Uma multidão de vozes sem eco

Alguma coisa para se pensar a cada dois anos. Pra uns, chatice. Pra outros, discussão. Há quem tome gosto. E aqueles que juram só ver desgosto. É, sem dúvida, debate. E como todo bom debate deve ser, divide opiniões. Ao contrário deste artigo não é um jogo de palavras. Mas com certeza é um jogo – de ideias, pensamentos, poder e marketing. E não poderia ser menos quando o assunto tratado influencia no cotidiano de tanta gente.

Estruturado em um modelo que impõe disputas na urna a cada dois anos – ora nas esferas estaduais e federal, ora na municipal –, o sistema político brasileiro nunca esteve tanto em evidência. Talvez não pelos motivos corretos, que tratariam de maneira mais profunda toda a sua estrutura, mas justamente pela falta de objetividade dentro das discussões. Sejam as que são feitas pela sociedade civil, ou os temas abordados pela imprensa e até mesmo os joguetes vindos dos plenários.

A internet já assumiu um papel de destaque em nossa sociedade. A sua importância é inegável. Inclusive tem trabalhado, mesmo sem ter esse objetivo, de forma a escancarar uma série de problemas inerentes a essa sociedade. Não digo apenas dos discursos vazios ou as tentativas de esvaziar diálogos importantes. Mas sim a insistente demonstração do que há de pior: ódio, preconceito, falta de respeito… e por aí vai. Aos montes e em um monte de páginas.

Parte disso é observado nas discussões políticas que se limitam ao bipartidarismo e que insistem em colocar em evidência dois atores centrais travestidos de siglas – PT e PSDB. Sempre se esquecendo de que mais gente está em campo e jogando. Evidentemente, essa limitação do debate também criará uma restrição em qualquer conversa. Que como já sabemos se limita, em muitos casos, em esquerda x direita, rico x pobre, social x mercado, trabalhador x empresário e assim por diante.

Sempre se limitando a dois temas tidos como conflitantes, mas sem nunca conseguir ir além. Entender o que cada termo desses realmente significa, como impactam a sociedade, como se dá o diálogo entre eles e, principalmente, sem uma reflexão de como pode se trabalhar esses e tantos outros assuntos de maneira a promover algum ganho social. Não que isso seja difícil, mas sim por haver falta de vontade.

E isso acontece por uma tremenda falha cultural. A política, assim como diversas outras coisas, é uma manifestação cultural. E o seu entendimento está atrelado às formas como historicamente foi feita e os contextos que levaram à sua mudança, seja nos debates ou em sua estrutura, através dos tempos. Entender o porquê de as discussões políticas no país terem caído a níveis tão baixos, ao mesmo tempo em que existe um descontentamento crescente com a classe política, não é tarefa fácil.

Talvez pela sucessão de mal fadados governos, que distanciaram as pessoas dos debates políticos no país; talvez pelo pouco acesso à educação, e menos ainda a educação de qualidade; ou talvez pela cobertura parcial e manipuladora de parte da grande imprensa. São muitos “talvez” que precisam ser debatidos – e com urgência.

Debate que precisa de um espaço muito maior do que uma simples coluna. E, antes de pensarmos só em política, busquemos pensar mais em cultura, esse “pequeno” fenômeno social que está intimamente ligado à evolução e estruturação de um povo. E ao qual precisamos dedicar um pouco mais de atenção.

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.