A “beleza do feio” nos versos sonoros de André Prando

A primeira vez em que ouvi algo sobre André Prando não foi nas velhas caixinhas de som do meu computador, no alto falante do carro ou no dock do meu iPod. Foi em uma mesa de bar, em meio às discussões sobre música, que um amigo disparou: “escuta as músicas do Prando que você vai gostar”. Dito e feito! Logo nos primeiros acordes me identifiquei com aquela sonoridade, as letras reflexivas e um estilo musical que, de alguma forma, me remetia a velhos ídolos, como Raul Seixas e Sérgio Sampaio.

Natural do Espírito Santo, André Prando é daqueles artistas que não se prendem a rótulos e que busca em suas diversas influências – seja no que encontra no seu dia-a-dia, na literatura ou na própria música – os caminhos necessários para a construção da sua estética sonora e artística. Em meio a tudo isso, nasce um trabalho único e que coloca o músico entre os nomes mais interessantes do cenário independente brasileiro.

Em seu currículo, o capixaba conta com dois registros fonográficos: o EP “Vão”, de 2014, e o álbum “Estranho Sutil”, de 2015. Nesse final de ano, bati um papo com André Prando sobre o seu trabalho, as suas influências e um pouco da cena musical. Confira essa conversa na íntegra!

TREM DAS GERAIS: O seu trabalho possuí letras bastante poéticas e reflexivas. Como é o processo de elaboração dessas letras e de suas composições?

ANDRÉ PRANDO: Essa característica das letras, que você diz profundas, é uma das características que eu mais me dedico nas minhas canções. Procuro fazer canções em que as pessoas consigam refletir sobre o tema, que as letras possam sugerir pensamento críticos sobre as cosias. É uma coisa com a qual me importo mesmo. O feedback que eu tenho das pessoas quanto a isso me deixa muito feliz, é uma das coisas que as pessoas mais falam quando entram em contato comigo é sobre como a letra cativou e os fez pensar.

O processo de composição das músicas não segue nenhum tipo de regra, cada música é um “universozinho”, uma forma mesmo de surgir. Eu gosto de sentar com o violão na mão, escrever e fazer melodia. Trabalhar um conjunto mesmo: os acordes, a harmonia, a melodia e a letra. É a forma que eu gosto, mas nem sempre é assim. Às vezes estou andando na rua e surge uma frase ou surge um tema, então eu anoto para falar depois. Às vezes nascem umas poesias que eu acabo musicando, às vezes nasce um riff que eu acabo encaixando uma ideia de letra no meio. Não tem muita regra.

O que acontece, às vezes, são várias músicas inspiradas em um tema só. As músicas do “Vão” [2014], por exemplo, eu compus umas duas ou três quando eu tinha lido William Blake, “As Núpcias Entre o Céu e o Inferno”. Acho que compus “A Ponte 2”, “O Verme Ama”, e “Bem ou Mal” inspiradas naquele livro. Quando eu li “Admirável Mundo Novo” também saiu algumas músicas. Então isso acontece: uma temática que se estende. Mas não tem uma fórmula não, deixo as coisas virem, as informações chegarem, as coisas que vejo na rua e as coisas que eu vivo.

Eu tenho muita dificuldade de finalizar as minhas músicas, cara. Eu tenho isso muito consciente para mim. Justamente por esse capricho de querer muito que as músicas digam algo para as pessoas. Eu tenho muitas músicas paradas, sei lá, mais ou menos prontas, mas não conseguir dar o xeque mate nelas, dizer que estão prontas, porque sempre tem uma coisinha, uma mensagem que não foi finalizada, uma mensagem que ainda não consegui transmitir em um verso bom. É muito doloroso compor [risadas], não é uma coisa fácil para mim que vai saindo e saindo. São fases também, né? Mas de uma forma geral eu demoro para finalizar as músicas com essa preocupação mesmo.

TG: Você define o seu trabalho como “rock esperto”. O que é “rock esperto”?

AP: Nem tudo o que escrevo é sobre mim, mas o lance do rock esperto é uma brincadeira que eu faço justamente por causa dessas letras que fazem pensar. Quando perguntam “toca o quê?” digo que “toco um rock esperto, que faz pensar”. O meu trabalho é bem fundamentado no rock, mas tem várias coisas que permeiam ele, como MPB, samba e essa “mistureba”, mas não tem como dizer que não é rock. Então rock esperto é uma forma de amaciar o rock também, porque eu sinto que quem não é do meio do rock e não conhece as suas diversas vertentes, quando escutam falar que é rock logo pensam no rock pauleira e se assusta por causa disso. Então, sei lá, rock esperto é uma forma amistosa e convidativa.

TG: O rock é um estilo que permeia todo o seu trabalho, mas você flerta com diversos outros gêneros musicais. Como essa mistura sonora impacta o seu trabalho e o processo de criação?

AP: Eu escuto muita coisa, não sou um cara que escuto rock o dia inteiro não. Eu simplesmente deixo as coisas me tocarem, não tenho muita limitação. Isso reflete na hora que eu vou compor, cada música me sugere alguma coisa. Às vezes nasce flertando com um samba, às vezes nasce com um suingue mais funkeado e tal… depois, quando eu vou finalizar o arranjo, que a cara dela aparece de vez, pois acontece de desconstruir tudo o que tinha feito. É uma liberdade total. Não me preocupo muito em ser rotulado não e isso é bom, acho bastante positivo. Se um artista tem suas ideias e suas intenções bem pensadas, o que vai ser é o que tem que ser.

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TG: O Espírito Santo possuí importantes nomes da música brasileira, como Roberto Carlos e Sérgio Sampaio. Como esses artistas te influenciaram culturalmente e musicalmente?

AP: Pois é, cara! Dois nomes fortes e que dão muito orgulho. Dentro da literatura e do teatro também têm nomes importantes, como Rubem Braga, que é de Cachoeira [do Itapemirim]. Roberto Carlos é um cara que eu cresci escutando muito diretamente, pois minha mãe sempre trabalhou em casa e foi muito radiofônica, de escutar o que vinha do rádio e sempre teve essa paixão forte com o Roberto Carlos, tinha CDs e tudo. Sempre gostei do Roberto também, de sintonizar na rádio pra escutar o iê iê iê. Não era uma coisa que minha mãe me colocava pra ouvir, ela colocava pra escutar e eu acabava ouvido quando jogava videogame. Gosto muito das músicas do Roberto dos anos 70.

Sérgio Sampaio já foi outra situação. Eu mesmo descobri com o tempo. Conheci o Sérgio, e já escutei outras pessoas contando que conheceram ele dessa forma, escutando o álbum do Raul Seixas “Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10”, que tinha Raul, Sérgio, Miriam Batucada e Edy Star. Conheci o Sérgio ali e fui descobrir que o cara era capixaba e que tinha um grande sucesso que era “Quero Botar o Meu Bloco na Rua”. Hoje sou fissurado pela obra dele, interpreto músicas dele e participo de projetos relacionados ao Sérgio. É um cara que, como conceito, me inspira muito. Gosto da forma como ele trabalha as temáticas dele, a forma permissiva ao estranho, ao feio, ao torto, ao sofrimento e isso me ajudou a moldar bem o conceito que eu usei no “Estranho Sútil” [2015], que é a beleza do feio. Na verdade, é uma constante que eu identifico em todas as minhas músicas, é uma forma como eu gosto de me expressar.

Mas, musicalmente, já não acho que tenha a ver. Seja eu e o Roberto ou eu e o Sérgio. Com o Sérgio é mais uma identificação poética mesmo.

TG: Ouvindo as suas músicas é possível encontrar semelhanças e influências da obra de Raul Seixas. Qual a importância desse artista para você e para o seu trabalho?

AP: Rapaz, o pessoal diz isso bastante, que a minha voz é parecida com a dele. Eu discordo, mas as pessoas identificam muito e, na verdade, faz sentido porque é um cara que me inspira muito e que eu ouvi muito a minha vida toda. É a minha primeira memória musical: meu pai botando o vinil do Raul para tocar em casa e eu sempre gostei muito. É um cara que faz isso que você disse que eu faço, que são letras muito fortes, que fazem pensar e que muitas vezes me fizeram pensar, refletir. É uma coisa que tento trazer para o meu trabalho.

Uma das coisas que eu acho muito massa na obra do Raul é essa coisa de ele não ser preso a nenhum gênero. Raul fez tango, rock, baião, samba, reggae… ele fez de tudo. Isso é muito maneiro! É uma coisa que tento trazer para o meu trabalho também, é um aprendizado. Não sei se sonoramente é uma coisa parecida, eu tendo a achar que não, mas, enfim, é isso aí.

TG: Como foi o processo de gravação do EP “Vão”? Como foi feita a seleção das músicas para esse álbum?

AP: Quando fui gravar o “Vão” já tinha quase todas as músicas do “Estranho Sutil” na manga. Quando surgiu a ideia de gravar o EP não quis usar as músicas do “Estranho Sutil”, ainda não era o momento delas, queria que elas fizessem uma obra toda, elas estão em outro universo que não era um EP. Para o “Vão” quis usar músicas que estavam em outro universo, na verdade estavam prontas apenas “Sol do Meu Violão” e “Bem ou Mal” e, na época, compus músicas novas especialmente para o “Vão”, que foram “A Ponte 2” e “O Verme Ama”, e usei o “Bem ou Mal” para fechar o universo entre elas. São arranjos basicamente do jeito que fazíamos nos shows, geralmente, quando vou ensaiar com os músicos, eu levo as músicas com os mapas já prontos, os arranjos semi-prontos também, mas acabam recebendo influências dos músicos, que colocam ali ideias.

Mas essa é uma característica do “Vão” que eu acho bacana, que as minhas ideias somadas às ideias dos músicos foram os arranjos que executamos na hora de gravar. Quase não teve edição de timbre depois de gravado, foi tudo bem cru e analógico e isso foi bem legal. Ele foi gravado pelo Expurgação, que é um coletivo daqui de Vitória, que até hoje são parceiros e foi a mesma galera que produziu o clipe de “Última Esperança” [música de Sérgio Sampaio gravada no álbum “Estranho Sutil”]. Quem gravou foram Alexandre Barcelos e Santiago Emanuel, mas eles não fizeram o papel de produção, que é mexer em arranjo e timbre, é como eu disse, chegou tudo bem pronto e foi assim que ficou. Foi bem na guerrilha, com poucos recursos e de uma forma coletiva bem maneira.

A ideia do “Vão” foi bem de transição. O meu trabalho já existia, já fazia shows e eu estava querendo virar uma chavinha do tipo “olhem para o meu trabalho, vou começar a lançar coisas”. Como era o primeiro EP então foi um vão de transição, considerei essa ideia. Uma transição entre uma gênesis de trabalho que as pessoas começavam a ver e uma material forte que eu estava preparando futuramente, que é o “Estranho Sutil”. O “Vão” é um conceito que o próprio EP trabalha no meio dele, que são músicas que tem de vez em quando um break de transição muito brusco para mudar de uma parada para outra, que fica um vão mesmo, tudo meio proposital, sabe? Aconteceu, senão nas quatro, na maioria. Existe essa característica nessas músicas do “Vão”, desse breque. Assim como “Sol do Meu Violão” é um vão dentro do EP, é um vão de descanso, pois o som começa quente, depois psicodélico e cai para esse descanso. Depois vem o “Bem ou Mal”, que é a última música e que fala da primeira música do “Estranho Sutil”, pois ela fala do dia “em que eu compus para você uma canção estranha e sutil”. Estou falando de “Inverso Ano Luz” nela.

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TG: Você também lançou o álbum “Estranho Sutil”. Como foi o processo de gravação desse disco?

AP: O “Estranho Sutil” foi totalmente diferente. Nós fizemos ele totalmente independente e pude gravar por meio de uma lei de incentivo daqui do Espírito Santo, a Secult, que permitiu que gravasse em um estúdio profissional, que foi a Torre INC. Aí passamos por um trabalho de pré-produção, de rearranjo das músicas, pois, mais uma vez, levei para o estúdio os arranjos pré-prontos, pois essa é uma característica minha de quando componho, mas acabamos trabalhando novamente em todas elas, no rearranjo. Eu e o Rodolfo Simor – que foi produtor do disco, é guitarrista e toca comigo – fizemos esse trabalho. Foi um processo longo e devemos ter ficado um ano ou mais no estúdio, trabalhando bem os timbres. Esse foi um aprendizado que eu tive com o Rodolfo, que foi trabalhar bem os timbres, de compensar melhor os timbres. O trabalho de pré-produção foi bem longo justamente para aprender a pensar quem é o André Prando que quero apresentar para as pessoas. Foi bem bom e o resultado bacana foi fruto desse processo de produção.

Uma das partes que eu mais gostava, além de encontrar os novos timbres e arranjos novos, era de fazer arranjos de vozes, que era um dever de casa que eu gostava de fazer. Pegava a gravação que tínhamos feito e trazia para casa para criar backing vocals e pirar nisso. É uma coisa que eu gosto de caprichar bastante.

TG: Quais as influências de “Estranho Sutil”? Qual o conceito desse álbum e porque a escolha desse nome?

AP: Cara, muito doido quando eu falo das inspirações ou influências de algum trabalho assim. Geralmente parece meio nada a ver porque sonoramente nunca soa parecido o que foi influência para mim. Na verdade, quando eu componho as coisas, não tento copiar sonoramente o que me influenciou, alguma coisa que me foi bagagem para aquilo. Foi só, sei lá, uma forma de concepção da coisa. As influências costumam ser assim para mim. Sonoramente acaba sendo de um jeito muito meu de criar, de fazer soar. Mas, enfim, eu lembro que na época do “Estranho Sutil” escutava muita música nova. Comecei a me permitir a escutar mais coisas. Em me lembro que foi a época que eu conheci o Clube da Esquina [movimento musical mineiro da década de 60]… e Raul, que sempre foi influência, e Alceu Valença, Sá, Rodrix e Guarabira, esses caras que são fortes para mim. Tem Beatles também, principalmente na questão das vozes. Esse lance de vozes eu tive muito aprendizado com os Beatles.

Outra coisa que eu estava escutando muito na época eram mantras meditativos. Eu tenho uma coisa de mantra em minhas músicas, uma forma repetitiva de trabalhar os refrões e os finais, que costumam ser mais apoteóticos, repetitivos.

Agora, o conceito do “Estranho Sutil” é isso que eu estava falando agora no começo, que é isso de enxergar as coisas, essa forma de tentar abordar as coisas, de mostrar outra perspectiva das coisas. É o que eu chamo de beleza do feio. Feio por que? Para quem? Eu tento inverter as coisas, mostrar um rosto mais receptivo das coisas, mais crítico também, o lado bom das coisas (risadas). Uma percepção, como dizem, não é um olhar inocente, estou falando da capa do disco, que é isso de a criança ter um terceiro olho, a criança tem bastante sinceridade: de opinar, de perguntar, de afirmar… isso é uma forma muito real de enxergar as coisas, às vezes desligadas de preconceito. E tem a ver com essa abordagem por outras perspectivas, de desconstruir os temas. O “Estranho Sutil” é isso!

Eu considero que são músicas, nem sempre de fácil compreensão, mas de fácil aceitação e fácil identificação, assim, sonoramente mesmo. Mas sempre tem um toque estranho ali na forma de dizer, na poética, na intenção. Sutil, sabe? Acho que é daí que vem estranho sutil, da forma lúdica de trabalhar as doideiras para quem não está muito acostumado a se permitir a elas, sabe?

TG: Quais as diferenças do que foi feito em “Vão” e do que foi feito em “Estranho Sutil”?

AP: Recursos foram as primeiras coisas. O “Vão” nós gravamos no estúdio do próprio coletivo, com equipamentos de home studio, mas equipamentos de qualidade, e gravamos tudo de forma bem crua, com a banda concebendo os arranjos e tal. O “Estranho Sutil” eu gravei por meio de grana que veio pela lei de incentivo, que me permitiu gravar em um estúdio profissional, com opção de usar diferentes equipamentos para executar e gravar e trabalhei com um produtor musical mesmo, que foi o Rodolfo [Simor], rearranjando as músicas, passando por um processo de pré-produção para conceber o disco e as músicas. Basicamente é essa a diferença. E sem contar a diferença de conceito dos discos e já contei um pouco da conexão dos discos, como um introduz ao outro. Eles são diferentes, mas são muito bem casadinhos.

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TG: Para você o que é ser um artista independente?

AP: É uma pergunta que eu não tenho uma resposta absoluta, mas, sei lá, em suma mesmo o artista independente é aquele artista que não tem uma ligação com uma gravadora, um selo, não tem contrato com ninguém. Eu me encaixo nesse perfil, não por falta de interesse, mas por falta de acaso mesmo. Não encontrei ninguém e ninguém me encontrou ainda.

Mas isso me dá uma liberdade para criar o meu trabalho de uma forma autêntica, é tudo muito meu mesmo. Então quando eu vier a ter contato com um selo ou gravadora, o meu trabalho já vai tá muito bem fundamentado, acredito. Isso pode ser um aspecto positivo para um artista independente que investe bem na sua carreira.

Eu vivo hoje só da minha música mesmo, então é uma coisa que respiro e vivo diariamente. E tem sido bom apesar das dificuldades para circular, para levar o meu show para fora. Essa é a principal dificuldade: a locomoção para outros lugares. Apesar dessas dificuldades de ser underground e independente, que são muitas, o lado bom é essa liberdade para trabalhar a obra como eu penso, essa liberdade para ter contato com quem eu quiser, de dar entrevista quando eu quiser e, sei lá, aparecer como eu quiser. Cabe a mim a trabalhar bem isso também. É um trampo que é pleno, que eu consigo fazer e me sentir feliz.

TG: Quais os desafios da cena independente e da produção autoral?

AP: Rapaz, são muitos os desafios. Uma das coisas é a dificuldade de as pessoas terem acesso ao nosso trabalho porque se em uma cidade não tem uma rádio que tem o costume de tocar trabalhos de artistas independentes ou sem precisar pagar um jabá nos resta, hoje, a rua, os nossos shows e a internet. E nessa é muita gente que não consegue ter acesso, são pessoas desinformadas que acha que não se produz coisas boas ou que o rock morreu.

Na verdade, tem muita coisa boa sendo produzida e muito dessas coisas boas estão no underground. Tem muita coisa boa sendo produzida de forma independente mesmo. Além disso, que é a dificuldade de acesso, tem também a dificuldade para circular, de locomoção. Não que seja um empecilho, mas é uma dificuldade, e acaba que nós temos que bolar outras estratégias, como mini turnês, pois não dá para você sair da sua cidade, do seu estado e fazer só um show. A boa é marcar outros shows na redondeza, enfim, são as alternativas.

Ainda tem o número restrito de casas que abrem espaço para o trabalho autoral. Muitos produtores têm em mente que cover e os tributos que vão encher a casa. Às vezes é mesmo, mas aí depende de cada lugar fazer a sua própria cena, de educar o seu povo de alguma forma. Aqui em Vitória nós temos bons exemplos de lugares que trabalham o autoral somente e ficam reconhecidos por isso e dão certo. As pessoas sabem que naquele local exato sempre vai ter shows autorais, então tem um público que vai sempre ali.

Mas são poucos os lugares que se dedicam ao autoral aqui em Vitória. Mas é uma realidade que a gente percebe em outras cidades e estados. Nós vamos para essas cidades e acabamos conversando sobre isso e percebemos que essa é uma realidade de diversos locais. Cada um com a sua cena, mas essa é a realidade: casas para trabalhos autorais são restritas.

Mas dá mesma forma que são muitas as dificuldades, são vários os pontos positivos, como a liberdade de ser independente e a plenitude de se fazer o seu trabalho com a sua verdade e a sua essência. Penso assim! Sempre melhor olhar os pontos positivos!

TG: Para finalizar, como você avalia a cena musical capixaba e quais artistas dessa cena têm se destacado?

AP: Eu costumo dizer que a cena não se faz só com casting de artistas ou só de público articulado, mas da junção das duas coisas. Quem são os artistas, o que eles têm a oferecer, como eles são unidos, como eles se articulam e como o público se organiza também, se frequentam ou não… a cena funciona de uma forma conjunta.

Cara, Vitória é uma capital pequena, nós temos 300 mil habitantes aqui, mas é uma cidade que não tem o hábito de consumir a sua própria cultura. É o que eu acho e observo. Bem diferente do que você encontra em BH [Belo Horizonte] e outros lugares de Minas [Gerais] que você vai, pois eles têm a cultura própria da música mineira, do Clube da Esquina, essa coisa saudosista positiva deles. É uma coisa que eu sinto falta aqui.

Mas eu vejo que o público tem se educado um pouco, entendido melhor quem são os artistas da própria terra. Não uma questão de quais são as características da música daqui, não sei se tem uma necessidade disso, mas uma coisa de conhecer quem são os nossos artistas mesmo. Isso em um nicho de quem consome cultura, pois se fomos falarmos de massa não vamos conseguir construir um panorama sobre cena, já que a massa não consome cultura.

Mas aqui tem uns caras bacanas. Podemos dizer que de bandas importantes temos o Muddy Brothers, Fê Paschoal, My Magical Glowing Lens, Rabuja. São alguns nomes de trabalhos que eu gosto e acompanho. Legal é que de um tempo para cá a galera tem se profissionalizado mais e investido melhor no próprio trabalho.

Escute o álbum “Estranho Sutil”:

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