Que da náusea possa nascer à flor

Tirar a cabeça do travesseiro de manhã cedo apenas para saber de mais uma barbárie. Em cada esquina, em cada página de jornal, no telejornal da manhã, da tarde e da noite, nas ondas do rádio e em cada clique na Internet. Está ali, sempre ali. E chega com as primeiras luzes do sol para interromper a calmaria do sono e a leveza do sonho só para amargar a boca antes mesmo do primeiro gole de café.

Alguns dizem: são sinais desse nosso tempo. Eu não posso acreditar nisso. E mais, me recuso a participar disso. Não posso acreditar que um tempo, uma geração possa ser marcada por toda essa intolerância, desrespeito e ódio. Quem consegue encontrar representatividade no pastor que destila preconceito, no padre que abusa da criança e no missionário que instiga a violência. Como posso crer nisso?

Me espanta que tanto conflito seja gerado por coisa tão banal como o dinheiro. Que alguns acreditem que mais vale um bolso cheio do que uma comunidade harmônica. Que prefiram ser lembrados pelo tamanho da TV na sala e do modelo do carro do que pela construção de um mundo sustentável – e sustentado pelos sorrisos. E que bradam: consumir, acumular, consumir, acumular… por que temos que comprar isso?

Violência contra a mulher, violência contra o negro, violência contra o índio, violência contra o pobre, violência contra o homossexual, violência contra o transgênero… violência, violência, violência e mais violência. Essas são as manchetes diárias que nos são jogadas cotidianamente: por baixo das portas em periódicos matutinos, nos embrulhos dos peixes comprados na peixaria, no compartilhamento do amigo na rede social e no outdoor fixado na avenida. Como podem aceitar tanto açoite?

Que estalam a cada novo escândalo político: desvio ali, propina aqui. Em cada colarinho branco uma lei que trata o povo na mais pura injustiça – pera aí, não era pra ser com justiça? Não sei não, mas parece que tudo parou no tempo. Entra um novo governo e muda-se o regime, mas as manchetes se sucedem repetitivas. Tem alguma coisa errada ali (e aqui e acolá!).

Revolto-me silenciosamente e me ponho a escrever. Minhas únicas armas em qualquer momento. Teço palavras, mal amarradas, na esperança de, assim como o poeta, conseguir divisar, em meio a essas ruas cinzentas, uma flor. Talvez a mesma que em 1945 “furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”. Mas se não puder ser a mesma, que ao menos seja uma que consiga trazer uma gota de esperança para que a cada manhã o amargor na boca seja apenas do café passado nos primeiros raios de sol – que renovação.

Texto livremente inspirado no poema “A Flor e a Náusea” de Carlos Drummond de Andrade. Uma breve inspiração nessa semana em que comemoramos mais um aniversário de nascimento do poeta. Leia abaixo os versos na íntegra:

A Flor e a Náusea
Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjoo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.

O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!

Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres, mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

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A profissão é jornalista. A diversão é um livro. Mas também pode ser um filme ou uma série. O esporte é futebol - desde que acompanhado do sofá da sala. O universo digital exerce grande interesse. Não dispensa uma xícara de café ou um copinho de cerveja.