Tapera: reduto indígena e de um povo que sabe viver

Os pequenos lugarejos entre Serro e Conceição do Mato Dentro encantam qualquer turista que busca informações sobre a Estrada Real. Depois de Serro do Frio, vimos Itapanhoacanga, distrito de Alvorada de Minas, das igrejas abandonadas. Agora, chegamos a Santo Antônio do Norte, a 12 quilômetros, pertencente a Conceição do Mato Dentro, das ermidas conservadas. E reparem: a sua comunidade arca com os custos. E ninguém diz o nome do lugar, mas o seu tradicional apelido: Tapera. Aluísio Pimenta, morador da Vila, explica o nome: “Aqui, depois das constantes revoltas dos índios Botocudos, virou uma tapera, em ruínas”.

Filho de Aluísio, Flávio dos Santos Pimenta, diretor do educandário local — Escola Estadual Professora Maria Amélia Ribeiro — é autor do livro “Tapera, relato de uma bela história”. Em sua obra, conta várias histórias, incluindo a dos Botocudos que se revoltaram com a constante movimentação na passagem de caravanas levando o ouro para Portugal. Como represália, os indígenas ferozes queimaram uma fábrica de lençóis que havia no povoado. Original, o autor ouviu as narrativas de uma ex-escrava chamada Rita, falecida, e que viveu a plenitude da época.

O entusiasmo do povo taperense é enorme e reflete no casario local, a começar pelas igrejas. Uma delas, a Capela de Sant’Ana, foi reformada pelos religiosos locais. Por várias vezes passei no lugar e testemunhei o andamento das obras. O seu principal responsável foi o Padre Manoel Godoy, que foi auxiliar de Dom José Maria Pires, nascido na região e Bispo Emérito da Paraíba. A outra igreja, Matriz de Santo Antônio, sempre mantida pela comunidade, é também uma peça rara. Quem cuidava dela era o pároco Antônio Alves Ribeiro, exímio carpinteiro, segundo os próprios moradores. E na entrada do arraial, para quem vem de outro distrito conceicionense, Córregos, há um sacrário que a ex-juíza e caminhante da Estrada Real, Diva Doroty, mandou restaurar.

O povo de Tapera nos cercava e queria nos fazer perguntas e afirmativas curiosas como:
– A Estrada Real vai mesmo vingar e mudar esta região?
– Vocês, da imprensa, precisam pedir aos governos melhorias para as nossas estradas.
– Quem mais esquentou aqui na passagem foram as mulheres caminhantes da Estrada Real. Vocês sabem quando elas voltam?
– Divulguem aí que estão começando a trabalhar várias frentes de mineração na região. Infelizmente Tapera não tem condições de receber empresas de peões.

E não deixaram os taperenses de falar sobre duas festas importantes que ocorrem na Vila: o Natal e a Semana Santa. Segundo Saudalita Pires de Barros, nessas épocas as casas ficam ainda mais bonitas, como a casa dela que se localiza na rua principal. Os moradores querem visitas de turistas, mas não de trabalhadores das montagens de usinas de tratamento de minério de ferro. Está mais uma vez dado o recado.

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.