Bienal do Rio recebe lançamento de livro escrito por ex-morador de rua

No último domingo, 1 de setembro, o autor Leo Motta realizou, na Bienal do Livro do Rio, o lançamento oficial de seu livro “A vida além das marquises”, um relato literário dos seis meses em que viveu como morador das ruas do Rio de Janeiro.

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Motivo de ir para a rua foi o desejo de não ver mais o sofrimento que seu vício em drogas causava à mãe. em entrevista ao G1, ele contou que estava enlouquecendo por conta do que ingeria. “Chegou um momento no qual a coisa mais humana que podia fazer por ela e pela minha família era desaparecer, ir embora”. E ele partiu!

Mas as drogas o seguiram. Usuário recreativo desde os 14 anos, quando chegou aos 21, se viu arremessado nos braços da cocaína após o assassinato de um filho de três anos. “Sempre fui trabalhador, mas pobre. Entrei de cabeça no que não devia – o vício foi o meu divã. Na maior parte do tempo, usei cocaína, mas também experimentei crack. Quando me dei conta, já havia começado a catar comida nas latas de lixo e a dormir sob as marquises”, revelou na entrevista.

Nas ruas, Leo viu de perde a capacidade humana de ser cruel. Uma vez, ao pedir que uma senhora lhe comprasse pão, recebeu uma cusparada no rosto. Pouco tempo depois, ao pedir água em um restaurante recebeu um copo cheio de água e gelo. “Engoli tudo de uma vez. Em dois segundos, senti um sabor muito forte na boca e cuspi. Ele havia colocado sal na água. Olhei para a porta do restaurante e o segurança, sorria, dizendo que havia feito aquilo para eu nunca mais voltar ali. Sentei no chão e comecei a chorar. Fica difícil ter esperanças depois disso, não?”

Leo costumava dormir em frente ao Hospital Souza Aguiar, no Centro do Rio, e passar os dias no Campo de Santana, logo em frente. O único sapato que tinha era um chinelo que logo arrebentou. Andava com uma mochila velha contendo poucas roupas e nenhuma esperança de recuperação.

Numa manhã, foi acordado por um policial militar. Esperou pelo pior. “Este policial era diferente. Fez várias perguntas, parecia interessado na minha vida. Depois que contei minha história, ele me conduziu até uma assistente social no Largo da Carioca: Ana Lúcia. Ela também pediu para eu contar minha história – e foi a partir daí que as coisas começaram a mudar”.

Leo foi encaminhado à Associação Solidários Amigos de Betânia, instituição se dedicada à recuperação de moradores de rua. O processo levou 224 dias e 896 refeições para ser concluído, como ele gosta de frisar. Livre dos vícios, ele integrou a equipe de resgate da instituição e, até hoje, ajudou a recuperar 22 pessoas.

Com o tempo, entendeu que precisa contar o que viveu. “Um dia, preso num engarrafamento, peguei o celular velho que tinha na época, entrei em uma rede social e decidi criar uma página. Quando olhei pela janela do ônibus vi uma das últimas marquises sob a qual havia dormido. Aí surgiu a ideia: há vida depois das marquises. Em semanas, o perfil já tinha 30 mil seguidores”.

Após conseguir R$ 3,8 mil num site de financiamento coletivo, as história contadas nas redes sociais se transformaram em páginas de livros.“Ninguém nasce na rua, mas todos podem acabar nela. Espero que meu livro mostre que a vida das pessoas pode seguir por caminhos tristes, mas que e sempre possível sair deles”.
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