PORTUGUÊS: Um pouco mais de miscelânea em português

Caros leitores, devido a pedidos, essa semana a nossa coluna publicará um pouco mais de miscelânea em português, exatamente porque os pequenos desvios costumam derrubar os incautos. Portanto, fiquem atentos e prestem atenção.

Vamos às dicas!

Verbos reflexivos requerem forma flexionada do infinitivo: “dois homens são obrigados a se confrontar”; “dois homens são obrigados a se confrontarem” – o emprego do infinitivo flexionado é responsável por frequentes dúvidas. Trata-se de uma estrutura peculiar à língua portuguesa, que está, em muitos casos, sujeita a diferentes interpretações.

O caso proposto hoje requer atenção. Vale a pena lembrar que pessoas são obrigadas a fazer alguma coisa (note que não há flexão do infinitivo que completa o verbo apassivado), mas, se essa forma verbal estiver acompanhada de um pronome átono, a situação vai mudar. Verbos pronominais e reflexivos requerem flexão de número. Assim, temos que, no caso em questão, o ideal é o emprego do infinitivo flexionado: “Dois homens são obrigados a se confrontarem”.

“Tampouco” dispensa o “nem”: “O relatório final do delegado da PF Rodrigo Carneiro já enfrentava esses pontos. Segundo a investigação, ‘Mattoso não tinha nenhum motivo pessoal para [fazer]tal pesquisa nem tampouco se interessaria ou se envolveria pessoalmente [nisso]’”.

No fragmento acima, reprodução de uma declaração, observamos o uso da construção “nem tampouco”, uso, aliás, comum na linguagem oral. O fato é que “tampouco”, sozinho, já tem significado negativo. O advérbio quer dizer “também não”. O emprego da segunda negativa (“nem”), portanto, é considerado uma redundância.

Do ponto de vista da norma culta, a forma “tampouco” emprega-se depois de uma oração negativa, dela separada por uma vírgula: “Não me contou onde esteve, tampouco perguntou aonde eu tinha ido”. Assim, o texto da passagem transcrita poderia ser corrigido da seguinte forma: O relatório final do delegado da PF Rodrigo Carneiro já enfrentava esses pontos. Segundo a investigação, “Mattoso não tinha nenhum motivo pessoal para [fazer]tal pesquisa, tampouco se interessaria ou se envolveria pessoalmente [nisso]”.

Resistência em, com ou a?: “Numa demonstração explícita da resistência dos movimentos sociais com Dilma Rousseff, o líder do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)…” O substantivo “resistência” requer complemento encabeçado pela preposição “a”: “Os EUA vêm enfrentando resistência dos aliados europeus a fazer isso”. O mesmo vale para o verbo “resistir”: “Exortou a população a resistir à mudança”; “Muitos paulistanos resistem a deixar o carro na garagem” etc. Veja, abaixo, o texto corrigido: Numa demonstração explícita da resistência dos movimentos sociais a Dilma Rousseff, o líder do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra)…

“Há” ou “a”?: “As mudanças propostas não vêm sofrendo críticas substanciais, a não ser pelo fato de terem sido anunciadas há poucos meses da aplicação das provas, como noticiou esta Folha na reportagem ‘A seis meses do vestibular, USP muda 2ª fase’.” Não é incomum que a confusão entre “a” e “há” ocorra na construção que se observa na passagem acima. É bom que se diga, antes de outros comentários, que é a forma do verbo “haver” que se emprega para indicar a ideia de tempo decorrido.

São corretas, portanto, construções como “Há poucos meses, foram aplicadas provas” ou “Há dois dias, ocorreu um grave acidente”, em que a forma verbal “há” equivale a “faz” (“Faz dois meses que…”, “Faz dois dias que…”). Uma construção alternativa seria “poucos meses atrás” ou “dois dias atrás”, em que o advérbio “atrás” substitui as formas verbais (“há” ou “faz”), indicando a mesma ideia de tempo passado.

Muito bem. No fragmento selecionado, ocorre outra construção, que equivale a “poucos meses antes da aplicação das provas”. Temos agora uma situação de distância no tempo, mas não de tempo decorrido. Nesse caso, usa-se a preposição “a”, não a forma verbal “há”. Isso fica claro até mesmo no título da reportagem citada no trecho, em que corretamente se empregou a preposição: “A seis meses do vestibular, USP muda 2ª fase” – ou seja, seis meses antes do vestibular, USP muda 2ª fase.

A seguir, o texto corrigido: As mudanças propostas não vêm sofrendo críticas substanciais, a não ser pelo fato de terem sido anunciadas a poucos meses da aplicação das provas, como noticiou esta Folha na reportagem “A seis meses do vestibular, USP muda 2ª fase”.
Até a próxima semana.

Abraços!

Fonte: Dicas de Português – Thaís Nicoleti

LEIA OUTROS ARTIGOS DA COLUNAS “PORTUGUÊS”

Comentários

Celso Charneca Leopoldino é graduado em Comunicação Social com habilitação em Jornalismo, pós-graduação em Marketing para Executivos e MBA em Gestão Socioambiental. Fez vários cursos nas áreas de gestão social e de gestão de comunicação estratégica. Possui mais de 35 anos de experiência em comunicação empresarial, gestão social, relações com comunidades e relações institucionais.