ESTRADA REAL: Senhora do Carmo: quanta agitação ocorria aí! É onde hoje mora a senhora Monotonia da Silva

Para que os eventuais — se existem — leitores desta página não percam como anda a carruagem, vou explicando sempre o motivo de descrever os caminhos da Estrada Real. Atrações turísticas são o que ela tem. Viagem longa. Iniciei a jornada em Diamantina, passei por suas localidades rurais na rota, alcancei Serro, um distrito de Alvorada de Minas, dois de Conceição do Mato Dentro, a própria terra de Juvêncio Guimarães e me aportei em Morro do Pilar, depois Itambé do Mato Dentro. Pronto: agora chego a Senhora do Carmo de tanta gente boa como Ildeu de Oliveria, Altamiro Coelho Jácome, Luiz Titi, Sebastião de Oliveira e outros mais.

Quando era criança, trabalhava como caixeiro na loja de meu pai, em São Sebastião do Rio Preto, idos de 1950 e 60. Naquele tempo já existiam os chamados vendedores-viajantes, que percorriam todo o mapa geográfico de Minas Gerais e do Brasil. À loja apareciam “jipes de fumeiros”, vendedores das fábricas de Itabira (Pedreira e Gabiroba), viajantes de Belo Horizonte e Santa Bárbara e distribuidores de mercadorias de Senhora do Carmo, um distrito muito movimentado, que expandia o seu atacado de praticamente tudo por todos os cantos da região. Era, portanto, um centro comercial de notável envergadura. Vamos rever os seus nomes, sequentemente: Fazenda das Cobras, Andaime, Onça, Carmo de Itabira, Nossa Senhora do Carmo e Senhora do Carmo.

Não se entende o porquê esse glamoroso distrito ainda não se igualou ou superou Ipoema, se tem vida mais longa, mais tradição e guarda uma história com capítulos emocionantes. Para início de conversa, Senhora do Carmo é uma comunidade anterior a Itabira, de onde é distrito. No final do século 17 e início do 18, segundo o Livro do Tombo da Paróquia local, foi concedida Carta de Sesmaria ao português Chrispiniano de Souza Coutinho, dando a ele a Fazenda das Cobras, que se transformou na vila depois de doações de terrenos efetuadas pelo Capitão José Luiz Machado.

O motivo de Ipoema ter saído na frente está ligado simplesmente ao que se fez nos dois distritos itabiranos: em Ipoema, o Museu do Tropeiro, início da arrancada turística na região, nasceu antes de ter sido construído, montado, difundido; em Senhora do Carmo, pensou-se primeiro na construção do Centro de Tradições e até o momento não se sabe o que se faria na obra. Carmo tem grupos folclóricos espalhados por toda a região, contadores de causos, batuqueiros, pagodeiros, jogadores de truco, fazendas históricas e vestígios do período da escravidão,.. alguém teria de movimentar toda essa complexidade de belezas e riquezas para planejar e montar o que se fazer com a imponente obra. Nasceu o Centro de Tradições sem função e até os dias atuais continua sendo um elefantinho branco. Para tudo há tempo ainda. Quem sabe?

O turista que visita ou passa pelo distrito conhece uma operadora de turismo e com a ajuda dela viaja pelas redondezas, de carro ou a cavalo, conhecendo as paisagens, cachoeiras e fazendas. O amante de esportes radicais tem como perspectiva o trekking, o mountain bike e o rapel. E caso queira reviver o dia a dia monótono, o tempo que, realmente, para de passar, hospeda-se numa casa alugada ou numa pousada, na rua de Dona Monotonia da Silva, e vive de verdade o dobro do tempo que teria pela frente caso morasse num centro urbano populoso, adiantado agitado.

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José Almeida Sana, ou simplesmente, José Sana, é ex-vereador em Itabira (dois mandatos), ex-presidente da Câmara (duas legislaturas), ex-funcionário da Vale, jornalista, microempresário, historiador com foco em História do Brasil e Patrimônio Histórico e Cultural (especializações), prefere temas existenciais, sem dispensar alguns passatempos e futilidades.