LÍRICA IMPETUOSA: TOC de Passagem

Tinha um troço com os livros que, acredito, muita gente deva ter e, hoje, confesso, detesto que isso exista. Coisa estranha e metódica, neurótica, até psicótica (adoro os exageros, não reparem!). Na verdade, na minha concepção, todo metodismo é psicótico. Mas o meu era algo de deixar os livros quietos, como deviam ficar: intocáveis. Comprá-los, lê-los, absorvê-los, relê-los se necessário e encostá-los em seu devido lugar: a estante. Essa era a regra. E lá deviam fica para sempre, sem mexer. E se o fosse só eu poderia fazê-lo. Retirar um livro do seu devido lugar era, para mim, quase uma cirurgia necessária no último caso, quando nada mais se podia fazer para salvar a situação. Exigia-se cautela e dezenas de perguntas que pré-determinariam a total importância para o qual aquele exemplar deveria sair da estante. Era quase que um ideal ditatorial de possessão sobre todo aquele conhecimento.

O que era pior do que tudo isso? Claro, exemplares em ordem alfabética. Nada de mais, facinho para encontrá-los, já que são tantos. Mas, o que era pior: por ordem alfabética de Editora por Editora. Está bem, já entendemos, mas tem coisa pior? Tem: por ordem de tamanho na altura e na espessura da lombada, assim como pela profundidade que o exemplar ocuparia na estante. Pronto, falei! Isso é a mais pura paranoia que nem a mais organizada das bibliotecas compreenderia. Então, você ainda espera pelo pior? Cadernos e cadernos onde se encontravam anotados o nome de cada escritor e seus livros correspondentes, tradutores, distribuidores, impressores, ilustradores, programadores visuais, data de escrita, lançamento, nacionalidade, reedições etc. Sim… Eu tinha disso também. Até o dia que eu dei um basta geral depois de um roubo imensurável na minha biblioteca de quase dez mil livros e revistas e jornais e periódicos. Doei mais um bocado para outras bibliotecas públicas, escolares… E fiquei com alguns parcos deles que mais me interessavam, daqueles que já li até seis vezes ou apenas uma única vez, mas os guardei porque a capa ou as ilustrações me encantavam.

O que não entendi, até hoje, é onde diabos se encontram mais um desses ladrões intelectuais. Fascinante seria se existissem mais pelo mundo! Você pode deixar um caminhão abarrotado de livros até a tampa, aberto, em qualquer esquina, por dias, que ele jamais será roubado. Mas isso é outra história que contarei posteriormente…

Sabe como eu gosto de livros, hoje? Sujo, depenado, com cheiro de manuseado e denotando a sua idade nas rugas e borras de xícaras de café nas beiradas das páginas. Livro com cara de mapoteca, com resquícios de perfume emprestado, com fios de cabelos longos, soltos por suas páginas, sem dona. Com marcadores de pétalas de flores desidratadas. Com marcas de dedo engordurado, batom, beiradas das páginas amareladas pelo tempo ou manuseio, rasuras e anotações descabidas e números de telefones que já não existem. Carimbos de ex-proprietários e recadinhos de quem já virou entidade. Adoro um livro que parece ter voltado da guerra. Orgulha-me saber que ele lutou para ser lido por tantos em tão pouco tempo e o seu estado de manuseio demonstra o quão bom ele é.

O que me fascina é poder entender o que o locatário tentou entender com aquele objeto, com aquela história. É saber que aquele livro passou nas mãos de muita gente. Livro usado é tão bom quanto a mulher experiente. Mas isso também é outra história…

No meu caso e dos meus exemplares a maioria volta para casa. Por pura pressão psicológica eu ainda consigo fazer com que retornem quando os empresto. Antes eles não saíam da minha alçada. Hoje faço questão que os levem e que rodem o mundo como um bom “verneano”. Quando fico sabendo que fulano emprestou meu livro para outro sicrano me dá um êxtase maravilhado sem noção que me faz acreditar que, através daquele pedaço de bolo de papel que carrego, muita gente consegue ter a mesma emoção que eu ao ler aquelas páginas. É uma euforia bacana, como se as bochechas estivessem ardidas pelo buquê de um bom vinho e me batesse uma embriaguez de felicidade. Alguns chegam de volta rapidinhos, com um ou dois meses.

As pessoas de hoje em dia demoram demais a ler livros. As redes sociais as ensinaram a fragmentar suas ideias em algumas míseras linhas. Mas têm outros que rodam como bandeirantes, desbravadores, piratas, naus sem rumo e andarilhos sem tempo e espaço e quando retornam pra casa, demoraram de um a três anos desgarrados pelo mundo e ensinando e desaprendendo.

Pessoas como eu são muito fáceis de agradar ao presentear e nem precisam ter medo de se sentirem previsíveis dando livros de presente. Porque o objeto pode ser o mesmo em sua forma, consistência, peso, cheiro e gosto, mas jamais em toda sua existência e essência um livro será igual ao outro. Tornam-se diferentes até mesmo a cada leitor. E reler é sempre muito mais divertido, dependendo da literatura.

Hoje, a minha paranoia metódica psicótica com os livros é apenas saber que um bom livro, como objeto, está sempre de passagem.

Laz Muniz
Paleontólogo de Araque

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Laz Muniz cultiva trepadeiras em arranha-céus e cria marimbondos debaixo do travesseiro. Cozinha para si mesmo (Ainda bem que a comida do seu cachorro já vem pronta, lhe poupando algumas horas de vida). E por falar em vida, faz desenhos para viver só porque não sabe fazer forcas e guilhotinas, o que seria muito mais rentável. Mas, quando criança, aprendeu com a doméstica da casa da sua avó a fazer um bodoque de galho de goiabeira e câmara de ar de pneu de bicicleta que é uma maravilha! Se define como escrevinheiro de mariolas ou desenheiro de escrivinhações. Ou seja, um Iluscritor. Facebook: http://facebok.com/lazmuniz Instagram: http://instagram.com/lazmuniz Twitter: http://twitter.com/lazmuniz Blog: http://lzmz.blogspot.com