A música afro-mineira de Maíra Baldaia

Formada em música pela Bituca – Universidade de Música Popular e em teatro pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a “cantautora” itabirana Maíra Baldaia, em seu trabalho, resgata elementos da cultura afro-mineira ao mesmo tempo que se aventura em outras experiências sonoras, como o blues e jazz.

No final de 2016, lançou o seu primeiro álbum. Intitulado “POENTE e Outras Paisagens”, o disco conta com 12 faixas – entre composições da própria Maíra Baldaia e parcerias com outras compositoras. Em suas canções, a mulher negra e espiritualidade são temas recorrentes e traduzem as suas experiências, seja na trajetória artística, nos estudos ou em seu modo de interpretar o mundo.

Em maio, a cantora, dando continuidade aos trabalhos com “POENTE e Outras Paisagens”, divulgou seu primeiro clipe: “Insubmissa”. A música discorre sobre temas como a solidão e a força da mulher negra. A letra destaca a construção social da independência feminina e o despertar pelos seus direitos.

Agora, Maíra Baldaia atravessa o oceano Atlântico para se apresentar na Europa com a turnê “Poente Além-Mar”. Portugal é o destino inicial dessa jornada e São Paulo, já em terras tupiniquins, está confirmado como encerramento da viagem. Mas, antes de partir, a cantora conversou com o Trem das Gerais sobre a sua carreira e projetos. Confira!

Trem das Gerais: Como começou o seu interesse pelas artes?

Maíra Baldaia: Desde pequena estive em contato com as artes, sobretudo a música, por influência dos meus pais. Não consigo definir o momento exato em que interessei. Comecei muito nova nos palcos, aos quatro anos eu fazia uma participação no disco e nos shows de Tony Primo, compositor itabirano. Aos 12, tive meu primeiro grupo de teatro, “Arte Vida”. Aos 14 ou 15 anos, minha primeira banda de rock autoral e não parei mais… Aos 16, comecei a cantar profissionalmente, estudar teatro em Belo Horizonte, para onde me mudei com 17 anos. Depois vieram mais cursos e experiências de cinema, canto, teatro e tudo isso formou a artista que sou hoje na música. Artista em formação contínua e constante.

TG: Quando a música passou de um interesse para um modo de vida e profissão? E como foi esse processo pelas artes?

MB: Acho que essa resposta abrange não só a música, mas a arte em si. Não me vejo trabalhando em outra área, é através da arte que acredito ser possível transformar o mundo e essa transformação começa de pouco em pouco ao nosso redor. Seja como cantora, compositora, atriz ou arte educadora, eu trabalho para levar algo melhor pro meu entorno. Não consigo perceber a arte descolada da política, pra mim está ligado, e, mais que um modo de vida ou profissão, a arte é uma missão, é resistência, é a busca de igualdade e positividade.

TG: Como foi a sua formação profissional como musicista e artista?

MB: Comecei como autodidata, seguindo minha intuição para deixar a criação fluir. Depois, entre alguns cursos livres, estudei Canto na Bituca – Universidade de Música Popular e Teatro na Escola de Belas Artes da UFMG. No entanto, essa formação não se deu só academicamente falando, aprendi muito com as mulheres do meu dia a dia, com a cultura de matriz africana, com mestres e artistas que tive a sorte de conviver.

TG: Como foi a experiência com a escola Bituca?

MB: A Bituca é um sonho e um dia ainda volto para renovar a bagagem por lá. Uma escola muito legal em que aprendemos direto com os mestres, mestres que também vivenciam a vida artística. A Bituca foi um divisor de águas na minha trajetória artística, me trouxe um olhar muito mais sensível e responsável para com a arte e me ajudou a acreditar na potência que é a arte em minha vida.

TG: E a experiência de estudar na UFMG?

MB: Na UFMG também aprendi muito, aprendi a tirar o corpo e a mente de um lugar comum. Lá pude retomar a escrita, a dramaturgia, gosto que eu havia exercitado bastante na época dos estudos em cinema, mas que estava adormecido. Meu trabalho de conclusão de curso foi em cima da dramaturgia negra e feminina, temática presente em muitas das minhas músicas também.

TG: Você tem uma influência muito grande da cultura africana e mineira. Como isso passou a ser presente na sua vida? Como a cultura africana e mineira influenciam na sua vida?

MB: Desde pequena estive ligada à religiões e cultura de matriz africana. Essa influência é mais do que referência artística, é filosofia de vida. Aprendi desde cedo a respeitar minha ancestralidade, a olhar a natureza e seus ensinamentos e isso está presente nas minhas músicas e na minha vida.

TG: Maurício Tizumba, Tambor Mineiro e Meninos de Minas têm uma importância na sua trajetória. Como eles te impactaram no seu desenvolvimento como artista?

MB: Trabalhar com o Tizumba e com os Meninos de Minas com certeza é das coisas mais importantes que me aconteceram e que me trouxe grande aprendizado. É um privilégio poder aprender e criar ao lado dos mestres tamborzeiros, sejam os meninos ou o próprio Tizumba. A cultura afro mineira é uma grande escola de identidade, amor próprio e representatividade. Tenho crescido como artista e pessoa nesse contato que se dá há vários anos com os tambores de Minas.

TG: Como é o seu processo criativo? O que te influenciou na composição das músicas do álbum “POENTE e Outras Paisagens”?

MB: Algumas de minhas músicas nascem na poesia, outras na melodia, outras no violão ou ainda a partir de um estímulo percussivo. “POENTE e Outras Paisagens”, meu primeiro disco, chega ao público composto por canções autorais. Assino todas as músicas e algumas delas são parcerias com compositoras de Belo Horizonte, como Nath Rodrigues, Talita Barreto, Eneida Baraúna, Verônica Zanella e Elisa de Sena, todas mulheres negras que apresentam um trabalho muito sensível e representativo na cena musical mineira.

O disco apresenta uma profusão de estilos, mas sempre tendo como marca a enunciação feminina e influências que vão do Jazz aos ritmos Afro Mineiros. Algumas das músicas foram feitas durante os shows que fiz ao lado de minha banda, em julho de 2016, em Lisboa, Portugal.

“Ensaio Sobre o Amanhecer”, por exemplo, foi feita na estrada indo de Lisboa à cidade de Porto, no norte de Portugal. Já “Pororoca” foi feita no encontro do rio do com o mar em 2012, em Trancoso na Bahia. Já “Valsa para Maria”, que traz influências mais mineiras, foi feita em 2014 enquanto caminhava pelas ruas de Belo Horizonte. “Insubmissa” nasceu de um encontro com Talita Barreto e traz, assim como “Negra Rima”, parceria com Elisa de Sena, a voz da mulher negra e de uma luta que ainda não findou e que se faz necessária a ecoar para transformar essa sociedade em vivemos.

TG: No final de dezembro você lançou o álbum “POENTE e Outras Paisagens”. Como foi o processo de criação e produção desse trabalho?

MB: O álbum foi gravado no Estúdio Engenho em Belo Horizonte e foi gravado, mixado e masterizado por Andre Cabelo. Tivemos um processo de gravação intenso, contando com a direção musical especialíssima de Clayton Neri. Estar em estúdio é sempre muito prazeroso e nos traz muito aprendizado, é como uma segunda escola mesmo. Foram dias de imersão ao lado da banda que sempre me acompanha, formada por Débora Costa, Larissa Horta e Verônica Zanella, além de ter contado com participações especiais extremamente generosas. Os arranjos são assinados por Verônica Zanella, Alysson Salvador e Clayton Neri, mas todas as canções passam por uma construção coletiva e horizontal. Todas as pessoas envolvidas abraçaram “POENTE e Outras Paisagens” com muito carinho e cuidado. O disco que apresentamos ao público é fruto de um trabalho feito com muita atenção.

TG: Como você define esse trabalho?

MB: “POENTE e Outras Paisagens” traz a enunciação da mulher, sobretudo a mulher negra, carregado de influências da afro mineiridade e brasilidade ao som da nova MPB. É álbum marcado por letras poéticas que falam de liberdade, empoderamento, amor e raízes. O conceito do disco traça um percurso que vai do amanhecer ao anoitecer, sendo que o Poente é seu ponto forte, marcado por uma música homônima que passeia pelos timbres do Blues. Assim, o álbum apresenta ao público caminhos poéticos entre paisagens sonoras.

TG: Como aconteceram as participações especiais no disco?

MB: No disco eu tenho as participações especiais de Alysson Salvador (guitarra em “Espelho D’água” e violão em “Negra Rima”), Bia Nogueira (vocais em “Negra Rima”), Caetano Brasil (clarinete em “Ensaio Sobre o Amanhecer” e “Pororoca”), Maurício Tizumba (vocais em “De Chegada em Canto”), Nath Rodrigues (violino em “Insubmissa” e “Só por um Instante”). São todos artistas negros que admiro e com os quais compartilho afinidades musicais na cena artística mineira. Dentre eles, Tizumba, que abre o CD com sua participação, foi um dos mestres que tive na música e no teatro, e Alysson, Bia, Caetano e Nath são artistas que abraçam meu disco com profunda generosidade e que são referências pra mim no que tange ao fazer musical que une técnica e alma. Além desses artistas, o nosso diretor musical Clayton Neri, que é músico, professor, diretor, arranjador virtuoso e que ama profundamente o que faz na arte, nos presenteia com duas participações nas faixas “Ensaio Sobre o Amanhecer” e “Axé”.

TG: Você, agora, lança como o clipe da música “Insubmissa”. Como foi o processo de criação e composição desse clipe?

MB: O clipe foi construído de forma coletiva com o videomaker Athos Souza e a artista visual Criola. Eu, que tenho um pé no cinema, tinha um roteiro e referências guardadas na gaveta. Apresentei essas ideias pra eles e colocaram seus olhares sensíveis no projeto. Assim, a direção foi feita por mim, pelo Athos e pela Criola conjuntamente. A direção de arte e styling foi da Criola. Contamos ainda com a participação e atuação de Criola e Nath Rodrigues. A produção executiva foi minha e da Camila França. O clipe foi gravado na Serra do Cipó por Athos Souza e contamos com os looks sensacionais da Butic Bardot, maquiagem da Débora Guimarães Make Up e apoio da Sófrida. O clipe traz em suas imagens a profundidade que seu discurso pede com uma fotografia bastante sensível! Há muita verdade e amor envolvidos nesse projeto.

TG: Qual a sua expectativa com o lançamento desse clipe?

MB: O clipe tem repercutido de forma bastante positiva, estou muito feliz. A minha expectativa é que essa palavra se espalhe e chegue aos quatro cantos do mundo. Represento em “Insubmissa” uma voz que não é só minha, é a voz de muitas mulheres. Que essa voz ecoe!

TG: Porque a escolha da música “Insubmissa” para ser o primeiro clipe de “POENTE e Outras Paisagens”?

MB: Por causa do discurso que essa canção traz. Insubmissa apresenta a junção de tudo que acredito, fala de liberdade, fala da força da mulher, sobretudo da mulher negra, da diversidade, da quebra de padrões, traz uma discussão política e social de forma poética e carregada de referências fortes. É a voz feminina que ecoa insubmissa!

TG: Para finalizar, quais são os seus próximos projetos?

MB: Meu próximo projeto é a turnê “Poente Além-mar”, viajo acompanhada da minha banda Débora Costa, Larissa Horta e Verônica Zanella para shows em cidades da Europa, como Lisboa e Serpa, finalizando a turnê em São Paulo, dentro da programação da Mostra Imune – Instante da Música Negra, no Aparelha Luzia. E quem sabe não venha um segundo vídeo clipe no segundo semestre.

Confira o álbum “POENTE e Outras Paisagens”:

Assista ao clipe de “Insubmissa”:

Conheça as redes sociais de Maíra Baldaia:

 LEIA MAIS

Comentários

A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.