Pensamentos que passeiam pelas cordas do violão

A música folk passa a ter grande destaque a partir dos anos 1960 e, desde então, vem reunindo fãs em todo o globo. Naquele período, esse estilo musical se tornou o mecanismo de expressão de toda uma geração – seja na discussão de temas sociais ou de manifestações culturais. Já não vivemos mais os anos 60 e as inquietações da juventude são outras, mas alguns dos meios para se expressar ainda se assemelham aos do passado e, entre eles, o folk persiste.

E a necessidade de se expressar sempre será inerente ao ser humano. Algumas coisas simplesmente precisam ser colocadas para fora: nas palavras jogadas em uma folha em branco, nos cliques pelas ruas, nas tintas jogadas na tela ou pela mão que dedilha um violão. É na união de algumas dessas manifestações que a banda itabirana Poison or Medicine dá vazão aos seus sentimentos.

As angústias diárias e as ponderações sobre a vida e a sociedade passeiam pelos versos do grupo, que fornece a esses temas uma base sonora composta por voz e violão – muitas vezes acompanhados de contrabaixo e bateria. Uma combinação que remete ao melhor do folk e de alguns dos seus subgêneros, como o folk punk e o folk rock.

Criado em março de 2015 pelo músico João Jardel, Poison or Medicine não se atém a uma formação fixa, o que permite uma variedade maior de estruturas sonoras e composição de shows. Em determinado momento é possível encontrar apresentações com uma banda, mas em outras ocasiões a estrutura pode ser apenas a voz e violão de João Jardel – o que reforça o caráter intimista do Poison or Medicine.

Atualmente, a formação mais completa da banda conta ainda com a participação de André Luiz na bateria e de Liniker Moura no baixo. E, apesar de uma história recente, o grupo já conta com dois EPs autorais gravados: “A Place Where I Belong” e “Loser are Going to Die Alone”. Esses dois trabalhos foram pensados e concebidos em 2015.

Um fim e um começoPoison_or_Medicine_02
Antes de fundar o Poison or Medicine, João Jardel integrou a também itabirana Curved. Criada em 2004, essa banda nasce com uma proposta de apresentar canções covers, mas em pouco tempo desiste da ideia e parte para os trabalhos autorais. É o início de uma trajetória dedicada ao
fortalecimento do cenário de músicas autorais na cidade.

João Jardel, Juliano Jubão, Diogo Veloso e Thales Simon estiveram à frente da Curved durante 10 anos, mas em 2014 decidiram interromper os trabalhos do grupo. As diferenças criativas e o desgaste causado pelos anos juntos começavam a prejudicar a atuação da banda. Assim, com o intuito de manter a amizade, os músicos decidiram partir para os seus projetos pessoais.

“Jubão fala uma coisa que é verdade: ‘banda é casamento sem sexo’. Chega uma hora que as diferenças começam a pesar muito e não é todo mundo que está disposto a abrir mão e a gente achou melhor manter a amizade do que manter a banda. Então, a banda está parada, não sei dizer se acabou, porque optamos por manter a amizade e não a banda, que já estava causando desgaste”, explica João Jardel.

Ainda assim existe a possibilidade de que em 2016 a Curved se reúna e entre no estúdio para fazer um registro de algumas canções que estão guardadas. A ideia é produzir um EP. “A gente tem muito material parado, guardado, e pensamos em gravar e lançar só para ter esse registro mesmo”, adianta João Jardel.

Esse processo foi determinante para que o Poison or Medicine nascesse. Em 2015, João Jardel, enquanto se distraía com o violão, acabou compondo uma música, “A Song About the Lies and the Stories I’ve Told”, com uma pegada folk. A nova experiência acabou agradando e logo outras canções foram compostas.

É desse grupo de músicas que nasce o projeto Poison or Medicine, que teve o seu nome inspirado a partir da canção “The Difference Between Medicine and Poison is the Dose”, da banda norte-americana CircaSurvive, e que remete a um momento de perdas e frustrações vividas por João Jardel.

“O Poison é um projeto experimental, bem ocasional. Um dia comecei a tocar e acabou saindo uma música folk. Nunca tinha tocado folk, era mais guitarra e distorção, e nessa brincadeira tivemos a oportunidade de gravar com o Policarpo (Ribeiro). Acabou saindo uma coisa bem intimista e que demonstrou bem aquele momento”, lembra João Jardel.

No estúdio?
Poison_or_Medicine_03O primeiro EP, “A Place Where I Belong”, foi gravado em março de 2015 na casa do produtor musical Policarpo Ribeiro. Sem contar com uma estrutura profissional durante a gravação, o álbum é finalizado com três músicas – “I Have Never Ever Suffered for Love Before”, “Foolish Reedemption” e “A Song About the Lies and The Stories I’ve Told” – e ganha um caráter intimista que vem acompanhando o Poison or Medicine. O lançamento foi em abril do mesmo ano.

Mesmo após gravar o primeiro EP, João Jardel deu continuidade à fase criativa do seu projeto, e já em maio começa a produção do segundo disco. Com o nome de “Losers are Going to Die Alone”, o disco também possui três gravações próprias: “Funeral”, “Hippies, Dancers and Drama” e “April 14th”. Esse trabalho é apontado como uma continuação do EP anterior e, dessa vez, contou com uma produção profissional, que ficou a cargo de Policarpo Ribeiro no Studio 7. O álbum chegou ao público em julho de 2015.

Uma das características marcantes do Poison or Medicine são as composições em inglês. Isso acontece porque João Jardel tem grande influência de bandas estrangeiras, o que torna o processo de composição em outra língua mais fácil. “Fico mais à vontade. Tenho a sensação de ter menos peso e responsabilidade”, explica João Jardel.

Cena independente
Presente na cena autoral de Itabira, a Poison or Medicine enfrenta os mesmos desafios que outros grupos que produzem músicas originais: a falta de espaço para apresentar os seus trabalhos. Casas de shows priorizam bandas que tocam cover na tentativa de agradar um público que, em sua maioria, é pouco disposto a sair de casa para conhecer artistas com canções próprias.

Nesse sentido, a mudança de cenário acontece pela união das bandas independentes, que buscam na cena underground o espaço para que possam apresentar os seus trabalhos. Em Itabira, o coletivo Filhos de um Poeta Morto, do qual João Jardel faz parte e conta com os também músicos Igor Venal, Van Basten Moura e Rodrigo Rodrigues “Peso”, além do poeta Pedro Macieira, começa a desenvolver ações nesse sentido.

“É um embrião de uma coisa que vai ser muito maior e que de repente a gente nem vai viver isso. Às vezes a gente vai plantar uma semente pra que outras coisas venham lá na frente. Às vezes não é pro Poison que vai ser essa cena, pro Postura ou pra Venal, mas para outras bandas, para as pessoas que forem aos shows e verem que a cena funciona e que tem bandas novas fazendo músicas de qualidade”, defende João Jardel.

Conheça mais:
Página no Facebook: https://www.facebook.com/psmdfolk/
Site: https://poisonormedicine.bandcamp.com/releases

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.