Café, Internet, criatividade e mais café: um bate-papo com Thalita Lefèr, do (a) Amarelo Criativo

Eis a rotina de um designer: um camarada que pede a criação de uma peça criativa e exclusiva a troco de pão, afinal o sobrinho do meu vizinho sabe mexer no Photoshop e faz baratinho; e tem aquele cliente que afirma que o trabalho está muito bom, mas quer outras duas versões para avaliar melhor; sem contar aquela pessoa que senta ao seu lado para dar “pitacos” no que está criando; ou, ainda, os pedidos constantes de mudanças para, no final, voltar à primeira versão. E isso para ficar em alguns poucos exemplos das situações que um designer precisa lidar no seu dia a dia.

Esses desafios existem em qualquer profissão, mas, quando se trata de uma área como o design, que ainda conta com pouco conhecimento – e reconhecimento – do grande público, é preciso bastante jogo de cintura para quebrar os vícios de mercado, se estabelecer e valorizar o trabalho. E tudo isso fica mais fácil quando se encara as situações cotidianas da profissão com bom humor e ainda leva essa graça e leveza para os colegas de profissão.

As situações rotineiras, as relações com os clientes, os desafios profissionais, as discussões sobre o design e designer e o compartilhamento de experiências, materiais e notícias fazem parte do trabalho do (a) Amarelo Criativo, um canal de comunicação voltado para os profissionais de criação. O Trem das Gerais bateu um papo com a mente por trás dessa iniciativa: Thalita Lefèr. Confira, abaixo, a íntegra dessa entrevista:

4Trem das Gerais: Como surgiu a ideia de criar o (a) Amarelo Criativo?
Thalita Lefèr: A ideia de criar o canal veio quando eu não tinha dinheiro pra pagar um psicólogo. Brinks. Porém, verdade. Estava muito ansiosa e angustiada com as dificuldades da profissão e, sempre em conversa de bares com amigos, a gente compartilhava os mesmos problemas, as mesmas alterações, as mesmas faltas de salário etc. Em um belo dia eu estava naquele processo de não saber se está dormindo ou se ainda está acordado e me veio na cabeça fazer um vídeo pra brigar muito (naquela época, com 23 anos, eu brigava mais, hoje eu continuo brigando, mas brigo mais mentalmente). No dia seguinte fiz o piloto do “Diário dum Designer” e as coisas foram acontecendo. Naquela época, sempre quis trabalhar por conta própria e acabei criando o Amarelo Criativo, que seria o nome do estúdio de design e acabou virando o canal de conteúdo de design. Posso falar que amei isso ter acontecido naturalmente. Hoje o canal continua crescendo por conta própria, sinto que o (a) Amarelo não é somente feito pela Thalita e para as pessoas. Sinto que as pessoas fazem conteúdo para as pessoas. O canal tem vida própria e isso é que me deixa mais feliz.

TG: O foco de vocês é o design e aquilo que está em torno disso. Porque a escolha desse tema? Sentiu uma necessidade de abordar essas discussões?
TL: Sabe aquele filme “Precisamos falar sobre Kevin”? Eu acho que é a mesma coisa com o design e o designer. A gente não pode reclamar de ganhar pouco porque é errado. A gente não pode reclamar de gente doida que quer a cor do projeto baseado no feng chui da pessoa e que não tem absolutamente contexto nenhum com o objetivo do projeto porque é errado. A gente não pode falar que ganha pouco e que o trabalho é abusivo porque é errado. A gente tem que fazer hora extra e ganhar em troca disso seu trabalho exposto por dois meses em uma revista que, sinceramente, às vezes não faz diferença nenhuma na sua vida profissional porque é errado. A gente precisa e pode falar dessas coisas, sim! Precisamos comentar (sem brigar) que isso é errado e é abusivo. Que nosso trabalho não é simplesmente sentar na cadeira e apertar um botão que tudo acontece, justamente porque a gente passa dois, três, quatro, cinco ou seis anos estudando cores, semiótica, estética, legislação e ética pra chegar no mercado e tudo tá uma bagunça. A gente faz o conteúdo pra informar os clientes, para divertir os designers e para também mostrar pra essa nova geração de consumidores e designers que as coisas não são tão simples como parece. E fico feliz em saber que a gente consegue atingir um público legal. Recebi um e-mail esses dias de um jovem padawan de 15 anos de idade querendo dicas de livros, tutoriais e o que ele poderia fazer pra se tornar um bom designer. Lógico que a gente não tem a resposta disso, mas a gente sabe que tudo começa pelo estudo. Fico feliz em contribuir pro mundo “mimimi”, de alguma forma.

TG: O sarcasmo aparece como um dos itens da descrição do (a) Amarelo Criativo. Também faz parte das postagens de vocês. Porque o sarcasmo se tornou essa peça importante do trabalho?
TL: Você nos acha sarcásticos?! Que isso… chocada… Eu acho que o sarcasmo é aquilo que você pensa toda hora, mas às vezes não tem coragem de falar e aí solta uma piadinha e óh!, é brincadeira, só que não, só que é, só que pode não ser, no céu tem pão?! A partir disso eu acho que o sucesso das tirinhas e dos vídeos vem do fato da gente dizer e expressar algumas coisas que as pessoas querem falar ou fazer, mas não fazem. Acho que o sarcasmo é uma ótima qualidade do ser humano. Sabendo usar para o lado da luz todo mundo ganha.

TG: O (a) Amarelo Criativo reúne site, fan page no Facebook e canal do Youtube. Também estão no Google+, Instagram e Twitter. Onde conseguem tanta criatividade e inspiração para alimentar todos esses canais de comunicação?
TL: Faço essa pergunta todos os santos dias. Eu vejo que uma coisa acaba puxando a outra naturalmente. Quando estou escrevendo o roteiro acabo tendo uma ideia pra tirinha que acaba puxando a ideia de outro roteiro, que puxa a ideia de um gif, um comentário, uma frase, um projeto novo.

Tenho uma coisa muito curiosa também: vejo meu cérebro trabalhando por andares, cada andar toma conta de uma determinada função. Então, enquanto eu estou no setor de tirinhas, o setor de roteiro não para de trabalhar. Ansiedade? Oi? Alô? Tudo bem querida?!

Eu e a Paula [Andrade], jornalista que faz parte do (a) Amarelo, temos uma sintonia de trabalho e de vida muito boa, o que faz com que o trabalho seja fluido em todos os conteúdos no (a) Amarelo.

TG: Qual a importância do café para a rotina do (a) Amarelo Criativo?1
TL: Pra responder essa entrevista eu já estou na minha segunda xícara e posso dizer que estou quase quicando pela sala. Confesso que não sou uma pessoa que curte muito as manhãs. Acordar é um processo doloroso e eu sou dessas que realmente acorda só depois da primeira xicara de café. O café aqui pra gente não é só clichê de designer, mas é o elixir dos deuses, é o manto sagrado, é o fruto da árvore da vida, é o sabre de luz do Luke, é a força! Gente, café é vida. Eu já falei que tomei duas xicaras de café antes de responder essa entrevista?

TG: Como vocês definem os temas que irão abordar nos seus canais de comunicação?
TL: Eu escutei uma vez do Flávio [Augusto da Silva], do Geração de Valores, que a gente tem sempre que estar ligado na onda pra pegar carona e surfar na onda certa. Eu acho que comunicação, independente da área que for, se resume muito nessa onda. Sabemos que a onda muda sempre e que a onda vem sempre com M U I T O “mimimi”, e é a partir dai que criamos o nosso conteúdo. A pergunta sempre é: como podemos fazer o “mimimi” ser divertido e informativo? Às vezes dá certo, às vezes não dá. O lado bom, também como comentei no começo, é que nosso canal tem vida própria, e muito conteúdo é solicitado pelos próprios “amarelocas” que acompanham o canal. A série “Eu Freelancer”, o vídeo de games, entre outros, são todas solicitações do pessoal. Gente, continuem fazendo isso!

TG: Hoje vocês tem um trabalho bastante ligado à Internet. Como é atuar dentro desse universo online?
TL: A Internet é bipolar, ela não é uma faca de dois gumes, é uma espada do samurai mais cruel de todos os tempos, afiada em 80 mil gumes pelo menos. Você pode ser a pessoa mais legal de todos os tempos, mas, se no dia seguinte você falar U M A merda, você é crucificado e taxado de alguma coisa. Você tem o direito de expressar sua opinião, mas se alguém não concordar com sua opinião, você é errado (hahahahahaha), é engraçado. Vejo que a Internet tem mudado muito e influenciado principalmente o comportamento do lado de fora e isso é sensacional. Nossa geração (25 a 30 anos) pegou a Internet discada de um sábado qualquer depois das 14hs e começou a entender o que isso aqui fazia. Daí, em seguida, veio a nova geração e mostrou (e continua mostrando) a cada dia como podemos trabalhar de outras maneiras na Internet. As pessoas querem conteúdo, querem opiniões, querem ver, querem entender, querem fazer parte e isso tem aparecido cada vez mais no mundo “real”. Os conteúdos online que acabam indo pra uma emissora grande, ou algum meme que vira piada em novela ou série. Tem uma série na Netflix (te amo!) que chama “Black Mirror”, sugiro todo mundo ver o 1º episódio (é chocante ok?!) e ver o reflexo da Internet usada para o lado negro da força. É uma visão incrível de como esse universo aqui está no caminho de dominar o universo de lá.

Precisamos só ficar atentos aos sinais que a própria Internet dá. Quanto mais a conhecemos, mais sabemos que não a conhecemos e que tem muita coisa pra acontecer.

O segredo de trabalhar na Internet, em minha opinião, é:
1º Calma;
2º Fodas;
3º Faça o que você gosta, mensure os resultados e continue trabalhando.

TG: Vocês oferecem materiais e discussões sobre a profissão. Qual a importância de fazer esse tipo de trabalho?

TL:
Pera aí! O café acabou. No nosso blog postamos matérias da área, arquivos para o pessoal baixar, dicas de portfólio, entre outros. Ainda não estamos discutindo algumas coisas específicas porque estamos com um projeto pra isso que não posso contar (shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh). Mas acredito que precisamos contribuir com nossa experiência com portfólios, apresentações, valores. Tudo ainda é um pouco novo em alguns aspectos e reclamar de alteração o tempo todo não vai fazer o problema se resolver.

Aqui funciona muito de designer para designer. E a gente quer fazer tudo da melhor maneira possível para ajudar todo mundo. Enquanto a gente busca algum conteúdo para explicar certinho a gente acaba aprendendo muito também, então sempre é mútuo e muito divertido! <3

2TG: Porque decidiram tratar esses temas referentes ao trabalho do design?
TL: Esses assuntos são sérios, envolvem vidas e expectativas que as pessoas colocam na profissão e no profissional. Dentro da piada de alteração estão junto o cansaço, a falta de compreensão pelo profissional, a falta de respeito. A gente sabe que as pessoas não fazem por mal (algumas), por isso a gente quer falar sobre isso e mostrar como são feitos os processos de criação e de como é a vida aqui dentro. Além disso, queremos levar assuntos educacionais para os designers, assuntos que são abordados na faculdade, dentro da profissão, do dia a dia do profissional que às vezes são muito distantes de pessoas que querem se tornar designers. Queremos aproximar os dois mundos.

TG: Como vocês avaliam, hoje, a profissão de design? Quais os desafios atuais?
TL: Desvalorizada e desconhecida, mas está começando a achar seu caminho. A falta de conhecimento das pessoas pela profissão não faz o trabalho ser valorizado na hora da remuneração e o conhecimento de algumas pessoas sobre designers vem de ver uma pessoa criando um cartão de visita no Power Point em 10 minutos por existirem templates prontos.  Por outro lado, vejo muitas pessoas começando a procurar designers para realizar projetos do que pessoas que sabem simplesmente trabalhar em softwares de criação. Não vejo problema pra quem não tenha necessariamente um diploma de designer em mãos, mas essa pessoa tem a obrigação de estudar e aplicar o bom design em tudo que faz. É possível ser um bom designer, a Internet está cheia de conteúdo e material bom para as pessoas se tornarem ótimos profissionais. Conheço ótimos profissionais que não se formaram em design e conheço péssimos profissionais que se formaram em design, isso é da pessoa independente da profissão.

A profissão designer gráfico ainda é nova em alguns aspectos e isso não ajuda muito na valorização e na formação de novos profissionais por aqui. Em alguns outros países o design é mais aprofundado em instituições em questões de acesso à informação, tecnologia, material e ainda estamos no caminho por aqui. Enquanto temos em alguns lugares designers começando a entender o processo da impressão 3D, por aqui ainda estamos na serigrafia. Felizmente o cenário está mudando e as instituições estão começando a ficar atentas a esses pontos. Nada de exterior x Brasil viu gente, é que algumas coisas são mais complicadas de chegar por aqui. Paciência é a palavra da profissão. Acho que são dois desafios pontuais na nossa profissão que tanto profissionais, gestores, administradores, clientes, seres humanos precisam entender: primeiro, designer gráfico não precisa ser apenas gráfico pra sempre; segundo, design é muito mais que um papel colorido, é gerar soluções para problemas que ainda podem surgir.

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.