Blocos baianos comandados por mulheres combatem o machismo e racismo

A presença de mulheres, sobretudo negras, no Carnaval de Salvador é algo cercado de estereótipos mal resolvidos. A hiperssexualização e a precarização vem caminhando de mãos dadas, principalmente depois de se estabelecer a cultura e luxo de camarotes e trios-elétricos na orla da primeira capital do Brasil.

Olívia Santana, primeira mulher negra eleita como deputada estadual na Bahia, em entrevista ao Jornal da Cidade, explicou que “mulheres negras continuam sendo periferias no carnaval de Salvador. São as catadoras de latinhas, o pessoal do subemprego, etc”.

Mesmo a Bahia sendo o estado com o maior número de negros do Brasil, somente em 2018 uma deputada estadual negra foi eleita. Esse fato, muito mais que celebrado, levou a uma profunda reflexão e um sentimento urgente de mudança.

Mas, ventos de boas novas já podem ser sentidos. Há três grandes blocos que, carnaval após carnaval, vem se destacando por serem criados e protagonizados por mulheres.

1- Filhas de Gandhy 

O Gandhy é um dos nomes mais conhecidos e importantes  do carnaval de rua de Salvador. Todo mundo já viu alguma vez um foto das ruas do centro histórico tomadas por uma mar azul e branco. Acontece que o bloco, fundado em meados de 1949 por um grupo de estivadores portuários, permitia apenas a filiação de homens. É assim até hoje! Dessa exigência, há muito ultrapassada, nasceu o Afoxé Filhas de Gandhy. Uma Sociedade Recreativa Cultural, fundada por mulheres 30 anos depois do Gandhy masculino, em 1979.

Os ideais são os mesmos para ambos: promover a ascensão política e social dos negros por meio da cultura e da ancestralidade. Para as mulheres, porém, as coisas não foram tão fáceis. Em 2019, quando completou 40 anos de vidao Afoxé Filhas de Gandhy enfrentou problemas para colocar o bloco na rua. Glicéria Vasconcellos, fundadora e presidente do bloco afro, declarou ao Correio 24 horas que chegou a entrar em editais em busca de patrocínio. Sem sucesso.

O Filhas de Gandhy se destaca mesmo pelo olhar social. O bloco afro criou o projeto ‘Arte das Yabás’, que em três edições, faz uso da economia criativa para fomentar a liberdade financeira das mulheres com a produção de instrumentos e adereços.

2- Banda Didá

Esse conjunto de mulheres negras possui uma levada regueira, características de muitos blocos afro de Salvador. A Banda Didá nasceu há 25 anos, fundada pelo Neguinho do Samba. A Banda se apresentou ao lado de Carlinhos Brown na festa de encerramento da Copa do Mundo de 2014. Com som imponente, cores vibrantes e movimento de cabelos crespos e tranças, a Didá segue em marcha pela igualdade.

Atualmente, são 80 integrantes movidas pelo ímpeto em prol da emancipação feminina, entrelaçando arte e política. O bloco conta, inclusive, com crianças. Lá elas aprendem um pouco sobre música, aspectos sociais e políticos, desenvolvimento do pensamento crítico e ancestralidade.

As mulheres e meninas da Banda Didá podem ser vistas ensaiando nas ruas e vielas do Pelourinho ou participando da abertura de grandes eventos na capital baiana. Aliás, a Didá afro lançou uma campanha para festejar os 25 anos de história. A ideia é filmar um documentário sobre estas quase três décadas de estrada da primeira banda de percussão samba reggae.

3- As Poderosas 

As Poderosas vão às ruas para falar de um tema urgente e com casos recorrentes no Carnaval: o feminicídio. Segundo a Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM), Salvador teve seis casos de estupro, incluindo de uma adolescente, e duas tentativas de feminicídio durante o Carnaval 2019.

O bloco foi formado na comunidade do Alto das Pombas, que fica no bairro de classe média alta de Ondina. Tudo começou em um 25 de dezembro, com uma partida de futebol em que apenas homens eram permitidos. As mulheres se uniram e mostraram que juntas podiam qualquer coisa.

O bloco também está na luta contra a homofobia. No Carnaval de 2020, a ideia é homenagear Maria Bonita, símbolo do cangaço brasileiro. Homens que apoiam a causa também são bem-vindos nos desfiles.

LEIA MAIS

Comentários

 

 

Comentários