Quando Criança, eu Contava Vagão

Quando criança, eu contava vagão…

Mas era assim porque o trem passava na porta da minha casa. De um lado, a janela do meu quarto, na rua principal da cidade, do outro lado, paralela, a linha férrea.

Eu e meus amigos brincávamos de corrida de equilibristas nas linhas de aço. Nas madeiras de braúnas que faziam os dormentes, tínhamos que saltar de dois em dois. Mas o mais lindo de tudo era escutar, ao longe, a buzina do trem que ecoava do túnel, aquela bocarra enorme que a montanha abria para colocar seu desabafo para fora. Ainda escuto no vácuo da memória esse som de infância. Escutar uma máquina dessas, hoje, não tem o mesmo sentido. O som da saudade é maior e mais fantástico que o som da realidade.

Mas nem tudo são flores. O trem anuncia sua chegada a toda cidade como um grande ser mitológico. Éramos nórdicos nos preparando para a chegada do grande Kraken! Houve guerras. Máquinas desbravaram montanhas, rastros intermináveis foram deixados a ferro e fogo… Nessa história de um povo todo e sua bravura, meu avô contava que ela chegou simplesmente impondo meios de dar passagem, como saúvas abrindo caminhos para carregar suas riquezas para o ninho da Rainha. A Maria Fumaça e seu rastro de nuvem negra. Linda, imponente, devastadora e perigosa.

Já tive vizinhos que perderam muros e até as próprias casas quando aquela serpente descarrilava e vinha frenética para fora dos trilhos arrastando tudo… Já presenciei muito… Minha mãe, na infância, perdeu seu cão de estimação naquelas linhas. Muita gente, inclusive, já se despediu por ali… Meros transeuntes, bêbados, suicidas… Tenho amigo sem perna porque brincou de subir no trem em movimento.

Nos momentos de fúria, já taquei muita pedra em vagão. Aqueles mesmos que eu contava pra me acalmar, disputar meus recordes, passar o tempo, provar que tem trem demais na mineiridade de um homem só.

O mesmo trem que leva minério e levou ouro, levou almas e corações – como dizia Drummond – hoje também deixou rastros de vastidão em lugar de linhas férreas desativadas e um nada incomum sem alma. Ficamos como soldados neuróticos de guerra esperando pelo inimigo a qualquer momento, sem que ele ainda exista.

Mas depois que desativaram o trem da minha terra, nunca mais consegui dormir direito, porque era o barulho dele, de quinze em quinze minutos desde que nasci, que me ninava. E só era assim porque o trem passava na porta da minha casa.

Quando criança, eu contava vagão…

Crônica publicada originalmente no livro antologia de escritores e ilustradores da AEI-LIJ (Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil) TREM DE HISTÓRIAS, organização de Alex Gomes, Caki Books Editora, 2011.

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Laz Muniz cultiva trepadeiras em arranha-céus e cria marimbondos debaixo do travesseiro. Cozinha para si mesmo (Ainda bem que a comida do seu cachorro já vem pronta, lhe poupando algumas horas de vida). E por falar em vida, faz desenhos para viver só porque não sabe fazer forcas e guilhotinas, o que seria muito mais rentável. Mas, quando criança, aprendeu com a doméstica da casa da sua avó a fazer um bodoque de galho de goiabeira e câmara de ar de pneu de bicicleta que é uma maravilha! Se define como escrevinheiro de mariolas ou desenheiro de escrivinhações. Ou seja, um Iluscritor. Facebook: http://facebok.com/lazmuniz Instagram: http://instagram.com/lazmuniz Twitter: http://twitter.com/lazmuniz Blog: http://lzmz.blogspot.com