Sobre se permitir

Vou contar uma historinha curtinha sobre minha vida.

Muito novinha eu aprendi o significado literal da palavra “mudança”: colocar as coisas numa caixa ou numa mala, juntar todas as caixas e malas da família num caminhão e levar para outra casa, em uma outra cidade. Essa rotina se repetiu muitas vezes para a minha família. Natural, já que meu pai precisava atender às necessidades profissionais. Nós fizemos o que toda família unida faz: o acompanhamos.

Mudar, de moradia, de cidade e de estado, sempre foi – pra mim – uma constante. Meus pais colocavam a gente para brincar de guardar coisas na caixa. E, assim, meus irmãos e eu aprendemos logo a importância de se apegar ao que é extremamente necessário e deixar para trás o que não se vai mais precisar.

Óbvio que essa vida nômade teve várias outras consequências em nossa vida. Nós passamos muito tempo sem a convivência próxima com tios, primos e avós, por exemplo. Durante anos, não tivemos a noção do que é “criar raízes” e ter amigos de infância. Mas com o tempo, a vida foi dando seu jeito de nos ressarcir essas faltas e as coisas foram chegando no lugar.

A vida meio cigana nos transformou em crianças curiosas, ávidas por aprender tudo rápido. A gente conheceu inúmeros lugares, alguns de passagem, outros de muito perto. Vivemos situações inacreditavelmente surreais, inexplicavelmente cômicas e poucas vezes tristes.

E nos tornamos crianças afetuosas, adolescentes apaixonados e adultos intensos. Quando gostamos, gostamos muito! E vivemos tudo como se fosse o último dia, porque muitas vezes foi! Aprendemos a nos apegar rápido aos bons sentimentos e nos dedicamos aos amigos de forma quase devota… porque em algum momento aquela amizade poderia ser deixada para trás por conta de uma nova mudança.

O lado ruim é que também aprendemos a lidar rápido com as ausências e o desapego não se torna tão dolorido. A gente aprendeu a separar as coisas. Algo que o amadurecimento precoce meio que nos impôs. A intensidade do gostar é igualmente proporcional à intensidade de esquecer. Dói, mas acaba rápido!

Por isso, eu me tornei uma pessoa que se joga de cabeça mesmo. Me permito aproveitar as situações até onde eu consigo ir fundo nelas. Se é pra amar, amo muito. Se é pra se dedicar, me dedico sem medidas. Se é pra enfiar o pé na jaca, faço acampamento embaixo de uma jaqueira. Se é para sofrer uma perda, choro até as lágrimas secarem. Mas não deixo as coisas passarem. Ninguém passa por mim sem saber a impressão que me causou e o sentimento que me deixou.

Acho isso o mais importante: se permitir. Haverá decepções? Sim! Haverá sofrimento? Também. Haverá frustrações? Muitas vezes. Mas haverá carinho, amor, troca de energia positiva, um montão de amigos e um sem-número de histórias boas para relembrar, reviver e ter certeza de que valeu à pena viver plenamente!

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Tatiana Linhares. Muitas. Jornalista. Mineira. Tatuada. Outono e primavera. Pão de queijo. Livros. Música. Revistas. Cinema. Teatro. Futebol. Cruzeiro. Viagens de carro. Areia e mar. Esmalte colorido. Cerveja gelada. Família grande. Incontáveis amores. Paixonites agudas. Saudade. Simplicidade. Palavras