A responsabilidade na ponta de uma caneta – Parte 1

O sonho era ser camisa 10. Futebol no pé não faltou. Mas o tempo, nessa de correr, acabou por expirar. E se o campo não recebeu o seu brilho sobrou para o microfone, que potencializou a voz, propagou as ideias e abraçou as rimas. Natural de Itabira, Thiago Martins, o Skp, não fugiu às tradições de sua terra natal e transformou a poesia em estilo de vida. Cada passo uma palavra e cada palavra uma atitude. Sagacidade no improviso e humildade no dia a dia. O moletom vai nos ombros e o boné na cabeça – e o papo é direto. Em meio a “tá ligado” e “mano”, o rapper itabirano sentou e conversou com o Trem das Gerais. E entre um papo e outro abordou a sua carreira, projetos sociais e o cenário hip hop, movimento urbano que abraça a cidade e a sua realidade. Confira nas próximas linhas a primeira parte dessa conversa com esse “malabarista do caos”!

Como começou o seu interesse pelo rap?

Na real eu sempre gostei de música. Na escola eu tinha uma bandinha, que chamava Nostalgia, e a gente era novão. Fui crescendo e comecei a ouvir Racionais (MCs), vários caras assim. Até que um dia eu estava meio triste, meio bolado lá em casa e escrevi a minha primeira letra. Eu era sozinho e não tinha grupo, aí despertou o meu interesse: escrevendo sobre a minha vida mesmo e o que eu sentia. Mesmo que os caras eram espelho pra mim, eu não me espelhava no que eles escreviam, eu conheci o rap através deles, mas desenvolvi o meu rap através dos meus sentimentos.

Comecei escutando rock, vendo a minha mãe escutar Tim Maia, e até hoje eu escuto. Não tenho muito essa divisão de gênero: rock, rap… Eu divido em música boa e música ruim para mim.

Quando decidiu que ia cantar as suas letras?

Assim que eu escrevi a primeira eu já gravei e coloquei na internet. Eu ficava meio inseguro de colocar o meu nome e colocava só um S de Skp. Aí tinha um mano que começou um grupo comigo e fizemos cinco músicas e colocamos na internet. A partir disso começamos a desenvolver o grupo Underground e Cia – com o Richard, John, Miguel e Alan – e a gente começou a levar mais a sério, com aquela coisa de ensaio e gravar no estúdio. Porque esses primeiros sons que eu te falei a gente gravou no meu quarto, levando uma mesinha de som e só depois fomos para o estúdio e levamos mais a sério.

Mas desde a primeira letra que eu escrevi queria levar isso adiante. Ela se chamava Sereia de Papel e tem pessoas que tem ela perdida por aí. Itabira é cidade pequena e sempre tem muito boato, fizeram um boato sobre mim e eu fiquei muito indignado e escrevi essa primeira letra.

Você fez a primeira letra e veio o Underground e Cia. Nessa época já tinha a ideia de viver de música?

Sim. Eu queria jogar bola a minha vida inteira, o dom que eu tinha era de jogar futebol. Sempre me destaquei no que eu treinei. Só que eu conheci a rua, conheci o rolê e sair à noite, então me desvirtuei um pouco do futebol. Quando acordei já era mais velho pra jogar bola. Eu fiquei frustrado, triste mesmo. Só que depois disso eu conheci o rap. O rap é muito mais que improviso e a minha primeira letra, Sereia de Papel, nasceu de um improviso. E o que eu sinto quando faço um freestyle ali, de olho fechado, é o mesmo prazer que eu sinto quando jogava bola.

E quando eu vi que não seria jogador de futebol eu não sabia do que iria viver. Mas eu sabia que iria viver de algo que eu amasse. E no tempo que eu fiquei ali frustrado, amargurado, eu falei “nó mano do que eu vou viver? Vou ficar de terno e gravata numa sala fazendo o que eu não gosto? Será que é isso mesmo?”. Quando eu senti aquilo com o rap eu percebi que era aquilo que queria. Nunca tive dúvida, tá ligado? Até chegar nos dias atuais, que eu sobrevivo do rap. Não vivo bem de chegar e comprar carro ou casa, mas sobrevivo da minha arte. Então, pra mim, já é um baita orgulho, mano. No primeiro dia que eu fiz eu disse: “é isso, mano”!

E como foi essa experiência com o Underground e Cia?

thiago_skp_03Foi muito louco. Foi o primeiro show que eu fiz com equipamentos e para público mesmo. Eu fiquei muito nervoso no primeiro show. E eu era muito chato com os caras, era tipo a mãe dos caras: “vamos ensaiar e não sei o que”. Querendo ou não, os moleques tinham muito trabalho. O Miguel é tatuador, o Alan trabalhava e o Richard tinha os “corre” dele. O John, quando o grupo estava acabando, estava com o filho dele nascendo. O Miguel também já tinha dois filhos. Então os caras tinham muita responsabilidade, tá ligado? A minha era o rap mesmo.

De onde eu vim também, por mais que eu sempre convivi ali na comunidade e nas favelas, eu não vim da favela, tá ligado? Os meus pais sempre me deram uma estrutura para começar. Isso foi muito importante porque muitos pais não dão essa estrutura mínima. Os meus pais sempre me apoiaram muito nisso. Sempre morei com a minha mãe e nunca contribui com nada. O Underground foi muito importante para essa experiência de ver como é um estúdio, de como são as coisas profissionais no rap.

Aí o Underground foi tomando uma dimensão cada vez maior. Já tinha um CD pronto pra lançar e chegamos a lançar uma mix tape com 11 músicas completamente feitas com as mãos. A gente comprou um tubo de CD, colamos um adesivo branco e colamos em CD por CD. Várias pessoas tem esse disco ainda. Isso foi muito louco e essa experiência foi válida. Mas quando começou a exigir um tempo maior de dedicação, o grupo meio que dispersou. E aí eu mantive e até hoje os moleques participam do meu show e pra mim é uma honra, a gente tem uma amizade muito forte e eles apoiam muito o que eu faço. O Underground ainda vive em mim.

Você mencionou um pouco dessa relação da sua família com a sua escolha pelo rap. Como foi essa questão do apoio deles?

A minha mãe sempre me apoiou. A gente ensaiava: eu, DJ Tico, Canão, John, Alan, Miguel no meu quarto, em um apartamento pequeno, tá ligado, e ela sempre apoiando. Com picape e tudo! Era ensaio mesmo, mano, cheio de som e microfone. E ela sempre apoiou.

Meu pai, no início, sempre achou que era uma brincadeira. Na hora que ele viu que era sério… meu pai também, fisicamente, sempre foi ausente, por mais que a gente converse muito, pelo trabalho dele está sempre viajando. Então ele não tinha noção e ciência do que realmente era. Aí foi passando o tempo e, depois que foi tomando uma dimensão maior e um contexto mais sério, a primeira vez que eu vi meu pai chorando foi com um freestyle meu. Eu nem sabia que ele chorava e foi a primeira vez que eu vi.

Eles sempre falaram: “o que você faz é sério, é bom e a mensagem que você faz é positiva”. E eu sempre trouxe junto ao rap esse contexto social de fazer os meus projetos, de fazer o sarau, fazer um beneficente ali ou um Natal aqui e fazer uma palestra na escola. E isso não era por causa do rap. Isso aí é questão de ser humano. Tem gente que fala que tal rapper não faz isso, mas não acho que isso é coisa de rapper fazer. Cada rapper faz o que sente e o que entende. Isso eu aprendi com a minha mãe ajudando os mais próximos sempre e com a minha avó, que sempre me apoiou muito, e ela costura as coisas e sempre fez e juntou cobertor para distribuir. Eu sempre achei isso muito lindo e eu queria contribuir de algum jeito. Então acrescentei isso ao rap.

O apoio da minha família sempre foi total e isso faz toda a diferença pra virar da forma que tá. Porque eu já vi vários meninos bons parando por falta de apoio. O rap é muito recente, é um mercado muito novo. Quando você fala que vai viver de música no Brasil, nem vou falar de rap, parece sonho e é mais ou menos isso. Arte em geral. É muito difícil viver disso e é o apoio deles que fez virar o que virou.

Viver de vender CD na rua. Desse meu solo eu vendi 2 mil, do Underground eu vendi 1 mil. E, querendo ou não, é raro. Tem muito rapper que faz e distribui, mas a gente teve desde sempre a visão de vender o disco, vender a nossa arte, vender o nosso peixe ali. E ter uma meta mínima de venda do disco. Eu saía com os meus trinta discos todo o dia e eu não voltava pra casa enquanto eu não vendesse. O Silvinho da (loja) Epidemia falava comigo direto: “pô mano, você tá morto, tá acabado”. Mas eu não voltava, vendia todos. Foram 2 mil assim. Aí é o início, né mano. Tudo começa numa base e como base é a família, um bagulho de amor e confiança já é uma coisa muito bonita de começar.

E de onde vem o Skp?

Quando chegou lan house na cidade todo mundo foi pra conferir. E virou apelido de todo mundo assim lá no bairro: Freak é Freak por causa disso, Lobo é Lobo por causa disso. E o Skp vem disso: eu jogava Counter Strike e o meu nick era Skp e os caras começaram a me chamar assim, virou o meu apelido e nome de vida. No futebol, no rap é Skp.

Depois do Underground e Cia você partiu para o CD solo. Como foi esse trampo?

Eu tinha comprado 500 CDs do Underground, vendi e fiquei com o dinheiro. Depois peguei mais 500 e, no total, foram 1000 CDs que eu vendi. Peguei o dinheiro desses mil CDs na minha mão e investi todo no meu primeiro disco.

Talvez pelos meus pais terem me dado esse apoio no início, se eu pedisse uma ajuda eles me ajudariam, tá ligado. Mas o meu pai é muito exemplo pra mim: ele conseguiu as fitas, tudo com as pernas dele. Eu queria ver se era capaz disso e acredito que todo ser humano é. Então eu vendi esses mil discos, 500 depois mais 500, e não só aqui (Itabira), mas também em Ipatinga e BH. Na época entrei em contato com Ed Mun (grafiteiro), comprei os beats, que na época eu comprava os beats, gravei e fiz o meu primeiro disco em 2013.

Se você for ver o Thiago Skp é muito recente. E de 2013 pra cá eu viajei para muitos lugares e conheci diversas pessoas que eu nunca imaginei conhecer. Não que o Underground não foi válido para isso. Foi muito e, se não fosse o Underground, não estaria onde estou hoje. Mas nesse pouco tempo de Thiago Skp aconteceu muito mais coisas que em quase oito anos junto com o grupo. Porque primeiro a gente fez um trabalho de base aqui para depois ir pra fora e muita gente já me conhecia por causa do Underground. Então eu sou muito grato ao Underground.

Mas saiu esse meu primeiro disco com mil cópias. Acabaram as mil cópias e fizemos mais mil. E depois esgotaram essas duas mil cópias. Nem eu tenho o CD. Minha mãe tem, tá ligado, essa relíquia. Nem eu tenho.

Quando foi o início do Underground?

O Underground, essa primeira música, Sereia de Papel, que o mano foi lá em casa me gravar e já montamos o grupo, foi no final de 2006 para 2007. Então, brincando aí, no ano que vem faz quase 10 anos. Vamos colocar 2007, então são nove anos de estrada. Muito louco.

Como foi o processo de criação, seleção de músicas desse seu primeiro disco?

Catei os beats, os instrumentais, comprei alguns, outros me deram, porque já tinham alguns beatmakers que acreditavam no meu trabalho pelo Underground e gravei. Cada beat que eu recebia eu escrevia a letra. Não tinha essa de guardar. Eu pegava, não colocava uma meta, e falava: “mano, eu vou escrever e trabalhar nesse beat nem que demore um ano”. Só depois que tivesse pronto eu passava para outro beat. Escrevi beat por beat e depois contatei o Sipros, que é um grafiteiro mundialmente conhecido e já expôs em Berlim e um monte de lugar, o cara é tipo fera mesmo, entrei em contato com ele, que fez a primeira capa – e fez a segunda agora –, contatei o Ed Mun, porque sempre achei legal juntar os elementos do hip hop, que são DJ, MC, grafite e o break. E tentei juntar o grafite, o MC e o DJ, mas no meu primeiro disco não teve o DJ e esse é um bagulho que me incomodou muito.

Mas eu fui fazendo esse processo: etapa por etapa. Sem forçar as coisas porque eu odeio isso. Na vida, na música eu acho que tudo que é natural é mais da hora. Então deixei fluir e, quando estava lá com as minhas treze músicas prontas, e eu sou meio supersticioso e minha mãe zoa muito isso, e tinha um número ímpar, mas ela falou “você vai lançar com treze”. E eu lancei com treze e tudo aconteceu, graças a Deus. E foi assim, etapa por etapa e em cada um delas busquei o máximo de qualidade: da identidade visual até a gravação. Por exemplo, a mixagem e a masterização foram feitas pelo Luiz Café, que é do Rio de Janeiro e trabalha com o Marechal, que é um mano referência no rap nacional. Então a gente buscou o máximo de qualidade em todas as etapas. Foi esse o processo.

Foi ali que eu comecei a fazer os meus primeiros shows fora e por isso o disco chama “Eu só volto com a vitória”, tá ligado. Porque independente de onde eu for vou lutar pela minha família, a minha mãe e só voltar com a vitória.

E agora está partindo para o seu segundo CD?

Está prontinho já! Gravado, mixado, masterizado. No final de setembro a gente vai colocar ele na rua.

E como foi o processo de gravação desse segundo CD?

Fui lá para São Paulo na Casa 1 produtora, quem tá lá é o Léo Cunha, que pra mim é uma enciclopédia viva do rap, desde as fitinhas, das coisas de antigamente, até as coisas de hoje, então é um conteúdo muito grande. Por isso fiz questão de gravar com ele. Foi gravado, mixado e masterizado lá na Casa 1. Mandamos fazer na Ponto 4, a fábrica, a capa que, de novo, ficou por conta do Sipros e do Ed Mun, que são nacionalmente conceituados no que fazem e tem a participação do Thestrow, de Curitiba, e do Napalm, que além de serem artistas que eu acho fora de série são pessoas com quem me identifico muito. Porque eu sou sistemático para fazer um som. Música é pior que a minha tatuagem. Eu vou morrer, a minha tatuagem vai junto, mas a minha música fica. Então não basta o cara ser um artista da hora, tem que ser uma pessoa também. São só duas participações e 17 faixas nesse novo disco.

O disco vai chamar “Malabarista do Caos”. Porque a escolha desse nome?

A gente vive no caos e o malabarista do caos, a capa do disco é inclusive um pierrot, um palhaço triste fazendo malabarismo com um coquetel molotov. Porque é preciso manter o equilíbrio mental para conseguir fazer o malabarismo no meio do caos. Então eu quero que o meu som seja esse equilíbrio em meio ao caos. Por isso malabarista do caos. Eu tento manter o equilíbrio, fazer esse malabarismo e passar isso para as pessoas em meio ao caos.

Nós vemos em sua música a preocupação com a mensagem que é passada. Porque esse cuidado com o conteúdo das suas músicas?

Tudo é muito vazio hoje em dia e a gente tem que preencher de alguma forma. E o que a minha coroa e a minha avó me ensinaram foi amor e eu acho que o que mais falta no mundo é amor. Acho que tem espaço pra tudo no meio do rap, mas, por exemplo, se o mano faz música de ostentação e tudo mais faz parte da liberdade ele fazer isso. Mas faz parte da liberdade eu não concordar e citar o meu ponto de vista. Isso é liberdade: ele tem o direito de fazer, eu de contestar e ele de contestar o que eu faço. Mas eu me preocupo muito com a mensagem porque a energia que a gente joga em alguém só cresce. Eu vejo meninos novos que me param na rua e falam: “nó Thiago, você é referência pra mim”. Então é muito importante isso que eu falo, tá ligado.

Quando eu era mais novo e escutava os MCs, buscava a referência de um cara que estava entendo o que estava acontecendo nesse caos: “nossa, que ponto de vista da hora”. Às vezes você passa um ponto de vista tão da hora que o cara começa a aplicar aquilo na vida dele, aquela opinião começa a virar um tanto de atitude. Então se eu começo a passar alguma coisa diferente do amor, da mensagem de conteúdo eu não ia estar de acordo com o meu eu, com o que a minha mãe e a minha avó me ensinaram. Então, antes de ser MC, eu sou ser humano e, como ser humano, eu tento passar o máximo de amor possível e isso reflete na música. O rapper Skp nada mais é que o reflexo da pessoa Thiago, entendeu? Não tem essa de separar a obra do artista no meu caso. No caso de vários, sim. O cara é uma coisa ou outra, e a gente respeita sempre, tá ligado.

É uma coisa de fazer a mudança, que tem que começar de algum lugar. E o lugar mais bonito que eu acredito onde essa mudança pode começar é no coração através do amor, que é a coisa que une a gente. Hoje em dia a gente busca muito a diferença um no outro e se é pra buscar algo em comum que seja o amor.

Você falou dessa questão de ter conhecido muita gente nas suas viagens. Como tem sido isso para você?

thiago_skp_02Muito louco. Eu, como ser humano, sempre fui pé no chão. Eu não fico muito emocionado, deslumbrado de dizer “nossa, mano, que fita”. Assim, acho que a gente é muito merecedor do que faz e eu fico muito orgulhoso. Não deslumbro, mas fico muito orgulhoso. Conheci muitas pessoas, como o Gabriel (O Pensador), que é uma pessoa muito humilde. É um artista de nível internacional, que faz turnê em Portugal e tal, mas é uma pessoa humilde, um ser humano humilde. E conheci pessoas que não saíram ali do eixo deles e se acham o “Pelé” da música, tá ligado. Então isso é muito relativo. Conheci muita gente, mas poucas pessoas realmente boas.

Estou inserido em um meio e na hora que estou no palco e vejo uma pessoa como o Gabriel, só fortifica mais as minhas convicções. Acredito muito na lei da atração e vivo baseado nisso. Você não sabe quantas vezes me imaginei cantando com ele, mano, e olho e vejo que realizou, olha que da hora. E isso eu acho muito louco. Acho muito louco conhecer o artista Gabriel e estar ali cantando com ele. Porém, mais da hora é ver as atitudes dele como pessoa e ter isso como referência. Porque se um dia eu crescer, não em um nível de comparar ao Gabriel, mas crescer o máximo que o Thiago possa ser, e me lembrar disso: “ó o tamanho do mano e como ele age”. Isso é muito louco e me dá muito orgulho.

E como essas relações têm influenciado no seu trabalho?

Totalmente. A minha vida é o meu rap e o meu rap é baseado na minha vida. Porque no rap tem muita gente que tem a mente presa na minha visão. Nego acha que você tem que cantar o que você vive. Eu não acho! Acho que você tem que cantar o que você pensa, o que você sente. Porque se você for cantar apenas o que você vive, vai limitar apenas à sua realidade, mas isso não existe. A realidade do outro interfere na sua. Baseado em que tudo é uma coisa só, a realidade do outro é também a minha. Eu não sou um mendigo, mas se eu quiser cantar uma música interpretando que eu sou mendigo para mostrar como é a vivência de um mendigo e tentar uma melhoria de vida pra ele eu vou fazer. Arte não tem limite. E eu aplico no rap isso tudo que aprendo na vida. Antes de ser um MC que tenha alguma desenvoltura, que tenha alguma coisa assim, tem que ter um conteúdo para passar. Tem que ter essa mensagem e essa mensagem vem do quê? Da minha vivência, da minha vida, da minha observação. Então antes de eu ser um MC da hora, eu vou me preocupar em ser um ser humano da hora. Ser da hora com um porteiro, com um cachorro de rua, com um mendigo, com um mano que não tem nada pra me oferecer. Isso que te faz ser uma pessoa da hora e que automaticamente venha refletir na minha letra. Eu levo isso muito a sério mesmo, tá ligado.

Qual o balanço que você faz desses quase nove anos de estrada?

Acho que foi em 2013 que eu comecei profissionalmente mesmo. Aí eu comecei a ter um parâmetro de outra realidade. Antes era mais aqui em Itabira, o show mais distante que a gente tinha feito foi em Ipatinga, numa pista de skate. Jamais menosprezando porque isso foi muito importante, mas isso era muito grande pra gente. Ainda é. Mas agora a gente visita vários lugares e isso é muito louco. E aí, de 2013 pra cá, que o barato começou a entrar no business, vamos dizer assim, com produtores ligando, fazendo viagens e tal. Antes era um barato que a gente levava com o máximo de profissionalismo, mas não tinha o alcance que começou a ter em 2013. De lá pra cá foi muita mudança, de lá pra cá eu comecei a viver da minha arte. Antes eu não vivia de rap. Antes eu ficava meio inseguro. Por mais que eu passe uma segurança, mano, todo mundo tem as suas inseguranças dentro de cada um, tá ligado. Eu pensava: “nossa, que fita. Será que vai virar mesmo, que eu estou fazendo certo?” Mas de 2013 pra cá eu consegui me estruturar, minha irmã trabalha comigo – é minha produtora. Consegui estruturar da melhor forma possível e montamos a nossa empresinha pra administrar melhor as minhas coisas, lancei a minha camisa. Então, em 2013 eu comecei a viver mesmo dessa parada. Antes eu vivia isso, hoje eu vivo e sobrevivo disso.

* Confira na próxima semana a segunda parte da entrevista com Thiago Skp.

Comentários

A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.