PORTUGUÊS: Perna de pau ou perna-de-pau?

Prezado leitor, como estamos em época de Copa do Mundo, a dica da coluna dessa semana é sobre um assunto ligado ao futebol. Você chama um mau jogador de futebol de perna de pau ou de perna-de-pau?

Em 1944, o jornalista Mário Filho redigiu uma frase histórica: “A perna que não chutava dava uma impressão desagradável de coisa postiça. Para o homem da arquibancada, era de pau.”

Pela criatividade vocabular, advinda do importante processo metafórico na criação textual, Mário Filho cunhou uma das palavras mais usadas no futebol brasileiro: perna de pau. Justamente por ser uma palavra composta, não deveria, pois, essa expressão ser registrada com hífen? Vejamos o que traz o texto do Novo Acordo Ortográfico:

III – Quanto ao hífen:

Em compostos

Não se emprega o hífen nos compostos por justaposição com termo de ligação, como pé de moleque, tomara que caia, quarto e sala, exceto nos compostos que designam espécies botânicas e zoológicas, como ipê-do-cerrado, bem-te-vi, porco-da -índia, etc.

Eis aqui uma enorme curiosidade: a nossa Língua registra oficialmente “perna de pau” e “perna-de-pau”, com sentidos distintos.

Sem o uso de hífen, a expressão “perna de pau” corresponde a “pessoa que não tem uma perna ou tem uma delas defeituosa; perneta; jogador de má qualidade; pessoa desajeitada ou medíocre em sua atividade ou profissão.”

Já com o uso de hífen, “perna-de-pau” corresponde a “pernilongo”. Por ser termo que designa espécie zoológica, o hífen deve existir.

Quanto à variação, há uma semelhança entre as duas expressões: o plural está na primeira palavra, devido ao termo de ligação: “pernas de pau”, “pernas-de-pau”.

Nesse citado caso, o hífen tem importantíssima função: pode ser – a depender da sentença – o único sinal a determinar o real sentido vocabular. Vejamos:

  • “No campo, não se incomodava com os pernas de pau.” (aqui, o termo “campo” deve ser o gramado; pernas de pau são os jogadores ruins.)
  • “No campo, não se incomodava com os pernas-de-pau.” (aqui, pernas-de-pau são necessariamente os pernilongos).

Em suma, a escrita depende muito do conhecimento ortográfico; com o estudo da norma e dos motivos dela, o escritor terá ferramentas diversas, a fim de alterar o comportamento do leitor e informar com clareza.

Fonte: dicas de Diogo Arrais, professor de português

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