus anos de carnaval. “Já presenciei um bloco inteiro parar em frente à varanda de uma senhora de 80 anos, tocar a música “Carinhoso” pra ela e ver todo mundo se emocionando junto com ela. Mas também já estive em blocos onde a polícia dispersou a bateria com bomba de gás lacrimogêneo. Como a gente costuma dizer aqui, nosso carnaval é de rua mas também é de luta”.

Essa busca pela resistência cultural, apesar de nem sempre ser fácil, tem seus bônus. “Posso dizer que o que eu vi foram pessoas maravilhosas, que sempre se dispuseram a estar ali, sem ganhar nada por isso, fazendo a festa acontecer, sem perder o caráter político e ao mesmo tempo sem perder a leveza e alegria do carnaval”, comemora.

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Raissa destaca que já é possível colher alguns dos louros desse luta. “O carnaval de BH se tornar, hoje, um dos maiores do país fortalece muito a cena cultural daqui. Podemos citar as várias bandas que surgiram dos próprios blocos, como “Então Brilha”, “Havayanas Usadas”, “Garotas Solteiras”, “Juventude Bronzeada”, dentre muitas outras. Isso aumentou a cena autoral, trouxe visibilidade pra todo esse movimento e, consequentemente, fortaleceu a arte mineira”.

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E Raissa não é apenas uma entusiasta do movimento. É uma participante ativa! Ela começou a tocar no carnaval em 2015 e nunca mais largou essa paixão. Suas primeiras experiências foram na bateria dos blocos Juventude Bronzeada e Tchanzinho Zona Norte. “Me identifiquei com as questões levantadas pelo movimento e por me sentir acolhida. A partir daí foi só aumentando o número de blocos em que eu compunha a bateria. Em 2017, toquei em 16 blocos durante o pré carnaval e o carnaval”, relembra.

E não para por aí, a psicóloga participou da fundação do bloco “Clandestinas”. “É um bloco feminista da Casa de Referência da Mulher Tina Martins. Fizemos oficinas de musicalização e nossa bateria era composta pelas próprias abrigadas da casa”, conta.

O carnaval trouxe outra coisa importante para Raissa, descobrir um tino empresarial. Ela é sócia de uma das maiores lojas de acessórios, fantasias e decorações de carnaval de BH. “A loja foi o amor que virou negócio. Eu fazia e vendia agbe (instrumento musical de percussão) e outras amigas também produziam coisas ligadas carnaval. Em novembro de 2017 resolvemos nos juntar e montar uma loja, já que trabalhávamos apenas com vendas online”.

WhatsApp Image 2019-02-20 at 15.22.06Sócias Estação Carnaval – da esquerda pra Direita: Paula Silva, Nathalia Vieira, Flávia Ruas, Raissa Bettinelli, Gabriela Ruas

Assim surgiu a “Estação Carnaval”. Que era composta por três marcas residentes (D’oya Agbe, Viva Bossa e A Glitterista) e parceria com outras marcas. “Apelidamos a loja de “central do Fervo” pois ali a pessoa encontraria tudo que precisava pra cair na folia, como instrumentos, roupas, acessórios, glitter. O sucesso foi tão grande que a loja, que seria apenas temporária, continuou aberta durante 2018 inteiro. Esse ano, abrimos nossa primeira filial, no Shopping Partage, em Betim”, comemora.

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Assim, Raissa passou a viver o carnaval o ano inteiro. “É uma loucura dar conta de loja, produção, ensaio de bloco, carnaval. Pela demanda da loja, não consigo ir mais em tantos blocos e ensaios. Mas tem aqueles blocos do coração que não abro mão e vou organizando o tempo para estar presente. Apesar de todas as críticas que tenho, principalmente em relação à forma como o poder público trata esse movimento, eu sou apaixonada pela festa, pela alegria e todo brilho que envolve”, explica.

Para ela, é maravilhoso assistir aos itabiranos se engajando nesse movimento de resistência. “Itabira já teve um dos carnavais mais expressivos da região e já era hora de retomar esse movimento. Meu carnaval é de rua, então pra mim tem que surgir 10 novos blocos de rua por ano. A rua é nossa, a gente tem que ocupar esse espaço. Acredito que Itabira só tenha coisas boas pra colher desse movimento”, se diverte.

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Raissa enxerga BH como uma referência forte para essa retomada do carnaval itabirano. “A capital não tinha mais um carnaval expressivo e foi construindo uma nova história. Vejo a ocupação do espaço público, os blocos de rua e o ressurgimento do carnaval como uma forma de resistência, um posicionamento político e cultural e na importância do pertencimento. Acho extremamente válida e importante a nossa troca de experiências, ensinar e aprender. Se a gente fala tanto que o carnaval é um movimento inclusivo, porque não ser, realmente?”, encerra

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Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras