Cine Humberto Mauro, em Belo Horizonte, celebra 40 anos de trajetória com recorde de público

Na década de 1970, bem antes do surgimento de exibições de cinema em formatos digitais como DVD, streaming e download, cinéfilos de Belo Horizonte costumavam se reunir no Grande Teatro do Palácio das Artes, espaço do Governo de Minas Gerais, gerido pela Fundação Clóvis Salgado (FCS), onde um projetor exibia filmes esquecidos pelo circuito comercial, com sessões regulares aos sábados e domingos.

Um dos mais tradicionais cinemas de Belo Horizonte, o Cine Humberto Mauro, que celebra seus 40 anos com o orgulho de ter se tornado referência em cinema na capital mineira, nasceu assim. Inaugurado oficialmente em 15 de outubro de 1978, seu nome homenageia um dos pioneiros do cinema brasileiro, o mineiro de Cataguases Humberto Mauro (1897-1983), grande realizador cinematográfico no período de 1925 a 1974.

Após inúmeras reformas e adaptações, atualmente a sala de cinema localiza-se em frente à Galeria Genesco Murta e ao lado do Café do Palácio. Com 129 lugares, sua tecnologia foi modernizada com a aquisição de equipamentos de som dolby digital e para exibição de filmes em 3D e 4K. Todas as atividades do Cine Humberto Mauro são gratuitas.

Nestes quase 40 anos de existência, a Fundação Clóvis Salgado tem investido na consolidação do espaço como um local de formação de novos públicos a partir de programação diversificada, bem como a criação de mecanismos de estímulo à produção audiovisual com a realização do tradicional Festival Internacional de Curtas de Belo Horizonte – FestCurtasBH, e o Prêmio Estímulo ao Curta-metragem de Baixo Orçamento.

“O Cine Humberto Mauro é uma sala de exibição que consegue reunir e agregar uma diversidade de público muito grande e coloca o espectador em condição de refletir sobre o cinema local e mundial graças à intensa programação nestes 40 anos. Com uma visão descentralizada do cinema, é um espaço com acesso gratuito e acessível ao cinema de diversas nacionalidades e diversos diretores”, Bruno Hilário, gerente e curador de cinema da FCS.

A seleção das mostras privilegia a história de consagrados diretores como Tarkovsky, Alfred Hitchcock, Ingmar Bergman e Quentin Tarantino, entre outros. Gêneros distintos do cinema, como terror, comédia e ficção científica, destaques da programação, também têm atraído público numeroso.

O Cine Humberto Mauro também é um importante difusor do conhecimento ao promover cursos, seminários, debates e palestras. Sessões permanentes e comentadas também têm espaço cativo a partir das mostras Cineclube Francófono e Cinema e Psicanálise.

“É interessante ver como a sala surgiu do diálogo com a sociedade civil e com a cinefilia de BH, que demandaram do poder público o espaço e as condições para exibição de obras que não têm caráter comercial, a priori, e de filmes com intenções mais artísticas”, afirma o frequentador André Gati.

Somente em 2017, mais de 71,4 mil pessoas frequentaram o Cine Humberto Mauro para conferir as 29 mostras – 21 delas promovidas pela fundação e oito por produtores externos. “Registramos recordes de frequência em 2017. Fica o convite para as pessoas abraçarem esse espaço para continuar construindo um lugar de arte e cultura que é referência em todo estado”, reitera o gerente Bruno Hilário.

História e cinefilia

O projecionista mais antigo, com 36 anos de casa e 72 de vida, Mercídio Alvinho Scarpelli, celebra a existência do cinema com bom humor e histórias. “No Cine Humberto Mauro usamos a película 16 ou 35mm, então você tem que desmontar e saber se o filme está ao contrário, senão dá zebra na tela”, conta o também cinéfilo “Cid”, como ficou apelidado no local.

Ele conta como é inusitado o dia a dia de um cinema histórico, que exibe em película. “Teve uma vez, eu estava exibindo um filme com carretéis enormes e passávamos de rolinho para rolinho quando, de repente, deu um chapisco nas imagens e chegou um senhor perguntando se eu estava roubando o filme. Aí passei apertado para explicar para ele o trabalho. Tem que saber montar, mas nós já estamos acostumados com isso”, conta.

Segundo Mercídio, como a cabine tem vidros dá para ver o público saindo de dentro da sala, fazendo caras diferentes, dependendo do filme. “É interessante ver a reação do público, me sinto parte desse universo. Eu saio daqui às 23h e muitas vezes ainda vou assistir filme, é um vício que eu adquiri, me considero um cinéfilo também, então entendo porque o público vem tanto no Cine Humberto Mauro. Temos filmes maravilhosos e todos gratuitos, é um espaço cheio de magia, é uma alegria trabalhar em um lugar especial, com público tão diversificado”, completa.

Celebrando 

Para dar início às comemorações do 40º aniversário do Cine Humberto Mauro, a Fundação Clóvis Salgado resgatou a trajetória do ator e diretor norte-americano Buster Keaton (1895-1966), vanguarda na comédia e referência do cinema mudo.

O auge da carreira de Buster Keaton se deu nos anos 1920, quando Chaplin também despontava. Na era do cinema mudo, o ator e diretor se notabilizou pela expressão facial imutavelmente séria, mesmo diante das maiores trapalhadas que seus roteiros cômicos traziam. Essa característica fez com que Keaton se tornasse conhecido como “O cara de pedra” e “O homem que nunca ri”.

Iniciar a comemoração dos 40 anos da sala com o Buster Keaton é, basicamente, retomar a origem da sétima arte, diz Hilário.

“Ele tem um caráter muito popular, é um dos personagens mais carismáticos do cinema mundial e da comédia, o único que se compara ao Carlitos (Charles Chaplin). Queremos evidenciar o caráter de cinema de repertório que o Cine Humberto Mauro sempre adotou”, explica.

O curador lembra que serão utilizadas algumas cópias restauradas em DCP trazidas dos Estados Unidos.

Com 27 longas e 24 curtas-metragens, a seleção foi feita para a mostra, realizada até o dia 29 de março, incluindo os clássicos Marinheiro de Encomenda (1928), O Homem das Novidades (1928) e Nossa Hospitalidade (1924). “A proposta é trazer reflexões sobre a própria história do cinema”, afirma Hilário.

A seleção inclui filmes dirigidos, estrelados e influenciados pelo americano, além de produções que dialogam com seu legado.

Um grand finale ocorreu no encerramento da mostra, dia 29 de março, no Grande Teatro do Palácio das Artes. O público lotou a sessão de comédia para ver The Railrodder (1965), dirigido por Gerald Potterton e lançado um ano antes da morte de Keaton, protagonista do curta. Para a ocasião especial a trilha sonora foi composta por André Brant e executada ao vivo por músicos do Centro de Formação Artística e Tecnológica do Palácio das Artes (Cefart). Em seguida, foi exibido A General.

A Fundação Clóvis Salgado planeja outras mostras e festivais para comemorar os 40 anos do Cine Humberto Mauro, mas a agenda ainda não está fechada.

Fundação Clóvis Salgado

O caráter democrático da diversidade das manifestações artísticas acolhidas pelo Palácio das Artes, localizado no centro de Belo Horizonte, coloca em destaque a singularidade do seu espaço que reúne, num mesmo endereço, importantes equipamentos culturais como o Grande Teatro do Palácio das Artes, Teatro João Ceschiatti, Sala Juvenal Dias, Cine Humberto Mauro, Grande Galeria Alberto da Veiga Guignard, Galeria Genesco Murta, Galeria Arlinda Corrêa Lima, Galeria Mari’Stella Tristão, Midiateca João Etienne Filho e o Centro de Formação Artística e Tecnológica – Cefart.

Nesse ambiente convivem diariamente maestros, diretores artísticos, cineastas, artistas de teatro, dança, música e artes visuais, curadores, produtores, gestores, pesquisadores e estudantes de arte, oferecendo ambiência ímpar aos interessados em todos os passos do fazer artístico.

SERVIÇO

Cine Humerto Mauro – Palácio das Artes – Fundação Clóvis Salgado
Avenida Afonso Pena, 1.537, Centro, (31) 3236-7400. Até 29 de março. Entrada franca. Programação completa: www.fcs.mg.gov.br.

*Com informações da Agência Minas.

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