Agulha, tinta e pele: histórias que se cruzam na arte

O artista é um contador de histórias. Momentos, sentimentos e pensamentos ganham forma com o seu trabalho. Um processo em que narrativas se encontram para dar corpo a outra forma de expressão. Simbolismo que vai além de um trabalho e alcançam um novo jeito de se posicionar no mundo. E, para isso, é necessário estar aberto e disposto a conhecer e transmitir todas essas histórias que estão aí para serem compartilhadas.

Essa relação pode ser transformadora de diversas maneiras. Os irmãos e tatuadores Dério di Carvalho e Evando Tetovisk estão acostumados a transformar os desejos e experiências pessoais em registros marcados na pele. Mas a própria trajetória desses artistas revela como a cultura e a arte podem ser determinantes na vida de uma pessoa. De início alguém inspira quem está à sua volta, mas em algum momento essa pessoa pode estar do outro lado, buscando incentivo daqueles que o viam como exemplo.

TetaEm 2003, Evando Tetovisk, então body piercing, deu início a um estúdio de tatuagem em parceria com o tatuador Miguel Godinho. Dério di Carvalho foi chamado para trabalhar na recepção e, nesse momento, tinha no irmão uma inspiração como artista: os desenhos que fazia chamavam a atenção e despertava a vontade de seguir aquele caminho.

“Ele que me colocou no caminho. Antigamente ele desenhava e eu ia lá e copiava, saca? Eu gosto de dizer que aprendi a desenhar com ele. Eu sempre segui os passos dele. Eu lembro de uma vez em que ele pegou um pincel e fez um desenho em mim e eu fiquei três dias sem tomar banho admirando e sonhando com uma tatuagem assim. Desde pequeno venho seguindo os passos dele e sempre fui apaixonado com essa ideia”, conta Dério di Carvalho.

Os dois trabalharam juntos até 2008, quando Evando Tetovisk, que estudava Administração de Empresas, resolveu buscar outros caminhos profissionais. O irmão, porém, continuou no estúdio e começou a se aventurar nas suas primeiras tattoos, que ele fazia em sua própria pele. O procedimento era uma forma de experimentalismo e tentativa de se aperfeiçoar no trabalho. “Pensei: já desenhava, então vou comprar uma máquina e vou começar a me tatuar. Se eu errasse não ficava com tanta consciência pesada”, explica Dério di Carvalho.

Da sua própria pele passou para a dos amigos. E o resultado estava bom. Logo, começou a levar as tatuagens como profissão. Em 2012 montou, em sociedade com Bruno Antony, o estúdio Rockline. Por lá ficou até 2014, quando resolveu montar um espaço seu: a Santa Fúria Tattoo Shop. Para completar a sua loja precisava de alguém para colocar piercings. E a escolha natural foi o irmão.

Porém, Evando Tetovisk sabia que não podia atuar apenas como body piercing e, para encarar essa jornada, precisava algo mais. Decidiu, então, que estava na hora de tirar os desenhos do papel e passar para a pele das pessoas. Mas havia alguns receios. “As superfícies são totalmente diferentes, papel e pele. E outra coisa: no papel dá pra você apagar e consertar. Na pele é mais difícil”, destaca.Dério

É nesse momento que a vida nos mostra os diversos caminhos que levam à construção de uma boa história. Agora, o exemplo era outro: Dério di Carvalho assumia o papel de incentivar e encorajar o irmão a enfrentar o desafio e dar início aos “rabiscos”. “Eu comecei a tatuar por intermédio do Dério. Foi ele quem começou a me dar incentivo e coragem para começar. Eu sempre desenhava, mas não era nada sério e não tinha coragem de pegar e começar a tatuar assim”, ressalta Evando Tetovisk que, desde o início deste ano, atua como tatuador. “Gosto de falar que ele me ensinou os primeiros passos e agora a gente aprende junto”, complementa Dério di Carvalho.

Agora os irmãos conduzem o estúdio em que desenvolvem uma arte única. Os designs que criam surgem a partir das histórias que os clientes trazem para, ali, darem forma aos seus desejos, sonhos, afirmação de identidade e homenagens. “Eu acho muito massa porque você faz um trampo e está eternizando ali uma história. E é legal ver o cliente feliz, satisfeito. A gente gosta de brincar que ninguém para na primeira tatuagem porque é uma expressão muito massa e a pessoa vê isso, tanto que tem gente que gosta de marcar cada momento da vida. Fico feliz de fazer isso: de eternizar e fazer parte dessa história”, afirma Dério.

O cliente tem a opção de escolher um desenho – inclusive de retirar da Internet – e pedir para reproduzir. Mas isso não garante um trabalho artístico único. É nesse campo que os irmãos tatuadores defendem a criação de um design único, desenhado por eles a partir dos relatos que recebem ou, então, algum material que já tenham produzido e colocado à disposição de quem gostar.

“Essa ideia de criação é o que eu acho mais legal. A gente tenta colocar no estúdio isso: se o cara quer fazer uma rosa e você pega o tatuador X ou Y, ele vai pegar o desenho da internet e copiar igual. Não! A gente tenta pegar um estilo e fazer”, explica Evando Tetovisk. “A gente pega uma referência e tenta criar em cima dela, fazer um desenho próprio. É o que falamos: o cliente vai ter uma tatuagem exclusiva”, completa Dério di Carvalho.

Independente da escolha do cliente, o que torna o trabalho especial é a possibilidade de se aproximar das pessoas, conhecer as suas histórias e traduzi-las na pele, onde irão carregar durante os próximos anos. Uma relação única para qualquer artista. “Rola uma conexão também. Porque se você parar pra pensar não é só um cliente, acaba virando um amigo. Tem o momento que você está fazendo a tatuagem, eternizando a história, e tem a hora que você está conhecendo aquela história. Você vai trocando ideia e acaba criando um laço ali. E quando você vê a pessoa passando na rua e vê que foi você quem fez aquilo é muito legal”, reflete Evando Tetovisk.

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