Substantivo Feminino Primavera

{É formidável (Adj.) como celebramos a primavera de modo tão esplendoroso (Adj.) e lírico (Adj.), tal qual colorido (Adj.), perfumado (Adj.) e alegre (Adj.). E eu nem precisaria explicar tantos adjetivos para substanciar tamanha grandiosidade das nossas fantasias advindas dos contos de fadas, desde a infância, do teatrinho na escolinha, das historinhas dos avôs, das crônicas sertanejas, da literatura fantástica até o cinema}.

          Mas é toda uma beleza evidente em qualquer canto que se vá.

Calma, isso é desde que você não more em uma selva de pedras, no alto de um arranha-céu, em meio a turbulentas ondas sonoras de buzinas, sirenas, rolagens automotivas, correrias, bravos comerciantes ambulantes que, aos berros, clamam por suas atenções diárias para salvar o pão nosso de cada dia, avião, helicóptero, avião de novo e mais uma vez a buzina do carro da pamonha e a música do caminhão de gás; as arrancadas e derrapadas, badalos das igrejas, pastores nas praças, apitos do guarda de trânsito, da polícia, “pega ladrããõoo!!!” Deus nos acuda é o berro da criança querendo churro e o pai arrastando-a em contrariedade como simbologia da negativa corporal, e lá vem aquele maldito cachorro, de novo, latindo do lado de cá da avenida pra cadela do outro lado, a seis pistas de distância que os separam de uma putaria daquelas em plena luz do dia, debaixo dos olhares transeuntes de gente que ousa tratar tamanha pornografia (sem grafia) como algo normal.

          Mas onde estava mesmo a primavera?

{Ah, o zumbido das abelhinhas (S.f.) fofas, a polinização (S.f.), as borboletinhas (S.f.), os caramujinhos (S.m.), os passarinhos (S.m.) coloridos embelezando com seu canto a natureza (S.f.) e as vaquinhas (S.f.), nossa, as vaquinhas (S.f.), os bezerrinhos (S.m.), o boizim (S.m.+ Adj. Coloquial), oh, gente! Tem florzinhas (S.f.) aos milhares, frutas (S.f.) no pé, água (S.f.) cristalina, papagaios (S.m.), ararinhas (S.f.), arco-íris (S.m.), ipês (S.m.) amarelos , rosas, brancos, rosas e azuis; rosas (S.f.) chá, rosas (S.f.)  vermelhas, rosas (S.f.) brancas, rosas (S.f.) negras, rosas (S.f.) rosas também tem.}

          Mas, e aquele cachorro da cadela da avenida de seis pistas e a pornochanchada animal em plena natureza à luz da urbe nossa de cada dia?

Ah, tá…

Ele veio lá da roça do Seu Zé. Caminhou oito dias pelo asfalto quente escaldado. Chegou ao centro da cidade grande com bafo quente de bueiro de porta de esgoto fast-food e trouxe a primavera. Trouxe a primavera na danada da sarna que ele carregou esse tempo todo junto à cria e proliferação das pulgas que lhe encobriram o couro e brigavam por espaço com os carrapatos. Lá de onde ele veio o Seu Zé não comemora primavera não porque as borboletas aparecem aos montes todos os dias em sua horta, seu sustento, e delas vem junto aquela prole inominável de lagartas devastadoras e do pasto vem bicho de pé (os já citados carrapatos e pulgas) e tem rato igual na cidade, tem gambá, tem maritaca que destrói todo o pomar (além de “falar” muito alto e incomodar desde muito cedo), tem cantos variados para acasalamento e a mesma barulheira infernal da cidade grande, tem água contaminada de agrotóxico, tem aceiro pra evitar queimada, tem queimada sem aceiro, tem fumaça do aceiro e do cigarrinho de palha. Muita cocozada fétida no caminho, na porta de casa, na água, tem titica e bolotinha de cabrito. Igual na cidade grande, na roça também tem baratas e esgoto, tem poeirada danada levantada pelos carros, caminhões e cavalgadas pelas estradas de terra, tem mosquito. Muuuiiitoooo mosquito, mosca, queijo infestado e leite azedo. A primavera traz bicho peçonhento, é época de cria, de polinização, de infestação de pragas e os danados, como não podem deixar de ser, adoram entrar pra dentro de casa. Dentro dos calçados, nas toalhas de rosto penduradas no banheiro, atrás da cortina e debaixo das cobertas, como atrás dos guarda-roupas e debaixo dos assoalhos. É uma briga danada pelo mesmo espaço úmido, quente, fétido, gelado, seco, sujo, limpo, o escambau!

Não tem jeito, o sol nasce pra todos e a chuva também, o vento, as viroses, as manifestações climáticas como desastres naturais e, ainda assim, é tudo muito lindo. É linda essa primavera!

Agora vamos reclamar do verão…

Laz Muniz
 (açougueiro e botânico nas horas vagas)

Comentários

Laz Muniz cultiva trepadeiras em arranha-céus e cria marimbondos debaixo do travesseiro. Cozinha para si mesmo (Ainda bem que a comida do seu cachorro já vem pronta, lhe poupando algumas horas de vida). E por falar em vida, faz desenhos para viver só porque não sabe fazer forcas e guilhotinas, o que seria muito mais rentável. Mas, quando criança, aprendeu com a doméstica da casa da sua avó a fazer um bodoque de galho de goiabeira e câmara de ar de pneu de bicicleta que é uma maravilha! Se define como escrevinheiro de mariolas ou desenheiro de escrivinhações. Ou seja, um Iluscritor. Facebook: http://facebok.com/lazmuniz Instagram: http://instagram.com/lazmuniz Twitter: http://twitter.com/lazmuniz Blog: http://lzmz.blogspot.com