A arte negra desenvolveu a cultura brasileira

O Brasil se desenvolveu culturalmente com a influência de vários povos, como os indígenas, europeus, asiáticos e os africanos. Estes últimos, principalmente, têm um peso enorme no desenvolvimento da cultura que é praticada em nosso país. A sua influência é bastante perceptível nas mais diversas expressões artísticas, o que permitiu ao brasileiro criar manifestações únicas e de enorme beleza.

É de se espantar que ao chegarmos em mais um 20 de novembro, data em que se celebra o Dia da Consciência Negra, que o Brasil ainda precisa reconhecer a importância do negro para a nossa sociedade. Apesar da influência desse povo para a nossa construção histórico-social, ainda temos um país marcado pelo olhar preconceituoso e discriminatório.

E essa situação só reforça a necessidade de que o direito do negro precisa ser discutido e a sua importância reconhecida. Mais do que celebrar a data, o Dia da Consciência Negra é um momento de reflexão – e de promoção de mudanças. Algumas já perceptíveis nos movimentos culturais recentes e que vem se espalhando pelo país.

Para o produtor cultural itabirano Cléber Camargo, que está à frente dos projetos Meninos de Minas e do Cabelos Crespos e Cacheados – Encontro Itabirano, que terá a sua segunda edição em dezembro, o negro hoje vive um momento de autoestima e autoafirmação, principalmente em se movimentar para romper com padrões pré-estabelecidos e reforçar a sua identidade cultural.

“Eu vejo a felicidade das pessoas de não ter que ficar ali preso a um determinado padrão estético. As roupas, o cabelo, o jeito de andar… cada vez mais vejo pessoas assim. Com a autoafirmação, a autoestima lá no topo mesmo. Se já tinha, hoje está bem mais”, reflete Cléber Camargo.

E essas mudanças que vem ganhando força partem das lutas históricas dos movimentos negros. As barreiras vêm sendo quebradas na marra e os espaços conquistados graças a união das pessoas que dão volume a essa causa e contribuem para o fortalecimento da cultura afro. O resultado é sentido com o crescimento de movimentos que tem a matriz africana em sua base, como o samba, pagode, axé, rap, batucadas e diversas outras manifestações culturais.

“Alguns espaços foram abertos porque não tinha como não abrir. É uma coisa muito forte e está vindo um monte de gente junto, então acaba que isso, além da qualidade que já tem, cria volume. Se você pesquisar vai ver que está pipocando diversos eventos no Brasil e eu nunca vi isso em outro momento”, ressalta Cléber Camargo.

Em outros momentos o Brasil viu o surgimento de movimentos que vieram puxados pela cultura negra. De Minas Gerais teve o Clube da Esquina – sem contar as tradições populares como as guardas de marujo e o congado –, da Bahia a Tropicália, que rapidamente ganhou o país, e do Rio de Janeiro aparece o samba e bossa nova, esta última surge com Jhonny Alf, mas acaba por ser dominada por artistas brancos.

Porém, esses movimentos aconteceram de maneira mais isolada, apesar de terem grande importância para a afirmação da cultura negra. Mais recentemente, o Nordeste volta a ter papel relevante dentro desse cenário. A Bahia, devido à sua história, tem influência bem forte da cultura afro e isso transborda para as produções artísticas locais, seja no jazz, na MPB, no rock e no axé.

Pernambuco mostra também o poder da matriz africana na música. Com o Mangue Beat, que dá protagonismo aos tambores, o cenário local mudou e ainda transformou o Brasil. E isso de uma terra que conta com artistas do calibre de Alceu Valença, Naná Vasconcelos, Lenine e Siba. Para Cléber Camargo essa força cultural se dá pela capacidade do negro e da cultura afro de transmitir a verdade da realidade em que vive e isso dá uma conotação especial e única para essas manifestações.

“Você analisa o que a Bahia fez com a música, cultura e turismo do Estado por meio da verdade deles, seja jazz, que é forte, o rock do Raul Seixas, a bossa nova do João Gilberto, que ninguém lembra que é baiano, com a MPB do Caetano, Gil, Gal e Bethânia, com Axé do É o Tchan, que alavancou um monte de gente e trabalho, e saem de lá com a cultura deles garantida, seja com os moradores ou com os turistas que vão lá”, analisa Cléber Camargo.

“A mesma coisa acontece com a música de Pernambuco. O movimento que nasceu lá, e que partiu principalmente do Chico Science, e fez todo mundo ir nisso. E você não pode esquecer que lá tem o Alceu, Naná Vasconcelos, Lenine, Siba e um monte de outras pessoas. Mas na hora que eles beberam na fonte, na matriz africana, ninguém mais segurou. Em qualquer lugar do mundo que eles chegam, eles arrebentam”, completa.

Essas construções culturais demonstram que a base do que se tem feito no Brasil na cultura vem da matriz africana, que tem contribuído para abrir mais espaço para o negro e para o aparecimento de um número maior de movimentos. O trabalho deve continuar de modo a gerar oportunidades, consolidar esse espaço e permitir que essas atividades artísticas gerem também um modo contínuo de desenvolvimento econômico, turístico e social.

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