2º Festival Unificado da Consciência Negra de João Monlevade une referências tradicionais e contemporâneas

O Festival Unificado da Consciência Negra, criado em João Monlevade, Minas Gerais, em 2019 por diversas entidades, grupos e produtores culturais, chega à segunda edição. Este ano, os organizadores definiram o tema “Tecnologias Negras, Territórios Múltiplos” para nortear os eventos e prestam homenagens póstumas a duas personalidades negras: Nilza Roberto, matriarca da família Roberto, rica em artistas e referência na cidade e na região, e ao músico paulista Itamar Assumpção.

A programação, ainda não integralmente fechada, terá abertura oficial em 20 de Novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, na Cervejaria Catalã, às 20 horas. No local, haverá lançamento de videoclipes e show presencial da dupla Dandá (antes conhecida como Dan e Duca) com participação especial da cantora Norma de Jesus.

O encerramento está programado para o dia 19 de dezembro, com dois shows: de Rômulo Rás e o “Iê Iê Iê Ijexá” do grupo 4 por 4 (Lauzin Santos, violão; Heráclio, percussão; Felipe, flauta; e Márcia Fonseca, voz). As demais ações serão em sua maioria online, em razão da pandemia da Covid-19..

As articulações este ano vão chegar até a África: já está acertada, embora com data ainda a definir, uma entrevista online com a nigeriana Adama Njoku, que, direto da Nigéria, falará sobre tradições culturais de seu país. Ela é amiga de integrantes do Coral Família Alcântara e morou no Brasil por alguns anos.

Prévios

Haverá também eventos prévios. Na quarta-feira, 11 de novembro, o jornalista, fotógrafo e letrista de música monlevadense Wir Caetano dá entrevista ao vivo à diretora teatral, atriz e poeta Iara Roccha, de Petrópolis (RJ). Ela conversa com poetas brasileiros negros ao longo deste mês como parte de seu projeto “Quarentena com os(as) poetas”. A petropolense vive desde o ano passado na Argentina, para onde se mudou para desenvolver uma pesquisa em linguagens artísticas.

Na quinta, 12, o coletivo Salve Pretitude, um dos organizadores do Festival, realiza, em seu perfil no Instagram, às 19h30, live com candidatas negras à Câmara de Vereadores.

Sentido ampliado

Segundo os organizadores, em texto no site do Festival, o tema escolhido para esta edição “toca em questões fundamentais para nossa sociedade”, e embora, para o senso comum, hoje o termo “tecnologia” praticamente se confunda com o mundo digital, é necessário explorar um sentido.

Recorrendo ao pensamento do músico e filósofo baiano Tinganá Santana, defendem que “também práticas e saberes ancestrais, inclusive línguas das mais distintas culturas, são dispositivos técnicos, tecnologias”. E complementam: “assim, há tecnologias negras, tecnologias indígenas, ricos e complexos etnosaberes”.

Já na justificativa dos nomes escolhidos para homenagem, os organizadores dizem que as personalidades escolhidas “intercruzam tradição e cultura contemporânea”.

Nilza Roberto (1932-2016) irmã mais velha da cantora Neide Roberto (1943-2009) e tia do músico Rômulo Rás e do artista plástico José Ricardo, foi a primeira secretária do Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade (Sindmon-Metal), desde sua criação, em 1951. Ela estava na sede entidade quando houve intervenção do governo militar, em 1964, com prisão de dirigentes sindicais.

O outro homenageado, Itamar Assumpção (1943-2009), foi um dos representantes da chamada “vanguarda paulista”, movimento de artistas que agitaram a cena musical de São Paulo, capital, na primeira metade dos anos 1980. Eles misturavam elementos populares com experimentos de música erudita contemporânea. Este ano foram colocados em plataformas de streaming todos os 12 discos do artista, como parte das celebrações de seus 70 anos, que ele completaria em 2019.

União

O Festival Unificado da Consciência Negra é uma realização da Associação Cultural de João Monlevade (Congado São João Evangelista), Associação Cultural Navio Negreiro (Anan), Associação Monlevadense de Afrodescendentes (Amad), Pastoral Afro Montfortina, coletivo Salve Pretitude, Projeto Saberes Urbanos (professores e alunos da Uemg), Sindicato dos Metalúrgicos de João Monlevade (Sindmon-Metal) e dos produtores culturais Andrea Abade (da Gata na Tuba Cultural) e Wir Caetano (da Dabliê Texto Imagem e da FAMA – fábrica monlevade de artes).

Ao ser idealizado, no ano passado, o objetivo principal foi dar mais visibilidade a ações que eram realizadas de forma isolada por entidades. Essa articulação é entendida pelos organizadores como fundamental para celebrar o Mês da Consciência Negra e combater o racismo no país.

Informações sobre os eventos podem ser encontradas no blog do festival ou no Instagram.

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