A responsabilidade na ponta de uma caneta – Parte 2

Na segunda parte da entrevista concedida ao Trem das Gerais, o rapper itabirano Thiago Martins, ou Skp se preferir, fala sobre projetos sociais e a sua relação com a juventude. Ainda fala um pouco sobre o seu processo criativo e como trabalha as suas canções. E sem perder a batida ou esquecer a rima, o músico conta um pouco sobre o crescimento do rap em Itabira e as dificuldades de quem abraçou esse cenário como estilo de vida. Confira a parte final desse bate-papo

*Se você perdeu a primeira parte da entrevista ainda dá tempo de ler. É só clicar aqui.

Você possui vários projetos, como as visitas nas escolas e o contato com as crianças. Qual a importância de ter esse contato, de estar presente na comunidade?

Mano, eles são a gente amanhã. Na minha época não tinha muito dessa fita aí de música ostentação. Hoje é o que mais chega para os meninos. E às vezes eles confundem o brilho interior com o brilho exterior e poucas pessoas vão nas escolas “dar a ideia que eu dou”, de olhar no olho do moleque e falar “mano, já é tudo contra a gente e você vai ficar tretando com o seu amiguinho, brigando com o outro”. É muito mais fácil você dar uma boa ideia, mas ninguém quer dar essa boa ideia. Eu vou nos lugares assim e a gente pergunta pros meninos se eles sabem o que é Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) e eles não sabem. E é um caminho que eles têm pra chegar numa faculdade. Então é de uma importância total. Às vezes eu sinto como se tivesse tentando deixar um deserto fértil. A gente fica tentando igual louco e pode ser que vingue uma ou duas sementinhas ali, mas essas duas que vingarem vão ser bem resistentes. É um trabalho de formiguinha. Na hora que eu estou ali palestrando… palestrando não, trocando ideia, olhando no olho dos moleques, de 100 são 20 que estão me ouvindo de coração. E esses 20 falam pro vizinho e aí viram 40, que viram 80 e assim a gente vai indo e conseguindo fazer alguma mudança. Tem que partir de algum lugar. Ficar parado não dá mano.

skp_projeto_01Agora sai o meu livro e a gente vai rodar vários interiores, não só de Minas (Gerais), mas do Brasil também, porque é onde eu acho que a minha poesia não chega, a cultura local pode chegar, mas a minha poesia não chega e a gente vai trocar ideia com os moleques, deixar o livro na rede pública de ensino do Brasil – que era uma vontade que eu tinha. Podia vender o livro, mas acho muito mais louco isso que a gente vai fazer de colocar na biblioteca das escolas e os moleques chegarem e falarem “nossa que da hora”.

Nessas palestras que eu faço, nessas trocas de ideias, eu rimo uma música de Drummond e recito uma música d’O Pensador. Eles ficam meio em dúvida e eu explico que rap nada mais é que ritmo e poesia, tá ligado. Aí os moleques vão começando a assimilar. E o mais importante que eu acho é dar outro ponto de vista pro moleque. Quando a gente tem boas referências, boas ideias e tal, a gente começa a ter vários pontos de vista. Às vezes o moleque só tem um, que foi o que chegou nele e quando vem uma coisa diferente dá um choque nele. Por exemplo, você chegar e falar de amor eles dizem: “achava que isso era coisa de vacilão, mano, e que bacana o mano ali dando essa ideia”. Entende? É muito louco o respeito que eles têm comigo. Porque eu respeito eles como eu respeito um adulto. Como eu olho no seu olho, eu troco ideia com o moleque do mesmo jeito. Eu não subestimo ele por ser uma criança. Eu era jovem e já fui da idade deles e ficava indignado quando falavam “ele é uma criança” e me tratavam diferente. Eu falava “poxa, eu tenho potencial”, então eu não subestimo jamais o potencial de nenhum dos moleques; pelo contrário, tento acender uma fagulha ali.

E do que vai tratar esse seu livro?

O livro vai se chamar a “Essência Vive” e contém poesias minhas, partes de letras, composições completas, partes que mais me fizeram refletir nas letras, sacou? Me peguei como parâmetro para os moleques. E espero mesmo que faça a diferença pra eles. Tem um rapper, que chama Ernando, e me influenciou muito. Tem gente que esconde quem te influencia, mas eu não. Ele escreveu um livro que chama “Poucas Palavras”, li o livro e bateu daquele jeito. Eu levo o livro dele nas escolas e leio as letras, dou total crédito a ele, e é excelente como os moleques mudam a ideia sobre poesia. E eu estar com o meu livro e poder dar o livro para o moleque vai ser muito louco. O meu não é cópia do dele, é uma coisa bem pessoal, das minhas letras, do que eu sempre fiz. Mas a ideia de fazer um livro veio através dele.

Você acaba se tornando uma inspiração para outras pessoas. Pra quem te escuta, pro jovem que te vê na palestra, pra quem vai em um sarau. E como você se sente sendo um espelho pra essas pessoas?

Muita responsabilidade, mano. Fico muito feliz, mas muita responsabilidade quando estou com a caneta, com o microfone porque uma palavra minha vira uma atitude de alguém e isso eu tenho que ter noção, ciência total do que estou fazendo. Não posso dar uma de emocionado e brincar, não posso. Porque um erro que eu cometer, uma ideia que eu der que não for para o crescimento e que diminua… porque se for dar uma ideia que não acrescente, eu Thiago, prefiro não dar. Se eu fizesse uma música de ostentação, a minha visibilidade seria muito maior, mas o meu efeito seria muito menor. Então é responsabilidade mesmo na ponta de uma caneta.

Você coloca nas suas redes sociais os livros que lê. Como é essa questão da literatura no seu trabalho?

Automaticamente reflete pelo conhecimento que você absorve e até mesmo pelo vocabulário. Quando tenho um momento de lazer, eu gosto de ler. Só que eu não sou aquele cara que lê livro que é lançamento. Eu leio sobre os assuntos que eu gosto. Quando eu era pequeno e falavam que tinha que ler achava uma coisa chata. Mano, ler é muito bom! Você vira pra um moleque e pergunta “você gosta de quê?” e ele fala futebol, tem o livro do Vampeta, de zoeira dele. Tem livro de tudo e quando você começa ter essa percepção, vê que é muito mais louco que ver uma televisão, por exemplo. O conteúdo é muito maior, o que aborda é muito maior. A mesma coisa que você vê numa televisão e em um livro no livro é muito mais explícito. E isso reflete totalmente no trabalho. Você adquire mais conhecimento, mais vocabulário. Mas eu leio mais como uma forma de lazer, não uso livro pra aprimorar. Pra aprimorar a arte que eu faço é a evolução como ser humano, nas atitudes do dia a dia. Ler um livro sim pode ajudar, mas não é o meu intuito. Gosto mais de ler um livro para distrair, pra absorver uma coisa mais da hora, colocar a mente para viajar um pouco, pra sair um pouco do mundo que vivo todo dia, desse caos. Acho muito louco ler e um dos intuitos principais quando eu vou fazer essas minhas palestras – os tópicos são “O brilho interior” e a “Inserção literária” – mostro as poesias que eu citei e isso vem daí (relação com a literatura). Mostrar pro moleque que tem leitura sobre tudo.

E como é o processo criativo das suas letras?

Vivo isso o dia inteiro. Na hora que eu estava vindo aqui (para a entrevista), estava montando uma frase na minha cabeça. Aqui nessa entrevista eu falei uma frase que vou anotar: “a palavra que eu digo vira atitude de alguém”. Guardei essa frase aqui e vou anotar. E é assim: de uma boa ideia que eu troco nasce um rap, de uma observação, de uma reflexão, tá ligado. Uma coisa que eu acho mais louca é o sentimento na escrita. É natural essa parte técnica da escrita, de fazer os jogos de palavras ou não. Não é uma coisa que eu penso nessa música vou fazer uma troca de vogal. O processo é vida virando letra. É colocar a vida no verso, pro verso mudar a vida.

Você tem uma ideia pra uma música e depois trabalha essa ideia? Como isso funciona?

Muitas letras vêm e eu não mexo nelas. E outras não. Eu escrevo e depois vou lapidando. Mas no meu processo eu não forço nunca. Graças a Deus, até por eu estar na mesma sintonia e na mesma frequência há muito tempo, flui de uma forma que eu gosto muito, sabe mano. Na hora que mandam um beat bom e eu sinto aquela energia, eu fecho o olho e sinto com clareza os temas que eu quero abordar. Pode ser com beat ou sem instrumental. Outro dia a moça que “trampa” na padaria perto da minha casa contou a história de vida dela, mano. Disse que era mãe solteira e “pá”, tá ligado. Cheguei em casa e falei que tinha que fazer um som sobre mãe solteira. Quantas mães solteiras não são guerreiras? Nem tudo é contestação, tem coisa que é exaltação. Tem hora que você está em casa e não quer ouvir aquela coisa pauleira, mas uma música para relaxar. Então eu acho legal fazer essa versatilidade na poesia. Não sou a favor de limitar a arte.skp_projeto_02

Eu inclusive ia te fazer essa pergunta: se existe algum limite para escrever um rap, uma poesia?

Eu não acho. A arte não pode ser só isso. E o rap é arte. Por mais que a raiz seja a mesma, a folhagem muda. Você tem que manter a sua essência, mas não pode se limitar. Tem espaço pra você falar sobre o que você quiser. O problema não é o tema, é a forma como você fala o tema. É isso que eu, Thiago, no meu ponto de vista, fico assim com qualquer tipo de música. Eu acho interessante quando é uma forma inteligente ou uma forma com muito sentimento. Algo que me chame a atenção. Não só o “auê” da parada. Na minha visão essas músicas que exaltam o sexo, tem como você falar de sexo de uma forma da hora e muitas vezes o que é da hora pra mim não é da hora pro outro. Mas na minha visão tem como falar de uma forma legal. Não é o tema, mas a forma como você aborda o tema. Eu vejo bem dessa forma. A arte não tem que limitar. Se você limitar a arte você limita os sonhos. Eu não limito os meus sonhos porque os meus sonhos estão na arte.

Em Itabira o rap chegou no Teatro da Fundação Cultural Carlos Drummond de Andrade, foi incluído na programação do Festival de Inverno de Itabira. A cidade está se abrindo para essa manifestação. Como você está vendo isso?

Mérito do rap. Quando começou a gente fazia evento de rap com duas caixas na praça redonda (Dr. Acrísio Alvarenga) e não tinha nenhum apoio. Fazia eu, Richard e os meninos do Underground de 2009 até 2012. Em 2012, quando o Underground deu uma afastada maior dos palcos, o Lukinha (DDG) começou a fazer o “Sarau Essência” comigo e a gente manteve. A gente tentou fazer show na Fundação muitas vezes e foram muitos nãos que escutamos. O primeiro rap na Fundação Cultural foi há dois anos, no meu aniversário, e perguntaram se ia encher. Esgotou! Então foi mérito. Foram muitos nãos para alcançar um sim. E a galera tem muito receio ainda, principalmente por ser cidade do interior tem receio do que é novo. O que a gente faz aqui é muito bonito. Eu vejo vários meninos que começaram no “Nóis por Nóis”, que a gente do Underground fazia. O Lukinha rimava lá, o Pedro DDG rimava lá, vários MCs que estão com trabalho começaram lá com a gente, estavam do nosso lado e cantando para 20 ou 30 pessoas. Agora vejo esses moleques alcançando mais pessoas, eu fico muito feliz. Só que é mérito. Eles são merecedores disso, o rap é merecedor disso. Isso não é favorzinho que a gente está recebendo; pelo contrário, a gente está batendo na tecla. Eu recebi muito não para chegar onde a gente está. Foi mérito nosso, do rap.

Quais foram as dificuldades que tiveram pra chegar até aqui?

Foram muitas. No início ficava várias horas na Prefeitura (de Itabira), o Lukinha chegou a ficar várias horas comigo lá, mas antes dele eu e Richard ficávamos. Sabe aquele lugarzinho onde acontece hoje o rap na praça redonda (teatro de arena)? Não era iluminado e a gente teve que ir na Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais) pagar uma caixinha de luz pra iluminar ali e ter onde ligar o som. Ali era um lugar abandonado e hoje é um lugar de manifestação cultural. A gente fazia o rap ali com a caixinha de som que tenho no meu quarto até hoje.

Eu vejo a maioria dos caras que fazem rap aqui em Itabira hoje fazem lá. E aquilo era um lugar abandonado. Eu e os meninos do Underground fizemos e fizemos acontecer. Antes a gente não conseguia som, não conseguia nada. As coisas mudaram. Hoje a Prefeitura ajudou algumas vezes, algumas, bem algumas, e as que ela não ajudou, a gente fazia o “corre”. Tem amigos aí que tem sons e ajudam a gente, ainda bem. Eu, mesmo que ausente como estou agora, sempre fiz questão de trazer atrações que a galera não teria acesso. E essas atrações vieram sem cobrar cachê porque acreditam no meu trabalho. Já veio o Dalsin, o (Nocivo) Shomon lá de São Paulo, Primeiramente de São Paulo. E isso é muito louco. Fizeram um som de graça na praça pra quem quisesse ouvir e isso é muito difícil de ver, não é comum. Antes eu fazia todo mês, mas agora não tenho tempo, mas se é pra fazer um barato mais ou menos, eu prefiro não fazer. Então de dois em dois meses, três em três meses, a gente tenta fazer isso aí.

A gente não tem nada que apoie. Se tivesse um apoio que pagasse uma passagem, uma hospedagem, trazíamos vários caras aqui. Mas igual o Festival de Inverno que, devido à “crise” aí, teve atrações locais e foi muito louco, mas pensamos em trazer um barato de fora. Porque a gente gosta de valorizar o que é daqui, mas tão importante quanto é fazer esse intercâmbio. Levar o que é daqui pro mundo e trazer o que é do mundo pra cá, mesclar as coisas. Com apoio a gente conseguiria ir muito mais longe. Mas não é porque não temos apoio que vamos ficar parados. A gente vai fazer de toda forma. Enquanto tiver rap, enquanto eu estiver na ativa, eu vou fazer isso que é o que eu amo.

Qual a importância desses saraus que vocês fazem para a cultura de Itabira?

Muito louco. Me cita outro sarau que tem aqui? Se tiver eu peço desculpa pela minha ignorância, peço desculpa porque eu não conheço, não chegou pra mim outro sarau que tenha aberto na rua e pá. Essa é a cidade da poesia e não vai ter um sarau, mano? Não faz sentido. E é total importância porque o sarau é um espaço aberto e quem chegar com a sua poesia tem espaço no microfone para chegar e falar. A gente é veículo de levar a palavra de alguém que precisava falar, precisava expressar para quem precisava ouvir. Então isso é da hora. E do sarau surgiram vários MCs que levaram a sério e tão com coisas na internet. Então é combustível para a poesia urbana, na minha visão.

Do cenário que tinha quando você começou e o cenário que tem hoje qual o balanço que você faz?

Aumentou o número de MCs, aumentou o número de ouvintes. O espaço ainda é restrito, de procurar e contratar o show. Eles dão muito mais valor para o que é de fora. Eu comento isso e falam que “santo de casa não faz milagre”. Isso pra mim não faz o menor sentido e aí não é por causa de meia dúzia que não contribui que a gente vai deixar de fazer porque tem uma pá de gente que é merecedora de receber essa arte. Faz na rua e do jeito que é possível. Eu percebi que de lá pra cá aumentou o número de MCs, de beatmakers, de pessoas interessadas mesmo. Aumentou o numero de pessoas no movimento. É o processo natural da coisa e acredito que daqui cinco anos vai estar muito mais. O rap ainda é uma cultura muito recente, chegou no skp_final_01Brasil em 1985 e agora, nesses últimos seis anos, progrediu no lado do business mais do que em dez anos.


O que precisa para desenvolver mais esse cenário na cidade?

No curto prazo é apoio. Se a Prefeitura abraçasse o sarau ou esse evento de dois em dois meses a gente ia ter uma estrutura para trazer expoentes que vão multiplicar admiradores da cultura hip hop. E quando eu falo de apoiar a cultura hip hop não é a gente do rap só, mas os grafiteiros que estão aí, b-boys, os DJs. A galera corre por eles mesmos. É a rua pela rua. Quando a gente se encontra, é nóis por nóis mesmo. Falta apoio pra galera, um espaço com equipamento digno e se a gente tiver apoio a parada vai crescer muito mais. Mas se não tiver vai crescer do mesmo jeito, mas em um ritmo mais lento.

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